
"Não há dúvida de que a concepção cristã primitiva da 'imago Dei' [imagem de Deus], encarnada em Cristo, expressa uma totalidade universal que contém em si o lado animal do homem (pecus!). Mas, mesmo assim, falta ao símbolo de Cristo a totalidade entendida em sentido moderno, porque em vez de incluir exclui, expressis verbis (expressamente), o lado noturno das coisas, como um antagonista luciferino. (...) Se reconhecermos um paralelo da manifestação psicológica do si-mesmo na figura tradicional de Cristo, o Anticristo corresponde à sombra do si-mesmo, isto é, à metade obscura do homem, que não deve ser julgada com demasiado otimismo".
Jung, C. G.
Aion
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Muito se disse e ainda se dirá a favor ou contra Anticristo, de Lars Von Trier, sem dúvida um dos maiores acontecimentos culturais deste 2009. Eu saí do filme estranhamente dominado por uma sensação que me remetia ao jornalismo canhestro retratado em As Ilusões Perdidas de Balzac: eu poderia simplesmente descer a lenha ou levantar hosanas, segundo a conveniência ou o humor do momento em que escrevesse. É um filme igualmente predisposto e convidativo para ser odiado ou adorado. Ou ambos. E acho que Von Trier gargalha quanto mais seus críticos sabichões assacarem argumentos engenhosos numa ou noutra direção. Pois ele está pouco se lixando, tem nome, e mais que isso, tem demônio (no sentigo grego: daimon) o suficiente dentro de si para falar o que lhe der na telha, o que lhe for na alma, o que escutar em si, seja no si pessoal ou no coletivo. E o que ele nos testemunha, dessa vez, é uma tremenda dor - ao que parece, estava em aguda crise depressiva para a qual esse filme foi uma forma de "terapia", catarse. Sei como é isso. Sinto muitas vezes no trabalho a única possibilidade de saída da caverna escura do mal-estar dos ossos. Outro dia, num "jogo de areia" conduzido pela brilhante analista junguiana Denise Ramos, meu cenário, entre outros elementos, tinha uma espécie de gruta, bem rústica, que poderia ser vista como uma pedra tosca, furada no centro, escultura ainda informe; ao seu lado, o globo terrestre, e entre ambos, uma singela ponte. Sem ter nem pensado muito ao escolher esses símbolos, creio que acessei um aspecto importante de minha vida anímica, que é pra mim o eterno alternar entre a miséria dos afetos caóticos e a "ponte" que, via trabalho, nem que seja o (mero?) trabalho da imaginação, construo rumo a um provisório ordenamento do caos em cosmos. Até que chega a hora da volta à escuridão. Minha intenção voluntária havia sido expressar o anseio concreto de viajar pelo mundo, o grande mundo, perante o qual as habitações habituais e rotineiras são forçosamente precárias.
Sei que saio do perímetro estrito do filme em questão, é que ele valeu pra mim sobretudo por suas repercussões e prolongamentos subjetivos. Fiz (e repetidamente faço) a experiência do Anticristo; recontar, analisar artefatos externos, nesses casos, me é uma questão secundária e dispensável, e elaborar mentativamente razões pra ter gostado ou desgostado, chega a me soar um pouco ridículo. O Anticristo, fora da tela, na minha existência, como o siamês irmão demoníaco do Eu das minhas expectativas culturais, ideais, racionais. O sexo, a morte. O prazer e o castigo. Doença venérea, doença de vênus. Camisa de força de vênus, prisão do jorro do gozo. A mulher bruxesca, poderosa e arrebatadora, visceral e violenta, que declara -sacerdotisa arcaica sob as vestes de citadina do século XXI- que "a natureza é a igreja de Satã". Acusaram o filme de misógino, por veicular a mulher à idéia de Mal, indiretamente legitimando a caça medieval às bruxas. Bobagem. Como chamar Dostoiévski de homicida em potencial por ter criado Raskolnikóv. O grande criador menos fala do que "é falado" por potências maiores que si mesmo, e que em nada pagam tributo ao bem e ao mal das cartilhas morais. Von Trier, falado por sua depressão, que é o mal de nosso tempo, trouxe à tona -ou se deixou ser refém de- gênios que estão no cerne de nosso impasse histórico: este é o tempo do Anticristo, as velhas esperanças ingênuas e utópicas desabaram. Eden virou Hell. O caos reina, como diz o animal numa das cenas mais sinistras do filme, ou risíveis (muitos na platéia riem como forma de defesa). Resta saber se viveremos esta vasta enantiodromia (reversão) psíquica como uma "solução final", o fim da História declamado e deprimido dos "fuck- you" fukoyamas funcionários do presente, ou como, ao contrário, apocalipse regenerador, integrador do bem e do mal -como poetara o bruxo Raul, é o trem das sete horas, o último do sertão.
2 comments:
Ola,
Notei no blog de vocês que estão falando do filme Anticristo da California Filmes.
Gostaria se possivel de algum contato para que possamos trabalhar sempre juntos.
Podemos fazer variadas parcerias promocionais. O que acham?
Atenciosamente
rodrigo@californiafilmes.com.br
Gostei da sua análise!
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