segunda-feira, setembro 21, 2009

o professor pleonasmo

Paulo Leminski

Mamãe dizia outro dia: você bebê se agarrava no meu pescoço e tinha quase um troço, queria a mãe, não "o maternal", achava a escola uma violência descomunal. La-crime-java aflição, perder meu colo, que crime e condenação!

Mamãe, até hoje te reencontro no Saber, não na Escola. E até hoje choro quando me tiram de teu pescoço de palavras, de teu colo de poemas, de teu seio de sentidos, pra me pôr no meio dos chatos e babacas, tendo de mandar ou obedecer os prosaicos, ameaçado de me tornar mero aluno ou pior, "aluno aposentado" , jogador que pendurou a chuteira e tá no banco como professor da bolerada, ou seja, véinho professor blablacento, cagando regra em disenterias sintáticas axiomáticas axiológicas escolásticas, contando o mundo como se não passasse de filmes já assistidos desde sempre e para sempre, assimilando o óbvio, ou melhor, o que já se "sabia" antes de ver, monoglota tradutor das polifonias da existência, lendo certezas com bundão sentado, pipoca de veneno e boca aberta cheia de dentes, e depois estragando a surpresa das pessoas que ainda não assistiram, e talvez nem fossem apenas assistir, mas sim viver, isto é, confrontar o novo, o inédito e o próprio. Sei que isso, viver, é incompreensível pra essa gente, os explica-dores profissionais e suas cartilhas. Queria ser criança de novo, chorando no pescoço de mamãe, sem precisar entrar na Escola e ter de escutar esses prosaicos, escutá-los mais até do que eles mesmos se escutam, maldito dom que Alguém me deu de ser médium dos recalques dos fracos e ressequidos.

-Unzuhause-


"Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente. Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida regular como um paradigma da 1ª conjugação. Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto. Casou com uma regência. Foi feliz. Era possessivo como um pronome. E ela era bitransitiva. Tentou ir para os EUA. Não deu. Acharam um artigo indefinido em sua bagagem. A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conectivos e agentes da passiva, o tempo todo. Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça".

Paulo Leminski

sábado, setembro 19, 2009

a vida das formas


Alice Bailey (1880-1949)

Linda a passagem, que transcrevo a seguir, de um livro de Alice Bailey, pensadora inglesa que, com Helena Blavatsky, foi uma das maiores expressões do reavivamento ocultista no século XX. Só faria reparos em dois pontos de seu raciocínio.
Um concerne à classificação, pela autora, do estado de solidão como um fenômeno comparável ao espírito de ódio e de divisão, como se fossem, todos eles, sintomas equivalentes do grande malefício da "separatividade" (o egoísmo, o supor-se individualmente autosuficiente e separado do resto do mundo).
Eu diria que nem toda solidão tem esse significado tão pejorativo; a solidão por vezes é experiência inevitável e necessária no caminho do homem ao encontro de si mesmo. É a "noite escura da alma" (São João da Cruz), na qual podemos queimar no fogo da aflição e da confusão as antigas maneiras erradas de vinculação com os outros. A santidade (genialidade espiritual e moral) e a criatividade (genialidade estética e intelectual) podem ter na solidão um campo fecundo de desenvolvimento; o misturar-se na turba, ao contrário, é quase certa contaminação do homem por sua própria natureza inferior, presentificada nos déficits e falsidades do rebanho, da massa acéfala.
O outro ruído que escuto nessa fala que no geral é tão certeira, concerne à expressão "ter de amar". Ter de amar me parece uma contradictio in adjectio (contradição em termos). "Ter de" é um verbo das gramáticas morais, dos mandamentos impressos na pedra, na tábua; amor é liberdade. É algo mais concernente ao "lado vida da forma" do que ao "lado forma da vida", para retomar o belo jogo de palavras da própria autora. Lado vida da forma: o Espírito "que sopra onde quer" , a Verdade para além de todo dogma, o Sentido que paira sobre as águas primordiais, o Não-sentido que desacata toda pretensão a panacéias hermenêuticas, o sentir do Uno anterior e posterior ao pensar, pesar, ao triste "penser-panser" (em francês, duas palavras de mesma pronúncia: pensar- cobrir feridas) das cisões alienadas.

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"O senso de responsabilidade pelas ações individuais cresce à medida que se avança de estágio em estágio no Caminho da Evolução. Nos estágios iniciais há pouca ou nenhuma responsabilidade. Há pouco ou nenhum conhecimento, nenhum senso de relação com Deus e muito pouco senso de relação com a humanidade. É este senso de separatividade, esta ênfase no bem pessoal e individual que pertence à natureza do pecado. O amor é unidade, unificação e síntese. A separatividade é ódio, solidão e divisão. Mas o homem, sendo divino em sua natureza, tem de amar, e o problema tem sido que ele tem amado erradamente. Nos estágios iniciais de seu desenvolvimento ele situa seu amor na direção errada e, voltando as costas para o amor a Deus, que é da própria natureza de sua própria alma, ele ama aquilo que está conectado com o lado forma da vida e não com o lado vida da forma"

Alice Bailey

De Belém ao Calvário - As Iniciações de Jesus

quarta-feira, setembro 16, 2009

filosofia e terapia



Epicteto, filósofo estóico (55-135 d. C.), considerava a prática da filosofia como uma espécie de medicina da alma. Ele repreendia seus alunos quando reparava em algum deles o interesse de apenas aprender "filosofia", no sentido em que hoje entenderíamos o termo, ou seja, um mero assimilar conceitos, aprender a discutir, decorar os macetes da técnica dos silogismos etc; censurava-os mais ou menos nestes termos: viestes equivocadamente para minha escola em busca disto, não para obter vossa cura, nem com o espírito de vos fazer cuidar (terapia: cuidar, velar o Ser); deveis vos lembrar de que estais aqui essencialmente para a cura. Portanto, antes de nos lançarmos à arte de tecer silogismos, que escutássemos e praticássemos este preceito, essência do próprio filosofar: "curai vossas feridas, estancai o fluxo de vossos humores, acalmai vosso espírito".
Noutro trecho de um de seus escritos, Epicteto indagava: "O que é uma escola de filosofia? Uma escola de filosofia é um iatreîton [um dispensário, espécie de hospital]. Quando se sai da escola de filosofia não se deve ter aprendido o prazer, mas sofrido. Pois não freqüentais a escola de filosofia porque e quando estais em boa saúde. Este chega com o ombro deslocado, aquele com um abcesso, o terceiro com uma fístola, o outro com dores de cabeça" (cf. Michel Foucault, A Hermenêutica do Sujeito).
Ahhh, como queria encontrar mais epictetos em minhas sendas de procura e perdição!! Sendas de tontería, dores de cabeça, abcessos irreprimíveis, febres, feridas nos pés e ataques do coração. Deus permita que eu possa, se sobreviver rs, vir a dar disso -filosofia como experiência vital, questão de vida e morte para a saúde anímica- que quase não recebi nos labirintos frios e abstratos da filosofia acadêmica (com as raríssimas exceções de praxe).

quarta-feira, setembro 09, 2009

o caos reina


"Não há dúvida de que a concepção cristã primitiva da 'imago Dei' [imagem de Deus], encarnada em Cristo, expressa uma totalidade universal que contém em si o lado animal do homem (pecus!). Mas, mesmo assim, falta ao símbolo de Cristo a totalidade entendida em sentido moderno, porque em vez de incluir exclui, expressis verbis (expressamente), o lado noturno das coisas, como um antagonista luciferino. (...) Se reconhecermos um paralelo da manifestação psicológica do si-mesmo na figura tradicional de Cristo, o Anticristo corresponde à sombra do si-mesmo, isto é, à metade obscura do homem, que não deve ser julgada com demasiado otimismo".

Jung, C. G.
Aion
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Muito se disse e ainda se dirá a favor ou contra Anticristo, de Lars Von Trier, sem dúvida um dos maiores acontecimentos culturais deste 2009. Eu saí do filme estranhamente dominado por uma sensação que me remetia ao jornalismo canhestro retratado em As Ilusões Perdidas de Balzac: eu poderia simplesmente descer a lenha ou levantar hosanas, segundo a conveniência ou o humor do momento em que escrevesse. É um filme igualmente predisposto e convidativo para ser odiado ou adorado. Ou ambos. E acho que Von Trier gargalha quanto mais seus críticos sabichões assacarem argumentos engenhosos numa ou noutra direção. Pois ele está pouco se lixando, tem nome, e mais que isso, tem demônio (no sentigo grego: daimon) o suficiente dentro de si para falar o que lhe der na telha, o que lhe for na alma, o que escutar em si, seja no si pessoal ou no coletivo. E o que ele nos testemunha, dessa vez, é uma tremenda dor - ao que parece, estava em aguda crise depressiva para a qual esse filme foi uma forma de "terapia", catarse. Sei como é isso. Sinto muitas vezes no trabalho a única possibilidade de saída da caverna escura do mal-estar dos ossos. Outro dia, num "jogo de areia" conduzido pela brilhante analista junguiana Denise Ramos, meu cenário, entre outros elementos, tinha uma espécie de gruta, bem rústica, que poderia ser vista como uma pedra tosca, furada no centro, escultura ainda informe; ao seu lado, o globo terrestre, e entre ambos, uma singela ponte. Sem ter nem pensado muito ao escolher esses símbolos, creio que acessei um aspecto importante de minha vida anímica, que é pra mim o eterno alternar entre a miséria dos afetos caóticos e a "ponte" que, via trabalho, nem que seja o (mero?) trabalho da imaginação, construo rumo a um provisório ordenamento do caos em cosmos. Até que chega a hora da volta à escuridão. Minha intenção voluntária havia sido expressar o anseio concreto de viajar pelo mundo, o grande mundo, perante o qual as habitações habituais e rotineiras são forçosamente precárias.
Sei que saio do perímetro estrito do filme em questão, é que ele valeu pra mim sobretudo por suas repercussões e prolongamentos subjetivos. Fiz (e repetidamente faço) a experiência do Anticristo; recontar, analisar artefatos externos, nesses casos, me é uma questão secundária e dispensável, e elaborar mentativamente razões pra ter gostado ou desgostado, chega a me soar um pouco ridículo. O Anticristo, fora da tela, na minha existência, como o siamês irmão demoníaco do Eu das minhas expectativas culturais, ideais, racionais. O sexo, a morte. O prazer e o castigo. Doença venérea, doença de vênus. Camisa de força de vênus, prisão do jorro do gozo. A mulher bruxesca, poderosa e arrebatadora, visceral e violenta, que declara -sacerdotisa arcaica sob as vestes de citadina do século XXI- que "a natureza é a igreja de Satã". Acusaram o filme de misógino, por veicular a mulher à idéia de Mal, indiretamente legitimando a caça medieval às bruxas. Bobagem. Como chamar Dostoiévski de homicida em potencial por ter criado Raskolnikóv. O grande criador menos fala do que "é falado" por potências maiores que si mesmo, e que em nada pagam tributo ao bem e ao mal das cartilhas morais. Von Trier, falado por sua depressão, que é o mal de nosso tempo, trouxe à tona -ou se deixou ser refém de- gênios que estão no cerne de nosso impasse histórico: este é o tempo do Anticristo, as velhas esperanças ingênuas e utópicas desabaram. Eden virou Hell. O caos reina, como diz o animal numa das cenas mais sinistras do filme, ou risíveis (muitos na platéia riem como forma de defesa). Resta saber se viveremos esta vasta enantiodromia (reversão) psíquica como uma "solução final", o fim da História declamado e deprimido dos "fuck- you" fukoyamas funcionários do presente, ou como, ao contrário, apocalipse regenerador, integrador do bem e do mal -como poetara o bruxo Raul, é o trem das sete horas, o último do sertão.

quarta-feira, setembro 02, 2009

assentamento espiritual


"Temos aqui a importância do 'deserto', não somente na mística da ortodoxia, mas também na latina: é uma espécie de 'espaço' que propicia o treinamento ao indivíduo. Do ponto de vista da tradição latina, as principais características do deserto seriam: a) trata-se de um fenômeno histórico que se repete desde o cristianismo primitivo; b)está presente nas diversas culturas e tradições cristãs; c) é um 'fenômeno' tipicamente bíblico; d) além da realidade geográfica, passa pela experiência histórica de um (ou mais) povo, sendo necessária sua releitura simbólica: esterilidade / fertilidade; incompleteza / completeza; desapropriação / apropriação; caminho / meta; e) a fundamentalidade do relato simbólico de Jesus sendo tentado no deserto (Mt 4; Mc 1); f) Jesus como o deserto dos cristãos; g) Por uma espiritualidade do deserto: dinâmica do provisório e o deserto enquanto escola do Absoluto".
LUIZ FELIPE PONDÉ
Crítica e Profecia - A Filosofia da Religião em Dostoiévski. S. Paulo: ed. 34, 2003, p. 62-63 (n.6)

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«Saiu e retirou-Se para um lugar solitário» (Lc 4,38-44)
"Não poderemos nós com razão adiantar que o deserto é o templo sem limites do nosso Deus? Aquele que mora no silêncio deve certamente gostar de locais retirados. Foi aí que muitas vezes Se manifestou aos Seus santos; foi graças à solidão que Ele Se dignou vir ter com os homens.Foi no deserto que Moisés, com a face banhada de luz, viu a Deus. [...] Lá foi-lhe permitido conversar familiarmente com o Senhor. Palavra puxa palavra, dialogou com o Senhor do universo como um homem costuma falar com o seu semelhante. Foi lá que recebeu a vara de prodigiosos poderes. Entrou no deserto como pastor de ovelhas, saiu dele como pastor de povos (Ex 3; 33, 11; 34).Também o povo de Deus, quando foi resgatado do Egipto e libertado dos trabalhos forçados, foi conduzido a locais retirados, refugiando-se no isolamento. Sim, foi no deserto que se aproximou deste Deus que o arrancou à servidão. [...] E o Senhor fez-Se chefe do Seu povo, ao guiar os seus passos através do deserto. Pelo caminho, dia e noite, manifestava-Se numa coluna, numa chama ardente, numa nuvem relampejante, em sinais vindos do céu. [...] Os filhos de Israel puderam assim ver o trono de Deus e ouvir a Sua voz durante o tempo em que viveram na solidão do deserto. [...]Será necessário acrescentar que só chegaram à terra dos seus sonhos após a permanência no deserto? Para que o povo entrasse um dia na posse da terra onde corria leite e mel, foi necessário primeiro passar por locais áridos e não cultivados. É sempre através dos acampamentos no deserto que nos encaminhamos para a verdadeira pátria. Quem quer «vir a contemplar a bondade do Senhor, na terra dos vivos» [Sl 27 (26), 13] vá habitar uma região inabitável. Quem quer tornar-se cidadão dos céus faça-se hóspede do deserto".


Santo Eucher (? - c. 450), Bispo de Lião,
in: O Elogio do Deserto (a partir da trad. da Irmã Isabelle de la Source, Lire la Bible, t. 2, p. 109)