Lou Salomé (de chicotinho), Paul Rée e Friedrich NietzscheNum 26 de abril como hoje, só que de 1881, Nietzsche e Lou-Andreas Salomé se encontraram pela primeira vez, em Roma: "De que estrelas caímos para nos encontrar?", disse então o filósofo, mostrando o grau de seu entusiasmo, não só "filosófico", com a fêmea que tinha ante seus olhos. "Uma fêmea pensante?!", indagou-se com seu machismo indisfarçável rs.
De fato, Nietzsche logo percebera estar diante de alguém de uma inteligência excepcional, comparável à sua própria, o que lhe atiçou a expectativa de que sua maldita solidão pudesse então estar chegando ao fim. Teria afinal seus desejos dionisíacos tirados do papel! Construiria enfim a "sociedade secreta" de livres-pensadores à margem do mundo estúpido do rebanho e da universidade corrompida. Porém Nietzsche não podia supor que aquele 26 de abril era o marco não de sua redenção, mas de sua ruína final. Sim, encontrara alguém que materializava, e dava coxas e seios (ainda que pequenos, ao que consta), aos seus devaneios de gênio. Mas isso não significava que dois gênios em si semelhantes estivessem fadados a serem homem e mulher um para o outro.
"Fou de Lou" (louco de Lou, brinca em francês o filósofo Botul), perdidamente apaixonado, miseravelmente barrado em seus anseios de "mysterium coniunctionis" com sua Anima imaginária. Chegou a pedi-la em casamento, isto é, pediu que seu amigo Rée a pedisse em casamento por ele.. estranha estratégia! claro que deu tudo errado, gerou-se um estranho triângulo amoroso, e pior, foi Rée, e não Nietzsche, quem teve a sorte grande de fruir dos favores afetivos daquela destruidora de corações, sobretudo de corações intelectuais.
O insucesso com Lou foi um dos componentes, sem dúvida, da crise que anos mais tarde precipitaria o autor de O Nascimento da Tragédia à demência e ao retorno ao lar e às mulheres que, estas sim, estavam inscritas em seu destino: a mãe e a irmã. Que destino inglório para o Super-Homem da filosofia!
O amor, ou melhor, o desamor, foi sempre sua kriptonita...
Lembro da cena de Super-Homem (o do filme), quando o herói Clark Kent decide abandonar seus superpoderes, tornar-se um mortal comum, para poder casar e ter uma vida "normal" com Lois Lane (Lois? Lou? Loulita? Lolita??). Não dá certo. O mundo precisava era do herói, Lois também o desejava como o herói, e o ex-herói apanha miseravelmente de um bêbado qualquer num boteco, enquanto em Washington os vilões rendiam o presidente dos Estados Unidos. Ao vestir de volta a fantasia, Clark estava fadado a vestir também seu simbólico "cinto de castidade", sua impossibilidade de levar uma vida afetiva e sexual plena. Tem mesmo que ser assim?
Não sei.. mas a tragédia nietzscheana me comove demais. Eu o amo, é um de meus super-heróis, não só na potência de seu ser, mas também na impotência de sua vida. E gostaria muito que ele tivesse tido sorte melhor com Lou.. Que ao invés de sublimar e imaginar que ambos haviam caído de "estrelas", ele deixasse o desejo se levantar literalmente, falicamente, se levantar da terra, e atraísse Lou para, como diz um velho amigo da USP, o saciamento das "necessidades primárias", resolvesse primeiro a perturbação do tesão, pra que depois fosse possível a conversa mais lúcida rsrs. A mulher tende a ser um perigo, e o sexo, um demônio sedutor e fatal, sobretudo para os padres do deserto, não só nos desertos cristãos..







