
O diretor teatral Antunes Filho
A seguir, reflexões de Antunes Filho a propósito de "A Falecida Vapt-Vupt", sua mais nova montagem teatral, que estréia dia 14 em SP. São palavras que atestam a capacidade inesgotável de mestre Antunes de, uma vez mais, criar, se recriar, se questionar, e assim manter seu enorme frescor e jovialidade como investigador profundo do hoje e do sempre do homem, em seus enredos e enredamentos nos palcos e na vida.
A FALECIDA VAPT VUPT
Sobreposição de Realidades
Dentro de uma realidade dada (um bar), sobreposições de outras realidades ficcionais simultâneas navegam imaginariamente (como as flutuações de Chagal) entre os fregueses e sobre as mesas. Alguém, naquele momento, estará imaginando, criando todas essas personagens que cercam Zulmira, atualizando a virtual história “A Falecida”? Que Autor? A um canto, condenada à sempre solidão, uma figura de Hopper.
Bidimensionalidade
Em outras montagens de “A Falecida” já se propôs uma interpretação junguiana, bem ao contrário do que até então se havia feito com as obras de Nelson Rodrigues, que além de serem sempre rotuladas como comédia de costumes eram calcadas numa visão freudiana. Dentro de uma leitura realizada através de Jung sobre o inconsciente coletivo, utilizou-se espaços profundos (três dimensões acentuadas com luzes apropriadas propiciando incertezas, névoas) que sugerisse estados hipnóticos, inconscientes.
Desta feita, ao contrario, aproveitando o humor do autor, a sua grande verve irônica e cáustica, propõe-se uma aproximada situação documental, popular e cotidiana: chapada, clara, uma dura gravura bidimensional que lembra figurações da Pop Art (Roy Lichtenstein, Andy Warhol, Jasper Johns, Rauschenberg, Claes Oidenburg)
Descentralização
Como em toda pintura clássica, o teatro afunila, centraliza, conduz o olhar do espectador para pontos centrais do palco que são determinados por degraus e patamares na sucessão linear da ação dramática, seja pelos movimentos de falas, atores, luzes e som (músicas, ruídos, etc.). Mas esse procedimento não mais se verifica totalmente na arte contemporânea: pintura, cinema, televisão, vídeo-arte, etc.
Essa nova concepção baseia-se no mundo caótico, hiper-real que se vive. Uma realidade inflada, bombardeando o homem em todos os sentidos, num entra e sai de dezenas de pessoas (como o metrô às 18h). A sociedade de consumo à toda com seus auto-falantes, cruzamento vertiginoso de imagens e sons, publicidade, rádios e toda a sucessiva parafernália eletrônica correspondente. Frequenta-se o “fast-food” por falta de tempo, mal troca-se palavras com o amigo que passa apressado.
As atenções são violentamente solicitadas – vê-se, avista-se, olha-se tantas coisas simultaneamente que tudo se embaralha tornando a vivência rasa, superficial. Uma percepção contemporânea exige uma outra sensibilidade.
Proposta
É essa sensação atordoante e fragmentada que está tentando se introduzir no teatro. Isso é contemporâneo: tornar o olhar e os ouvidos dos espectadores mais espertos, mais aguçados, fruto da fragmentação existente. A sensibilidade do homem está alterada radicalmente: deixou de ser, pode-se dizer, clássica, confortavelmente burguesa, sonolenta. Os tempos agora são outros – vapt vupt!
Seria absolutamente obsoleto, saudosista, arcaico, que se realizasse uma “A Falecida” nos moldes dos anos 80 e 90. Após a chuva, continuar desfilando com roupas vitorianas encolhidas! Esta diferente proposta de encenação , dessacralizada, rasteira, é colocada para que seja discutida a linguagem contemporânea do teatro. Que venham os do contra, que venham os a favor – que se crie novas coordenadas. Não será o momento de questionar através dos espetáculos a hiper-realidade que se vive fora do teatro?
ANTUNES FILHO
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