
"O sacerdote desvaloriza, dessacraliza a natureza: é a esse custo que ele existe. - a desobediência a Deus, isto é, ao sacerdote, à 'Lei', recebe então o nome de 'pecado'; os meios de 'reconciliar-se com Deus' são, como é de esperar, meios com os quais a sujeição ao sacerdote é garantida ainda mais solidamente: apenas o sacerdote 'redime'... Psicologicamente, em toda sociedade organizada em torno ao sacerdote os 'pecados' são imprescindíveis: são autênticas alavancas do poder, o sacerdote vive dos pecados, ele necessita que se peque...Princípio supremo: 'Deus perdoa quem faz penitência' – em linguagem franca: quem se submete ao sacerdote.-"
FRIEDRICH NIETZSCHE
O Anticristo
O Anticristo
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Sacerdote dos tempos modernos: o médico, o terapeuta, o explica-dor. E dor se explica? Tanto faz: eles saem lucrando de todo modo. Sacerdote é o media-dor da dor média, da dor medíocre, da dor de mídia, comunicável na forma de "queixa", da dor tratável na forma de "genéricos" verbais ou químicos. Dor homogeneizada, dor higienizada, generalizada, butim dos exames e enxames de ôtoridades especialistas.
Semana passada, um programa de TV levava um epidemiologista para a balada, para passar sermão nos jovens que se beijavam no rosto, na boca, e assim se "incriminavam" com o risco da gripe suína.
Mandam a gente adiar o teatro. Mandam a gente assistir TV, internet. No tempo de Freud a gente sublimava, no tempo da fraude a gente virtualiza. Mandam a gente cancelar a festa. Festa finada, tudo in-festado, para lembrar o genial trocadilho de Jorge Forbes em conversação clínica com um pobre-diabo apavorado pelos riscos de vida e de morte. Festa que infesta. Beijo que mata. Judas Iscariotes. A vida calvário. Mandam a gente ficar em casa. Lavar bem com água e sabão era, na minha infância, castigo pra quem falava palavrão, agora é penitência a quem cometa a impureza de co-existir no mundo. Enquanto isso, nos explicam os sacerdotes na TV: um novo primo da família dos HIVs na praça. Esse vem dos gorilas. Todo cuidado é pouco.
Uma moça que adoro (que seria de mim sem elas, sem minhas "valquírias", como eram chamadas as mulheres em torno de Jung rs), de apelido Moranga, me dizia esses dias: "Sai desse pesadelo (São Paulo). Vai morar em Natal, Belém, Fortaleza. Vai morar no Sol. Lá você acha que o povo tá neurotizado assim, tá andando de máscara?". Achei tão lindo, tão camusiano isso. A gente se complica demais com tanta explica-dor e media-dor. Mascara-dor. A gente se mediocriza, a gente se mascara. A gente anestesia a dor e as tarefas que a dor aponta. A gente se dissolve e se queima em ácidos infelizes o doce jorro de gozo que a dor mal-comportada comporta.
Ir morar no Sol.. prefiro o Sol à História, ao histórico histérico. O Sol e a Lua: festa alquímica das potências vorazes da alma e do corpo. Que se fodam os sacerdotes da impotência. Fodam mais e expliquem menos. Mas com camisinha, claro, se quiserem até nos dedinhos, melhor se garantir rs.
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