Hélio Oiticica (1937-1980)Um paciente vem a Lacan com o rosário de misérias que tem a declarar sobre si mesmo. Ele se considera, em resumo, um verme. Mais que tudo se acusa de ser um péssimo marido. E antes de prosseguir o infinito do gozo da auto-vitimização à procura da graça consolatória do mestre, é barrado por Lacan, o anti-mestre: "Sim, e você dizer que é um péssimo marido não impede você de realmente ser um péssimo marido".
Ahhh as artimanhas do escapismo... Adoramos nos xingar para nos aliviarmos da culpa de sermos assim, ou quem sabe pra driblar nossas verdadeiras culpas, e para quem sabe "espaçar" e "temporalizar" um intervalo entre o escroto objeto e o sapiente sujeito deste nosso discurso: mesmo sendo sujeito e objeto a mesma pessoa.
Tudo isso me vem à tona porque uma das coisas pelas quais me culpo é ter investido muito, afetiva e economicamente, nos livros, uma das maiores paixões da minha vida. Mas por que me culpo? Porque acho, como os cínicos à la Diógenes, como Cristo, Buda, como os verdadeiros mestres, que não levaremos nada dessa vida, e quanto mais leve nossa bagagem, ao longo dos trabalhos que são também os modos de cada um evitar e esperar a "indesejada das gentes" e seu barqueiro Caronte, melhor a viagem final que faremos. Mas ainda assim me apego, e acho que a culpa é uma das formas pelas quais magicamente torço para que esse apego não seja arruinado pela desgraça.
Apaixonado pela minha biblioteca, como pelos meus entes queridos, pelos meus bichos, morro de medo da morte. Não só da morte em si, mas de suas pequenas e grandes irrupções no e durante o vivo: as destruições imprevisíveis que também são criações daquilo que somos. Falasser, Falta-a-ser. No caso da biblioteca, o pesadelo maior que me assombra é o incêndio. A perda irracional de alguns de meus "maiores amigos", daqueles sem os quais a vida pra mim não tem sentido: os Livros.
Daí também a dor pela notícia que reproduzo abaixo. Nem preciso dizer que é uma dor "objetiva" por se tratar de grave agressão à memória da cultura brasileira, e isso em plena "cidade olímpica" (ahhh, nem só de pão viveria o homem brasileiro, isso quando tem pão, mas de tantas palhaçadas...) . Como é possível um patrimônio da importância do acervo de Hélio Oiticica estar tão vulnerável, tão mal protegido ante os riscos do absurdo?
Mas, espaço de divã, di -vão livre para associações "livres" , como é este cantinho do Monastério, tenho de confessar que a dor por Oiticica é também dor antecipatória e conjuratória, mas por mim mesmo. Pelos meus fantasmas. Aliás, a dor pelos outros não tem sempre algo de fantasmático? Muito de projeção pessoal, de antecipação da verdade, real e imaginada, -todo fantasma é verdadeiro e ilusório- de que esse mesmo mal nos ameaça? Não poderíamos falar, sem ironia, num certo "egoísmo benigno" da compaixão?
***
17/10/2009 - 09h12
Incêndio atinge casa do artista plástico Hélio Oiticica e destrói acervo no Rio
colaboração para a Folha Online
Um incêndio atingiu a casa da família do artista plástico Hélio Oiticica no Jardim Botânico, zona sul do Rio, na noite de sexta-feira (16). Quase todo o acervo do artista ficou destruído.
O fogo atingiu uma sala localizada no primeiro andar da casa, local onde estavam guardadas as pinturas e esculturas do artista.
No momento do incêndio, a família estava reunida do terceiro andar da casa, mas quando sentiram o cheio da fumaça, as obras já estavam em chamas.
"Sinto que eu fracassei porque minha missão, depois que me aposentei, era cuidar da obra dele, da divulgação e da guarda da obra dele", disse a jornalistas César Oiticica, irmão do artista plástico.
Segundo ele, o fogo destruiu 90% da obra, e o prejuízo pode chegar a US$ 200 milhões, de acordo com a Globonews.
***
Saiba mais sobre Hélio Oiticica, um dos mais importantes artistas brasileiros
colaboração para a Folha Online
Um incêndio no Rio que só foi controlado neste sábado destruiu quase todo o acervo do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), segundo sua família. O artista tem entre suas obras mais importantes a "Tropicália", que inspirou e deu nome ao movimento cultural brasileiro que revolucionou a música, o cinema, o design, a moda e as artes do país nos anos 70.
O artista, que compareceu a uma escola pela primeira vez aos dez anos, teve sua formação influenciada pelo pai, José Oiticica Filho --um dos mais importantes fotógrafos brasileiros-- e pelo avô José Oiticica, intelectual filólogo, professor, escritor e jornalista.
Em 1953, Oiticica começou a estudar pintura com Ivan Serpa, após tomar contato com a obra de Paul Klee, Alexander Calder, Piet Mondrian e Pablo Picasso durante a II Bienal do Musel de Arte Moderna de São Paulo. Em 1954, entrou para o Grupo Frente e junto fez a sua primeira exposição no Museu de Arte Moderna.
Nessa época, Oiticica começou a conviver com artistas e críticos, como Lygia Clark, Ferreira Gullar e Mário Pedrosa. Sua obra desse período, entre 1955 e 1957, são pinturas geométricas sob guache e cartão, que resultou em 27 trabalhos nessa técnica, intitulados 'Secos', que foram expostos no Rio de Janeiro, na Exposição Nacional de Arte Concreta.
Em 1959, convidado por Lygia Clark e Gullar, integrou o Grupo Neoconcreto do Rio de Janeiro e passou a realizar pinturas a óleo sobre tela e compensado. São obras monocromáticas que incluem pinturas triangulares em vermelho e branco.
Também em 1959, o artista participou da V Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1960 trabalhou como auxiliar técnico de seu pai, José Oiticica Filho, no Museu Nacional.
A partir do início dos anos 60, Oiticica começou a definir qual seria o seu papel nas artes plásticas brasileiras e a conceituar uma nova forma de trabalhar, fazendo uso de maneiras que rompiam com a ideia de contemplação estática da tela. Surgiu aí uma proposta da apreciação sensorial mais ampla da obra, através do tato, do olfato, da audição e do paladar.
Entre as obras os "Penetráveis", criados para serem vivenciados (ou penetrados) pelo espectador. Nestas obras, o artista passa a criar espaços de convivência que rompem com a relação formal entre arte e observador e pedem presença ativa e distendida no tempo.
Parangolé
Em 1964, o artista aproximou-se da cultura popular e passou a frequentar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, tornando-se passista e integrando-se na comunidade do morro. Vem dessa época o uso da palavra "parangolé" que passou a designar as obras que estava trabalhando naquele momento.
Os primeiros parangolés se compunham de tenda, estandarte e bandeira e P4, a primeira capa para ser usada sobre o corpo. São obras que causaram polêmicas e ele definia como "antiarte por excelência".
Em 1965, o artista começou carreira internacional e realizou a exposição --Soundings Two-- em Londres, ao lado de obras de Duchamp, Klee, Kandinsky, Mondrian, Léger, entre outros.
Em 1967, iniciou suas propostas supra-sensoriais, com os bólides da "Trilogia Sensorial", além dos penetráveis PN2 e PN3 que faziam parte da obra Tropicália, mostrada na exposição Nova Objetividade Brasileira, no MAM, Rio de Janeiro.
Em 1972, usou o formato super 8 e realizou o filme Agripina é Roma - Manhattan. O cinema passou a ser uma referência, e em 1973 criou o projeto Quase-cinema, com a obra "Helena inventa Ângela Maria", série de slides que evocam a carreira da cantora Ângela Maria.
Uma nova série de penetráveis intitulados Magic Square e os objetos Topological ready-made landscapes foram mostrados na exposição Projeto construtivo brasileiro, MAM, Rio de Janeiro, em 1977. Em 1979, criou o seu último penetrável chamado "Azul in azul". Neste ano, Ivan Cardoso realizou o filme "HO", retratando a obra de Hélio Oiticica.
No dia 22 de março de 1980 o artista morreu após sofrer um acidente vascular cerebral no Rio de Janeiro.
0 comments:
Post a Comment