
Excelente o artigo do professor José de Souza Martins, sociólogo da Universidade de São Paulo, ontem no Estadão (cf. abaixo). Martins é hoje mal-visto em muitos setores progressistas da sociedade civil, como se tivesse "traído" os ideais de esquerda ao aderir com entusiasmo ao governo FHC, de quem era grande amigo e devedor de uma preciosa indicação para prestigioso cargo na Universidade de Cambridge.
E uma amiga antropóloga bem advertia, numa conversa nesta sexta, que esse tipo de incompatibilidade ideológica acaba legitimando, em muitos casos, o manjado expediente da pirataria intelectual. Já que citar o velho Martins, o professor vindo da fábrica, e outrora engajado nas lutas camponesas e operárias, ficou "feio", ante o novo e "deslumbrado" Martins pós-Cambridge, então por que não lhe roubar as idéias e rebatizá-las como nossa invenção da roda?? Os escritos pró-movimentos sociais, prosseguia minha amiga, estão repletos de argumentos e conceitos de Martins, só que ele, porque agora "persona non grata" na esquerda, tem de ser silenciado... e expropriado!
Se há guinada no pensamento de Martins, ela deve ser investigada mais a fundo, sem a miopia ressentida dos que procuram motivos baixos em tudo (como se a própria estatura desses anões devesse ser parâmetro para mensurar os objetos de seus ódios mal-resolvidos, anões de bombas gigantes como o armário de recalques de onde eles as retiram).
Ao meu ver, o Martins de ontem, de hoje, de sempre, segue sendo uma leitura urgente para intelectuais decentes, de "direita" ou de "esquerda" (ahhh, velhos rótulos...). O artigo a seguir mostra bem o porquê. Não é Martins que mudou, mas é a sociedade que se acanalhou, na política, academia, nas igrejas, em todo lugar. Ou será que são instâncias que voltaram a ser o que sempre foram? Quanto ao Vaticano não restam dúvidas. João XXIII e seu legado libertador são uma solitária rosa no asfalto, pisoteada pela cambada de covardes que escondem no nome de Cristo suas taras e mentiras. E assim como na cúpula, na base da religião católica o retrocesso é patente, pela mordaça que vem sendo imposta desde que o papa nazista chamou Boff para a cadeira da Inquisição. O triste é ver que um dos frutos daqueles parênteses de sonho no modo brasileiro de ser apodrece, ou seja, se sarneyza: o PT, traidor de suas raízes populares e religiosas (as belas CEBs, experimento de cidadania) e rendido a uma lógica de eficácia, do sucesso, de perpetuação de poder, fodam-se escrúpulos e o imperativo da transformação moral e política.
Os fascistas, colaboracionistas, oportunistas ou simplesmente "idiotas úteis" estão na moda, ou se sentem assim, ou se representam assim, para outrem e para si. O assim chamado pensamento de direita, que está longe de ser burro, quando bem sustentado, abunda em epígonos, mas se mediocriza em substância. Precisaríamos nesse campo, até pra que o debate de idéias retomasse sua relevância, de mais nelson rodrigues do que nersos da capitinga, jecas deslumbrados de terno dark e bermuda de bolinhas furada e meias soquete marrom.
Martins não é nem uma coisa, nem outra. De modo algum é um deslumbrado, menos ainda um homem de direita. É um pensador relevante (caso raro entre nós) e provocante, fiel ao que é definidor do legado cristão-iluminista e portanto esquerdista, ou seja, o espírito crítico, sem hipocrisias (não há cor "legal" pra hipocrisia, seja vermelha, negra ou arco-íris) cobrando com coragem o retorno à dialética histórica autêntica e ao compromisso pela ruptura com o regime da fome de todos, não aos conchavos pela pequena ascensão de imensas barrigas egoístas de uns poucos.
***
Eis a depuração?
José de Souza Martins*
A saída de Marina Silva do PT amplia o elenco das perdas identitárias que vem drenando de seus quadros algumas de suas figuras mais emblemáticas: Luiza Erundina, Cristovam Buarque, Heloisa Helena. Na sua diversidade, são nomes expressivos na relação do Partido com setores moralmente sensíveis da sociedade brasileira. Faces visíveis de alguns dos grandes eleitores ocultos, decisivos na trajetória de qualquer partido político.
O PT é uma frente partidária que vem se estreitando. Nasceu como coalizão de tendências políticas e sociais de perfis muito desencontrados. Nasceu dos descontentamentos residuais em relação a partidos e tendências, de esquerda e conservadores. O PT se constituiu numa organização partidária fracionada mas articulada, em cujo interior podem ser identificadas duas grandes facções que são as protagonistas de sua dinâmica e de sua crise atual. De um lado, a facção do poder, dos que, em linhas gerais, procedem da esquerda convencional e do aparelho sindical. De outro lado, a facção religiosa que, mesmo tentada pelo demônio do poder, só tem legitimidade quando expressa o profetismo cristão, particularmente o católico, tão forte em nossa cultura popular.
Nesse embate, o profeta invisível se alça contra o rei, aponta-lhe o dedo, questiona-o em nome da verdade do povo, derruba-o moralmente em nome da utopia de um tempo de fartura, justiça e esperança. Nesses dias, um dos desiludidos com o PT disse que o partido jogou a moral no lixo. Na verdade, no lixo jogou mais do que a moral. Jogou a utopia que lhe deu cerne e estrutura, jogou sua própria alma. O PT oportunista corrompeu a identidade do PT inovador, o dos novos sujeitos da política que nasceram das exclusões cujo sentido se deu a ver durante os tempos repressivos da ditadura militar.
Lula, oriundo do sindicalismo de resultados e não propriamente do sindicalismo de luta, tornou-se um líder carismático porque em grande parte refabricado na mística do grupo de origem religiosa e, também, nos setores de esquerda que estavam ansiosos pelo poder para demonstrar sua competência como gestores não capitalistas do capital. Foi o modo de fazer com que o que era igual parecesse diferente. Seu carisma protegeu-o não só contra os descontentamentos populares em face de desregramentos como o do mensalão, e os possíveis descontentamentos das elites, mas sobretudo contra os descontentamentos no interior de seu próprio partido. A consequência tem sido o fortalecimento de seu absolutismo, o que se manifesta particularmente quando age como porta-voz da convenção partidária que não houve, do seu e de outros partidos, ao indicar Dilma Roussef como candidata à Presidência, Ciro Gomes para o governo de São Paulo e Henrique Meireles para o governo de Goiás. Hoje o PT é governado pelas conveniências do poder.
No entanto, o poder impôs ao PT a missão de transformar-se em partido político, o que tem implicado abrir mão de sua rica diversidade ideológica e suas conflitivas ideologias internas. As expulsões e desligamentos resultam desse processo de depuração, para que o partido faça de conta que continua sendo o mesmo para ser o oposto do que dizia ser. A crise de oportunismo que estamos vendo é a crise de nascimento do novo PT. Se o PT nasceu batizado como partido popular e religioso, está agora passando pelo rito do crisma, tendo como padrinhos Sarney, Collor, Jucá, Calheiros. Renasce modelado segundo as exigências de uma concepção retrógrada e rústica do poder, tendo como referência o reacionário oligarquismo da dominação patrimonial e o fisiologismo que lhe é próprio. Na rendição, ninguém escapa nem Aluísio Mercadante nem Ideli Salvatti cujos radicalismos se perdem na satanização do outro, na incompetência para a radicalidade, a de ir às raízes dos fatos e expô-las. Tornaram-se meros cúmplices.
Parasitando os movimentos sociais, o PT esperava transformar-se num sucedâneo civilizado do populismo rural e urbano. Aliou-se aos partidos e às figuras exponenciais do nosso atraso político na esperança de apossar-se de seu eleitorado. Mas na dialética desse tipo de interação acabou parasitado. Na sessão da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania para ouvir a sra. Lina Vieira, alta funcionária técnica do governo, recém demitida no confronto com a ministra da Casa Civil, a candidata de Lula à Presidência, o que se viu foi o governo do PT sendo defendido na primeira fila pela tropa de choque do oligarquismo e do fisiologismo. O partido substituído e representado por aquilo que foi no passado objeto de sua crítica e de sua contestação. E não faltou um PT policialesco, na retaguarda, inquirindo a depoente como se estivéssemos no tempo da ditadura, como se fosse ela que tivesse que explicar os arranjos que fazem do PT o que ele é hoje. Os ingênuos dos dois lados do embate não se deram conta de que a depoente, sem nada dizer, fê-los engalfinharem-se contra e a favor do que era até então um mero fantasma, o fantasma de Dilma Roussef, dando-lhe corpo e alma. Nem mesmo faltou a palavra inoportuna do presidente da República na tarefa que não lhe cabia, a de defender sua criatura desqualificando a funcionária.
O fato de que Marina Silva já apareça como opção eleitoral antes mesmo de ser oficialmente candidata, dá bem a medida da ansiedade que setores ponderáveis do PT e do eleitorado têm por uma candidatura que represente o retorno aos valores que deram carnalidade a Lula. O fenômeno Marina Silva é o primeiro e poderoso indício de que o carisma de Lula tem sido silenciosamente abalado em seus fundamentos, mesmo que as pesquisas de opinião dêem-lhe altas porcentagens de apreço popular, que não é a mesma coisa que opção eleitoral e partidária. Por outro lado, ao revelar que Ciro Gomes tem o mesmo índice de opções da candidata de Lula, as pesquisas indicam que a perda do seu carisma se desdobra também aí, na imaterialidade política da candidatura de Dilma Roussef, mesmo com as poderosas verbas do PAC. Ou, talvez, por isso.
*Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Dentre outros livros, autor de A Sociedade Vista do Abismo (Vozes, 2008), A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto, 2008), A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008), Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano (Contexto, 2009).
José de Souza Martins*
A saída de Marina Silva do PT amplia o elenco das perdas identitárias que vem drenando de seus quadros algumas de suas figuras mais emblemáticas: Luiza Erundina, Cristovam Buarque, Heloisa Helena. Na sua diversidade, são nomes expressivos na relação do Partido com setores moralmente sensíveis da sociedade brasileira. Faces visíveis de alguns dos grandes eleitores ocultos, decisivos na trajetória de qualquer partido político.
O PT é uma frente partidária que vem se estreitando. Nasceu como coalizão de tendências políticas e sociais de perfis muito desencontrados. Nasceu dos descontentamentos residuais em relação a partidos e tendências, de esquerda e conservadores. O PT se constituiu numa organização partidária fracionada mas articulada, em cujo interior podem ser identificadas duas grandes facções que são as protagonistas de sua dinâmica e de sua crise atual. De um lado, a facção do poder, dos que, em linhas gerais, procedem da esquerda convencional e do aparelho sindical. De outro lado, a facção religiosa que, mesmo tentada pelo demônio do poder, só tem legitimidade quando expressa o profetismo cristão, particularmente o católico, tão forte em nossa cultura popular.
Nesse embate, o profeta invisível se alça contra o rei, aponta-lhe o dedo, questiona-o em nome da verdade do povo, derruba-o moralmente em nome da utopia de um tempo de fartura, justiça e esperança. Nesses dias, um dos desiludidos com o PT disse que o partido jogou a moral no lixo. Na verdade, no lixo jogou mais do que a moral. Jogou a utopia que lhe deu cerne e estrutura, jogou sua própria alma. O PT oportunista corrompeu a identidade do PT inovador, o dos novos sujeitos da política que nasceram das exclusões cujo sentido se deu a ver durante os tempos repressivos da ditadura militar.
Lula, oriundo do sindicalismo de resultados e não propriamente do sindicalismo de luta, tornou-se um líder carismático porque em grande parte refabricado na mística do grupo de origem religiosa e, também, nos setores de esquerda que estavam ansiosos pelo poder para demonstrar sua competência como gestores não capitalistas do capital. Foi o modo de fazer com que o que era igual parecesse diferente. Seu carisma protegeu-o não só contra os descontentamentos populares em face de desregramentos como o do mensalão, e os possíveis descontentamentos das elites, mas sobretudo contra os descontentamentos no interior de seu próprio partido. A consequência tem sido o fortalecimento de seu absolutismo, o que se manifesta particularmente quando age como porta-voz da convenção partidária que não houve, do seu e de outros partidos, ao indicar Dilma Roussef como candidata à Presidência, Ciro Gomes para o governo de São Paulo e Henrique Meireles para o governo de Goiás. Hoje o PT é governado pelas conveniências do poder.
No entanto, o poder impôs ao PT a missão de transformar-se em partido político, o que tem implicado abrir mão de sua rica diversidade ideológica e suas conflitivas ideologias internas. As expulsões e desligamentos resultam desse processo de depuração, para que o partido faça de conta que continua sendo o mesmo para ser o oposto do que dizia ser. A crise de oportunismo que estamos vendo é a crise de nascimento do novo PT. Se o PT nasceu batizado como partido popular e religioso, está agora passando pelo rito do crisma, tendo como padrinhos Sarney, Collor, Jucá, Calheiros. Renasce modelado segundo as exigências de uma concepção retrógrada e rústica do poder, tendo como referência o reacionário oligarquismo da dominação patrimonial e o fisiologismo que lhe é próprio. Na rendição, ninguém escapa nem Aluísio Mercadante nem Ideli Salvatti cujos radicalismos se perdem na satanização do outro, na incompetência para a radicalidade, a de ir às raízes dos fatos e expô-las. Tornaram-se meros cúmplices.
Parasitando os movimentos sociais, o PT esperava transformar-se num sucedâneo civilizado do populismo rural e urbano. Aliou-se aos partidos e às figuras exponenciais do nosso atraso político na esperança de apossar-se de seu eleitorado. Mas na dialética desse tipo de interação acabou parasitado. Na sessão da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania para ouvir a sra. Lina Vieira, alta funcionária técnica do governo, recém demitida no confronto com a ministra da Casa Civil, a candidata de Lula à Presidência, o que se viu foi o governo do PT sendo defendido na primeira fila pela tropa de choque do oligarquismo e do fisiologismo. O partido substituído e representado por aquilo que foi no passado objeto de sua crítica e de sua contestação. E não faltou um PT policialesco, na retaguarda, inquirindo a depoente como se estivéssemos no tempo da ditadura, como se fosse ela que tivesse que explicar os arranjos que fazem do PT o que ele é hoje. Os ingênuos dos dois lados do embate não se deram conta de que a depoente, sem nada dizer, fê-los engalfinharem-se contra e a favor do que era até então um mero fantasma, o fantasma de Dilma Roussef, dando-lhe corpo e alma. Nem mesmo faltou a palavra inoportuna do presidente da República na tarefa que não lhe cabia, a de defender sua criatura desqualificando a funcionária.
O fato de que Marina Silva já apareça como opção eleitoral antes mesmo de ser oficialmente candidata, dá bem a medida da ansiedade que setores ponderáveis do PT e do eleitorado têm por uma candidatura que represente o retorno aos valores que deram carnalidade a Lula. O fenômeno Marina Silva é o primeiro e poderoso indício de que o carisma de Lula tem sido silenciosamente abalado em seus fundamentos, mesmo que as pesquisas de opinião dêem-lhe altas porcentagens de apreço popular, que não é a mesma coisa que opção eleitoral e partidária. Por outro lado, ao revelar que Ciro Gomes tem o mesmo índice de opções da candidata de Lula, as pesquisas indicam que a perda do seu carisma se desdobra também aí, na imaterialidade política da candidatura de Dilma Roussef, mesmo com as poderosas verbas do PAC. Ou, talvez, por isso.
*Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Dentre outros livros, autor de A Sociedade Vista do Abismo (Vozes, 2008), A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto, 2008), A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008), Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano (Contexto, 2009).
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