Saturday, September 19, 2009

a vida das formas


Alice Bailey (1880-1949)

Linda a passagem, que transcrevo a seguir, de um livro de Alice Bailey, pensadora inglesa que, com Helena Blavatsky, foi uma das maiores expressões do reavivamento ocultista no século XX. Só faria reparos em dois pontos de seu raciocínio.
Um concerne à classificação, pela autora, do estado de solidão como um fenômeno comparável ao espírito de ódio e de divisão, como se fossem, todos eles, sintomas equivalentes do grande malefício da "separatividade" (o egoísmo, o supor-se individualmente autosuficiente e separado do resto do mundo).
Eu diria que nem toda solidão tem esse significado tão pejorativo; a solidão por vezes é experiência inevitável e necessária no caminho do homem ao encontro de si mesmo. É a "noite escura da alma" (São João da Cruz), na qual podemos queimar no fogo da aflição e da confusão as antigas maneiras erradas de vinculação com os outros. A santidade (genialidade espiritual e moral) e a criatividade (genialidade estética e intelectual) podem ter na solidão um campo fecundo de desenvolvimento; o misturar-se na turba, ao contrário, é quase certa contaminação do homem por sua própria natureza inferior, presentificada nos déficits e falsidades do rebanho, da massa acéfala.
O outro ruído que escuto nessa fala que no geral é tão certeira, concerne à expressão "ter de amar". Ter de amar me parece uma contradictio in adjectio (contradição em termos). "Ter de" é um verbo das gramáticas morais, dos mandamentos impressos na pedra, na tábua; amor é liberdade. É algo mais concernente ao "lado vida da forma" do que ao "lado forma da vida", para retomar o belo jogo de palavras da própria autora. Lado vida da forma: o Espírito "que sopra onde quer" , a Verdade para além de todo dogma, o Sentido que paira sobre as águas primordiais, o Não-sentido que desacata toda pretensão a panacéias hermenêuticas, o sentir do Uno anterior e posterior ao pensar, pesar, ao triste "penser-panser" (em francês, duas palavras de mesma pronúncia: pensar- cobrir feridas) das cisões alienadas.

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"O senso de responsabilidade pelas ações individuais cresce à medida que se avança de estágio em estágio no Caminho da Evolução. Nos estágios iniciais há pouca ou nenhuma responsabilidade. Há pouco ou nenhum conhecimento, nenhum senso de relação com Deus e muito pouco senso de relação com a humanidade. É este senso de separatividade, esta ênfase no bem pessoal e individual que pertence à natureza do pecado. O amor é unidade, unificação e síntese. A separatividade é ódio, solidão e divisão. Mas o homem, sendo divino em sua natureza, tem de amar, e o problema tem sido que ele tem amado erradamente. Nos estágios iniciais de seu desenvolvimento ele situa seu amor na direção errada e, voltando as costas para o amor a Deus, que é da própria natureza de sua própria alma, ele ama aquilo que está conectado com o lado forma da vida e não com o lado vida da forma"

Alice Bailey

De Belém ao Calvário - As Iniciações de Jesus


2 comments:

KÁTIA BUENO said...

Profundo e verdadeiro o excerto da Alice Bailey! Gostei particularmente deste trecho da sua explicação sobre o Lado vida da forma: "o Espírito "que sopra onde quer", a Verdade para além de todo dogma, o Sentido que paira sobre as águas primordiais, o Não-sentido que desacata toda pretensão a panacéias hermenêuticas, o sentir do Uno anterior e posterior ao pensar e pesar e "penser".
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Obrigada por compartilhar esse texto precioso!

Anonymous said...

É sempre um grande prazer, ler você ! Magnitude da inteligência, e com o talento,brilhante como sempre.
Reflexão que atinge a alma, inunda o espírito, e faz um bem! (e faria a humanidade se todos soubessem ler e ENTENDER.
Bjoo