domingo, novembro 29, 2009

com a mão mal-assombrada de Deus (pelo primeiro domingo do Advento)

Clarice Lispector

"Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar. Essa coisa corajosa que será entregar-me, e que é como dar a mão à mão mal-assombrada de Deus, e entrar por essa coisa sem forma que é um paraíso. Um paraíso que não quero!"
Clarice Lispector,
A Paixão segundo G. H.

segunda-feira, novembro 23, 2009

prolegômenos para uma clínica trágica do cu dado e do pau murcho (desabafo de um compagnon de route da Revolução vermelha de novo traída)




Peruca filosófica para carnaval javanês; Madame Satã, a princesa metafísica deste mundo mau

Porra, Bambizona recalcada, vc é rabuda hein? Perdeu feio e nem assim largou o osso.. Porra Urubu, negar fogo justo na hora de comer a bicha, faltou Viagra?? Mesmo com aquela torcida maravilhosa que lotou o Maracanã, -Maracanã, meu Maracanã, a Jerusalém brasileira, de realidade conflitual, contraditória mas de realidade sonhada que é uníssona no fervor, templo sagrado que os vendilhões imbecis, aliás, estão esperando gulosos pra fechar em dezembro, por TRÊS ANOS!!!!!!!!! É, dizem, para "melhorias", no bolso dos safados, em prol da famigerada Copa do Mundo de 2014. Ah, vão fazer cocô e comê-lo de merenda, vão.. vcs, cartolas biscateiros, vcs jogadores pipoqueiros, vcs são o retrato da anemia brasileira, do zero a zero da inércia, do pau mole na hora de dar alegria pra Massa, vcs são o pau murcho da Elite parasita, vcs são o sintoma podre e contaminado de um Brasil que frustra o povo, veta as Diretas, interdita os Maracas, assanha as Maricas, deixa a Massa na mão na hora do clímax, coito interrompido, e reelege pra rei-momo tupiniquim, pra princesa da Sapucaí de suas farsas vagabundas, sempre os mesmos viados aburguesados, cristãos-novos do fascismo de careca morena, sem nada de cristão, e menos ainda de novos, bem velhinhos e velhacos, macunaímas que escondem a careca na peruca de dotô, amarram o focinho em máscara de malévolo jason (ou melhor, de jasonarva marvada), que negam a cor se lavando de sua maldição, arrotam em bibliografias pomposas e falsificadas o "russo" e o "grego" que não entendem, porque o que entendem mesmo é de javanês. Ah meus caros lixos humanos (caros sem puxa-saquismos baratos, que tô cagando pra vcs e não preciso ficar "dando tudo" em prol de agradar o patrão superego que se proíbe o amor maldito na vida e o posterga e o "apostila" pra tema de palestra patética, pra fazer dinheiro, velha compulsão intelectu-anal), vão todos, com todo respeito e consideração que merecem de mim, vão todos dar e tomar no anelzinho dos seus cús!

domingo, novembro 22, 2009

o que faz você feliz (fora do supermercado)


Chico Xavier

"Trabalha -não ao jeito de pião consciente enrolado ao cordel da ambição desregrada, aniquilando-se sem qualquer proveito. Age construindo.
Ganha - não para reter o dinheiro ou os recursos da vida na geladeira da usura. Possui auxiliando.
Estuda - não para converter a personalidade num cabide de condecorações acadêmicas sem valor para a Humanidade. Aprende servindo.
Prega - não para premiar-se em torneios de oratória e eloquência, transfigurando a tribuna em altar de suposto endeusamento. Fala edificando.
Administra - não para ostentar-se nas galerias do poder, sem aderir à responsabilidade que lhe pesa nos ombros. Dirige obedecendo.
Instrui - não para transformar os aprendizes em carneiros destinados à tosquia constante, na garantia de propinas sociais e econômicas. Ensina exemplificando.
Redige - não para exibir a pompa do dicionário ou render homenagens às extravagâncias de escritores que fazem da literatura complicado pedestal para o incenso a si mesmos. Escreve enobrecendo.
Cultiva a fé - não com o intento pretensioso de escalar o céu teológico pelo êxtase inoperante, na falsa idéia de que Deus se compara a tirano amoroso, feito de caprichos e privilégios. Crê realizando".
Francisco Cândido Xavier & Waldo Vieira,
Opinião Espírita

terça-feira, novembro 17, 2009

alma em estado de prece (post 97)


Estava em alegria pela chegada iminente ao post 97, que representaria a quebra do recorde de textos por ano desde a fundação deste Monastério, em 2005. Mas indeciso sobre o que escrever, pois meus dias estão sobrecarregados de tarefas que não me deixavam muita margem para vir falar senão pelo silêncio. Foi quando, ontem, em meio ao vento e ao verde de um oásis de paz, em que enfim minha alma se sentia em condições de prece, depois de horas tensas de travessia de uma cidade que me asfixia, recebi, em páginas logo gotejadas pela chuva que chegava (mas sem a violência hominídea que contaminou até o tempo nestes tempos de ruína ecológica da alma e do mundo), recebi, eu dizia, uma linda supresa poética de mestre Fernando Pessoa - e que linda poesia não é surpresa, e que linda surpresa não é poesia?
-Unzuhause-

"Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte!
O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!
Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também.
Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar.
Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu.
Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos.
Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
Minha vida seja digna da tua presença.
Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim;
e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me.
Dá-me que eu me sinta teu.
Senhor, livra-me de mim.

Prece
-Fernando Pessoa-

segunda-feira, novembro 16, 2009

peladius em sanctius


Santo Antão

Tédio mortal
Tudo um lixo
Tudo cocô
Acídia
Preguiça
Raiva, nojo
Tumulto de túmulos

Dentes amarelados
Ternos desbotados
Leite envenenado
A goteira de mijo
Nau dos loucos sambando peladius em sanctius
Socorroooooooo

"Assim como os peixes em terra seca, os monges perecem se, afastados de suas celas, residirem com os homens do mundo, ou perderem a determinação em perseverar na oração solitária. Portanto, assim como os peixes voltam para o mar, nós devemos voltar para nossas celas; dessa maneira, não ficamos no exterior e não nos esquecemos de cuidar do nosso interior".

Santo Antão


Oração a Santo Antão

Ó Deus, que permitistes que, mesmo na solidão de uma gruta, no deserto, o demônio perturbasse Santo Antão com violentas tentações,
mas lhe destes força de vencê-las,
enviai-me, do céu, o vosso socorro,
porque eu vivo num ambiente minado de tentações que me agridem, pelo rádio, televisão, novelas, bailes, cinemas, revistas, propagandas e maus companheiros. Santo Antão, ficai sempre ao meu lado;
vós que vencestes o demônio,
na aparência de um bicho imundo,
me dareis força na tentação.
Na hora da tentação, socorrei-me Santo Antão.


Amém.

quarta-feira, novembro 04, 2009

do cavalo sedado ao complexo do Mal-amado

Sonho [esta noite]- Dois cavalos brancos escondidos sob panos, dormindo (não sei se sedados), sendo levados por algumas pessoas, acho que família, em pleno trem do metrô de SP, eu também estava lá e testemunhei. Um dos cavalos, a certa altura, está acordado, aproxima o rosto de passageiros (assustados), mas não faz senão um gesto de afago (lambida), lembrando mais um cachorrinho. Em dada estação um dos cavalos é descido, acho que o outro demonstra tristeza pela separação.
As pessoas, a seguir, estão já caminhando numa estação (é grande), ao lado do cavalo que restara, elas não aparentam preocupação ou receio de serem admoestadas pela administração do metrô.

Metrô, pra mim, símbolo de sufocação, massa, desconforto, homens transformados em gado, esvaimento de energia, barulho manicomial, tentativa de me refugiar do caos em alguma leitura impossível, "comunicação" nada habermasiana (aquela bobagem da comunidade de agentes racionais em comunicação democrática, bobagem que, morta e desencarnada nos infernos subterrâneos de uma cidade como esta, mostra o que era em vida, ou melhor, no delírio do "homo teoricus" superficial e achista, mera ideologia burguesa, mais uma mentira).
O sonho mostra o choque de opostos. Ou melhor, a unificação dos contrários pela repressão de um dos pólos. O cavalo no sonho dorme ou é sentimental, pacato, "pacato cidadão" (Skank), longe de sua primitividade, impulsividade, criatividade, força, virilidade. Além disso temos o rebaixamento de um veículo de transporte natural, de tempos antigos, marca de individualidade (do cavaleiro), assujeitado agora ao transporte de rebanho, que pasteuriza, mistura, controla, conduz.
Infelizmente a dimensão essencial da violência não é hoje senão motor banalizante do sistema de dominação burocrática "metrô-politana" pesando como o calor ou temporal inumanos sobre o nosso ir, vir, pensar e fazer, estar e ser. A violência está sequestrada pelos canalhas do banditismo, que abastardam a também sagrada energia do Mal.. ou ainda pode virar, como terceira variante patológica, o que poderíamos chamar de um complexo do "Mal-amado", quimera compensatória do nerd loser que sai atirando nos colegas numa universidade americana, ou apenas se vinga dos outros e de si mesmo com o roer calado, abafado como o masturbador escondido no banheiro, remoendo seu ódio a tudo quanto apareça de legal e de bom astral nos coleguinhas odiados da escola, sobretudo nos mais generosos, nos mais "obamas"; é o superpoder do ressentimento, do pessimismo-fetiche, do pessimismo como critério de caráter quando o caráter é mera questão teórica, ismo abstrato, alma oca, o culto do Mal como auto-justificação da mediocridade moral e kriptonita com que se tenta estigmatizar e rebaixar toda utopia revolucionária, que não é boa nem má em si, porque o homem não é nada em si, é o que faz de si, para além do bem e do mal, é quem cria seus valores por suas ações; o complexo do "Mal-amado" é o amor ao Mal dos privados de amor, que não sabem ser maus o suficiente para também reverenciar e lutar pelo amor do Bem.
Vamos cavalgar de volta ao tema do meu sonho, e buscando novas amplificações simbólicas (método de C. G. Jung) do drama nele contado. No Rig-Veda, escritura religiosa arcaica do hinduísmo, não por acaso o "horse" (o termo em inglês faz mais jus, é quase onomatopaico, em relação ao ente que ele designa) é uma das imagens utilizadas em Hino em adoração ao deus do fogo, Agni; o trecho a seguir é em especial uma exaltação da Juventude:
"Como uma abundância agradável,
Como uma rica morada,
Como uma montanha com suas potencialidades,
Como uma onda salutar,
Como um cavalo que se precipita pelo caminho de um só ímpeto,
Como um rio com suas vagas, quem poderia imobilizar-te!"
Juventude - tempestade e ímpeto (Goethe), áurea verde árvore da vida, ao contrário do cinzento cadavérico da mera teoria, do tentar "ler no metrô" quando o mundo, o metrô, esquife de centopéias alucinadas, não pode mais ser lido, e sim ressuscitado, transformado, o tempo das filosofias mortas está morto, já nos comunicou Marx. É tempo de praxis, de ação, de atuação, o que remete ao cântico que abre uma das partes da epopéia Os Sertões, do Oficina de Zé Celso Martinez Correa, epopéia do homem no deserto (também o deserto urbano, "metrô-politano"):
"Atuar, atuar, atuar pra poder voar (2x)
Meu cavalo tá pesado, meu cavalo quer voar"
E, por fim, sem, evidentemente, exaurir todas as possibilidades semânticas dessa imagem arquetípica universal que é o cavalo, temos um exemplo do animal associado aos valores do heroísmo, à santidade da força, da guerra, em um cântico a São Jorge, na Umbanda, religião aliás onde o médium é denominado "cavalo" do espírito que nele escolhe se manifestar:
"Em seu cavalo branco ele vem montado
Calçando botas, ele vem armado
O vinde , vinde , vinde Nosso Salvador
O vinde , vinde , vinde São Jorge defensor
Em seu cavalo branco ele vem montado
Calçando botas, ele vem armado
O vinde , vinde , vinde Nosso Salvador
O vinde , vinde , vinde São Jorge defensor".