
Sonhava nesta madrugada que estava num congresso de teologia, e eu via, juro por deus que via anjos sobre os homens do púlpito, os conduzindo por tênues barbantes na boca e nos braços em suas performances repletas de citações bíblicas. Nas paredes, retratos do papa, sempre os mesmos, por toda parte, mas, não, pera, é a cara do Edir Macedo! Sob as vestes púrpuras e coroa vaticanas! Ele nos olhava de modo austero e profundo.Retratos seus em moldura de ouro, e abaixo de si um crucifixo de madeira podre. Quando um teólogo brilhante chegava ao clímax de um complexo raciocínio que comovia toda a audiência, passo a não mais escutá-lo, um barulho se interpõe entre mim e sua empolgação crescente de telepastor, fui acordado por ruídos do meu pobre apartamento estreito...baratas! muitas baratas! baratas ontológicas, gritei em pânico num estranho dialeto teológico, não sei se ainda sob a influência do sonho e do meu torpor de recém-acordado. Baratas se metamorfoseando em crianças, ou melhor, anões, carecas enrugados, de nariz comprido e mantos cor (e cheiro) de merda, e eles começaram a cantar, a princípio em sussurros, mas logo chegando aos berros. Lambiam-se uns aos outros, lava-pés de salivas!! E depois tiraram os mantos, estavam nus, de pau cada vez mais duro, asas também se expandiram nas costas, asas de barata, maiores que seus corpos! Os anões, escurecidos subitamente, começaram a se beijar e se masturbar uns aos outros, eu me levantei na cama e encostei as costas na parede, horrorizado, eles pouco se importavam comigo, e quando satisfeitos, romperam a vidraça do apartamento e partiram ao céu calado, sepucralmente calado, cortado só pelas asas de barata e pela mesma cantoria de ruídos de antes, compulsiva, incompreensível. Espalharam-se pelo céu da cidade. Eu ainda perplexo, com ânsias de vômito que tentava conter, desabei no chão. Na cabeceira, uma vela acesa, chama escarlate, e amassado, pútrido, meu Augusto dos Anjos aberto na cama, na rasurada página 666:
**
PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
Augusto dos Anjos
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Augusto dos Anjos
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
#
Profundissimamente hipocondríaco,
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
#
Já o verme – este operário das ruínas -
Já o verme – este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
#
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
1 comments:
Me perde aqui nessa loucura....me lembrei....
"Tente clarear a mente. Imagine esta experiência imaginária! E se algum demônio dissesse para você que esta vida, conforme a vive agora e a viveu no passado, terá que ser vivida novamente e inumeráveis outras vezes; ela não terá nada de novo, mas cada dor e cada alegria e tudo de inefavelmente pequeno ou grande em sua vida retornará para você, tudo na mesma sucessão e sequência: mesmo este vento e aquelas árvores e esse xale esquivo, mesmo o túmulo e o medo, mesmo este momento tranquilo e você e eu, de braços dados, murmurando estas palavras?
Imagine a eterna ampulheta da existência virada de cabeça para baixo novamente e novamente e novamente. A cada vez, também virados de cabeça para baixo estaremos eu e você, meras partículas que somos. "
Continuo achando Nietzsche um cara fodástico.
NÃO HÁ DEUS ALÉM DO HOMEM.
O homem tem o direito de viver pela sua própria lei
O homem tem o direito de matar aqueles que possam frustrar esses direitos.
"os escravos servirão." AL 2.58" Amor é a lei, amor sob vonte.
Post a Comment