Sunday, August 09, 2009

de gripes bubônicas e tamiflus filosóficos

Arthur Schopenhauer


Me lembro de um quadrinho de jornal de uns quatro anos atrás, em que um ratinho branco, limpinho, criado em laboratório, se enfastia da vida "perfeita" que leva ali, equilibrada, confortável mas bocejantemente pacata. Quer o mundo "underground". Foge. E literalmente vai parar no underground, o esgoto da rua, está ansioso por descobertas e aventuras que só entre os malditos poderia alcançar.
Avista logo adiante um rato sujo, de óculos escuros, modos de malaco exxxperto, e considera ter achado o guru iniciático ideal.
Aproxima-se e pede pro rato-malaco que o ensine tudo. O rato-malaco ri e diz que "tem um monte de coisas pra passar", e ri tanto que, mal termina a frase, está tossindo na cara do ratinho branco, que na cena seguinte da tira ficou subitamente estropiado, olhos vermelhos, aspecto doente; o rato-malaco arremata dizendo algo como: "Não falei?".
Será que entre o laboratório e o hospital eu ainda encontro meu lugar ao Sol? Uma via média que não seja o esgoto? Ou será que preciso desse eterno retorno das ilusões e desilusões e convalescências: confirmar minhas piores impressões sobre os humanos, fugir do porre de meu próprio vazio tentando me encher das coisas que os imbecis têm pra "passar" nas pocilgas do mundo e -ator fudido e atordoado-, apelar pra desintoxicação à base dos tamiflus filosóficos?

"E assim como há aqueles que temem bestas ferozes, sem as odiar, assim se passa comigo em relação aos seres humanos. Não alguém que odeia os homens, mas alguém que os despreza, é o que quero ser. Para poder desprezar, como é justo, todos aqueles que o merecem, ou seja, cinco sextos da humanidade, a primeira condição é não odiá-los. Não se deve permitir que o ódio tome conta de nós, pois aquilo que se odeia não se despreza suficientemente. Em contrapartida, o meio mais seguro contra o ódio ao homem é justamente o desprezo ao homem. Mas um desprezo deveras profundo, consequência de uma visão clara e nítida da inacreditável miséria de sua disposição moral, da enorme limitação de seu entendimento, e do egoísmo sem limites de seu coração, que origina injustiça gritante, inveja e maldade tacanhas, que às vezes chegam às raias da crueldade".

"Num mundo em que pelo menos cinco sextos das pessoas são canalhas, néscias ou imbecis, é preciso que o retraimento seja a base do sistema de vida de cada indivíduo do outro sexto restante - e quanto mais se distanciar dos demais tanto melhor. A convicção de que o mundo é um deserto, em que não se pode contar com companhia, deve se tornar uma sensação habitual. Assim como as paredes limitam o olhar, que de novo se amplia tão logo se tenha diante de si campos e descampados, assim também a companhia humana limita meu espírito, e a solidão de novo o amplia. (...) Como os famintos que recusam um alimento estragado ou envenenado, assim também devem proceder os homens que sentem falta de companhia, em relação aos outros homens, considerando-os o que são."

Arthur Schopenhauer

1 comments:

KÁTIA BUENO said...

Nossa, forte esta reflexão do Schopenhauer! Ás vezes eu o acho um tanto pessimista demais, mas a verdade é que ele continua muito atual, principalmente neste momento que estamos vivendo.
Mudando de assunto, linkei este espaço lá no *DESPERTAR*. Beijos.