
Dúvida (Doubt)
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis.
Direção: John Patrick Shanley
Gênero: Drama
Duração: 104 min.
Distribuidora: Buena Vista
Estreia: 06 de Fevereiro de 2009
Sinopse: O ano é 1964 e o cenário é a escola St. Nicholas, no Bronx. O vibrante e carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), vem tentando acabar com os rígidos costumes da escola, que há muito são guardados e seguidos ferozmente pela irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), a diretora com mãos de aço que acredita no poder do medo e da disciplina. Os ventos das mudanças políticas sopram pela comunidade e, de fato, a escola acaba de aceitar seu primeiro aluno negro, Donald Miller. Mas quando a irmã James (Amy Adams), uma freira inocente e esperançosa conta à irmã Aloysius sobre sua suspeita, induzida pela culpa, de que o padre Flynn está dando atenção exagerada a Donald, a irmã Aloysius se vê motivada a empreender uma cruzada para descobrir a verdade e banir o padre da escola. Agora, sem nenhuma prova ou evidência, exceto sua certeza moral, a irmã Aloysius trava uma batalha de determinação com o padre Flynn, uma batalha que ameaça dividir a Igreja e a escola com consequências devastadoras.
Há cerca de um mês este reino Unzuhause já declarou seu amor incondicional por Kate Winslet e a torcida implícita por ela no então ainda distante Oscar. E não deu outra, e minha felicidade por ela é plena rs. Mas hoje é tempo de dar voz aos que não tiveram vez na premiação deste domingo. Penso em um filme em particular.
Já pela sinopse acima pode-se ter a noção do impacto que Doubt (no Brasil, Dúvida) estava fadado a causar. Ainda mais se o embate central do drama é encarnado por dois gênios da interpretação, como Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman, ambos aliás indicados ao Oscar deste ano. Falando ainda em premiações, vale lembrar que o roteiro de Doubt se baseia em peça brindada com o Pulitzer.
Sem descambar para um "filme de tese", isto é, sem se reduzir à chata disputa de idéias disfarçadas em narrativa, Doubt não obstante deixa ver, a uma leitura mais sutil, o conflito entre dois princípios que eu nomearei aqui sob a inspiração do título famoso do livro de Leonardo Boff: Igreja - Carisma e Poder.
Do lado do Carisma, temos o padre Flynn (Seymour Hoffman). O filme se passa em 1964, portanto eram os dias efervescentes do Concílio Vaticano II (1962-65); e Flynn é um retrato agudo dos ventos de renovação trazidos pelo carisma de João XXIII, papa que, com o concílio por ele convocado, abriu a Igreja para o mundo, a recolocou na rota da Vida, falando a língua vernácula do tempo e olhando de frente para uma modernidade cravada de crises e insuficiências mas também marcada por grandes conquistas e pela necessidade sempiterna da palavra do Salvador. Não a palavra sabichona, autoritária, paternalista, atemporal no sentido do fossilizado. Palavra à esquerda da esquerda -esquerda como arquétipo do oculto, do inconsciente-, vanguarda à frente das vanguardas por vir antes delas, por vir das Origens, palavra rebelde, alegre, transformadora, Verbo que se faz Carne no corpo dilacerado e desejante dos homens, que querem e têm o direito de serem, na medida do possível e do precário da condição humana, felizes aqui e agora, não nos paraísos imaginários do recalque.
Contra isso tudo porém, se põe a Igreja do Poder, simbolizada pela irmã Alouysius (Streep). Hierarquizante, dogmática, centralizadora, alicerçada no medo, no controle. Uma cena reveladora da estagnação repressiva, no filme: tanto faz se o papa do retrato está vivo ou morto, o que importa é que o retrato sirva de espelho para a professora observar seus alunos mesmo quando estiver escrevendo na lousa. Irmã Alouysius, presa do inferno de suas próprias dúvidas -que só confessará na cena final, belíssima-, foge delas fazendo-se uma estátua "viva" de verdades, granito moral indevassável, que todavia aceitará usar da mentira como instrumento a serviço de seu Deus da verdade e do amor.
Independente de opções ideológicas (a Igreja é forte e dinâmica justamente por ser múltipla, contraditória), o que me assusta nessa Igreja do Poder é justamente a incapacidade de duvidar, sobretudo de duvidar de si. Isso é sintoma da fraqueza de suas certezas. Quanto menos confiamos no que cremos, mais fanática e intolerante é a defesa dessas crenças, defesa em sentido freudiano, inclusive.
Doubt porém é interessantíssimo também por colocar em dúvida oposições muito nítidas entre bem e mal, inclusive no tocante ao mérito da acusação da freira. Ficamos sem saber ao certo se Flynn é de fato o sacerdote que encarna Cristo no amor generoso pelo aluno perseguido, ou se é o charlatão que esconde sob a batina uma moral pessoal deformada e depravada. Ou se é ambos.
Tivemos recentemente no Brasil um caso que me vinha à lembrança enquanto assistia ao filme. Um padre ícone da Igreja progressista de São Paulo, e que muito fez pelos pequeninos carentes desta cidade selvagem. Estourou uma série de fofocas que são, como diz padre Flynn num de seus sermões, as penas do travesseiro cortado espalhadas, irremediavelmente, pelo vento. Reputações destruídas para sempre, mesmo se ao final as denúncias se comprovarem falsas. Mas a imagem é tudo, diz o slogan de nosso tempo. Escrava dos humores da mídia e da opinião pública do rebanho, a imagem se ergue aos céus tão rapidamente quanto pode se afogar no lodo.
Penso que na raiz da questão da moral afetiva dos padres está o tabu da sexualidade em geral, pessimamente trabalhada pelos dogmas eclesiásticos. Para começar, o celibato dos padres. Instituição não só anacrônica, mas visceramente absurda, ao menos enquanto regra imposta, e não adesão do coração. Muitas vocações profundas podem ser abortadas por causa deste "anticoncepcional" troglodita, a obrigação de castrar o desejo justamente naqueles que Cristo, o Mestre do Amor, chamou para propagar seu evangelho. Mas isto é tema para outro momento.
Voltando ao tema, ou um dos temas, de Doubt: todo saber tem algo de paranóico, até para que a realidade possa se adaptar aos esquemas projetivos, à "grade" artificial, necessariamente inventada, de nossos conceitos e pré-conceitos, radares de nosso estar no mundo. O ego, cria da Vontade, a serviço dela, se vale da ilusão de ser um ente à parte que se depara com objetos que só fazem sentido na relação com o próprio sujeito. O mundo como representação nasce e morre com cada sujeito, só existe "para nós". Um narcisismo adaptativo, uma mania de significado, que todavia não nos condena aos dogmas, às certezas graníticas de uma irmã Alouysius. Despojada do véu de Maya do egotismo compulsivo, a existência se faz de-cisão, escolha entre possíveis, igualmente possíveis e relativos, é a e-moção que se move na ambiguidade e no risco. É abertura. Não percamos isso. Não sejamos algozes de nós mesmos, réus, procuradores e vítimas de nosso medo travestido de truculência. Não temos esse direito, sobretudo os encarregados de cuidar de almas, de fazer alma, de "animar" (alma-anima) a História com a esperança de redenção.









