
Epicteto, filósofo estóico (55-135 d. C.), considerava a prática da filosofia como uma espécie de medicina da alma. Ele repreendia seus alunos quando reparava em algum deles o interesse de apenas aprender "filosofia", no sentido em que hoje entenderíamos o termo, ou seja, um mero assimilar conceitos, aprender a discutir, decorar os macetes da técnica dos silogismos etc; censurava-os mais ou menos nestes termos: viestes equivocadamente para minha escola em busca disto, não para obter vossa cura, nem com o espírito de vos fazer cuidar (terapia: cuidar, velar o Ser); deveis vos lembrar de que estais aqui essencialmente para a cura. Portanto, antes de nos lançarmos à arte de tecer silogismos, que escutássemos e praticássemos este preceito, essência do próprio filosofar: "curai vossas feridas, estancai o fluxo de vossos humores, acalmai vosso espírito".
Noutro trecho de um de seus escritos, Epicteto indagava: "O que é uma escola de filosofia? Uma escola de filosofia é um iatreîton [um dispensário, espécie de hospital]. Quando se sai da escola de filosofia não se deve ter aprendido o prazer, mas sofrido. Pois não freqüentais a escola de filosofia porque e quando estais em boa saúde. Este chega com o ombro deslocado, aquele com um abcesso, o terceiro com uma fístola, o outro com dores de cabeça" (cf. Michel Foucault, A Hermenêutica do Sujeito).
Ahhh, como queria encontrar mais epictetos em minhas sendas de procura e perdição!! Sendas de tontería, dores de cabeça, abcessos irreprimíveis, febres, feridas nos pés e ataques do coração. Deus permita que eu possa, se sobreviver rs, vir a dar disso -filosofia como experiência vital, questão de vida e morte para a saúde anímica- que quase não recebi nos labirintos frios e abstratos da filosofia acadêmica (com as raríssimas exceções de praxe).
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