Thursday, March 31, 2011

um romance astral

Toca Raullllllllllllllllll!!!!
vem embalar meus pensamentos desta manhã sobre como o bem e o mal estão entrelaçados na nossa existência pessoal e cósmica. Não seriam eles as duas mãos de Deus, a que afaga e a que apedreja, a que condena  e a que perdoa, a do Diabo e a de Jesus, esses "irmãos" igualmente filhos do Pai Eterno, segundo certas lendas heréticas?
Toca Raullllllllllllllllll!!!!
vem embelezar meu ruminar da sensação de que nos limitamos a uma visão amputada -não sem os fantasmas do "órgão" perdido, desfalecido ou "desfalicido" (sem fala, sem falo)- quando pretendemos um mundo apenas bom, terno, favorável, sem imposições alheias e hostis à nossa vontade.
Toca Raulllllllllllllllll!!!
vem ser, em suma e outrossim, companhia das que gosto pra pensar, ou melhor ainda, cantar e escutar, o eterno enigma da existência e seus apelos a respostas que talvez não "resolvam" a coisa em si, mas que ao menos falam e dão assinatura a cada fenomenólogo do mistério, a cada intérprete de sua própria canção.
-Unzuhause-
***

O Trem Das 7



Raul Seixas


Composição : Raul Seixas


Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon
Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem
Quem vai chorar, quem vai sorrir ?
Quem vai ficar, quem vai partir ?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão
Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar
Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons
Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral
Amém.


Wednesday, March 30, 2011

de Unzunietzsche para Lou-à-Lacan

"In media vita [No meio da vida] - Não, a vida não me desiludiu! A cada ano que passa eu a sinto mais verdadeira, mais desejável e misteriosa -desde aquele dia em que veio a mim o grande liberador, o pensamento de que a vida poderia ser uma experiência de quem busca conhecer -e não um dever, uma fatalidade, uma trapaça! E o conhecimento mesmo: para outros pode ser outra coisa, um leito de repouso, por exemplo, ou a via para esse leito, ou uma distração, ou um ócio -para mim ele é um mundo de perigos e vitórias, no qual também os sentimentos heróicos têm seus locais de dança e de jogos. 'A vida como meio de conhecimento' - com este princípio no coração pode-se não apenas viver valentemente, mas até viver e rir alegremente! E quem saberá rir e viver bem, se não entender primeiramente da guerra e da vitória?

FRIEDRICH NIETZSCHE
A Gaia Ciência, par. 324.
***

Cartesiando velhas coordenadas
desço de linha cheia a outra
em ver de dever amado,
porém
impensando logo eu sou
fluindo ascende o corpo
via vazia entrelinha
do amor tão (in?) devido..
-Unzuhause-

Tuesday, March 29, 2011

serenata dos pássaros

Meu jesuisinho cristinho, porra de reforma dos vizinhos não vai acabar nunca???? Em meio ao urro insaciável das máquinas da metrópole-necrópole, como manter janelas abertas às serenatas dos passarinhos?
-Unzuhause-

Monday, March 28, 2011

misantrópico amor pelo humano

"Alma nenhuma mais amorosa e terna do que a minha jamais existiu, alma nenhuma tão cheia de bondade, de compaixão, de tudo quanto é ternura e amor. Contudo, nenhuma alma tão solitária quanto a minha -não solitária, note-se, não em virtude de circunstâncias exteriores, mas de interiores. (...)
Semelhante a Rousseau...
Um misantrópico amor pela humanidade.
Tenho, como é notório, muitas, muitíssimas afinidades com Rousseau. Em certas coisas nossos caracteres são idênticos. O amor ardente, intenso, inexprimível pela humanidade, e a porção de egoísmo contrabalançando-o - é uma característica fundamental de seu caráter e igualmente do meu".

Fernando Pessoa
"Dicotomia anímica"



Wednesday, March 23, 2011

Superman e os terrícolas



Delícia de conversa ontem com uma amiga linda em e para todos os sentidos.. em certa altura, recordei, com arrepio e emoção, do Superman, uma cena em especial, já não sei de qual dos filmes da série. Superman abdicara dos superpoderes para poder viver uma vida mortal, normal, casando com Lois Lane. Mas logo na primeira noite de vida normal, mortal, toma, fracote que se tornara, uma surra miserável após discussão banal com um beberrão que mexeu com sua garota. E, ainda no bar, assiste estarrecido, como o país inteiro, ao presidente dos Estados Unidos se ajoelhar, em cadeia nacional, ante três pérfidos alienígenas -vindos do mesmo planeta que Superman, e com poderes similares. Vilões que naquele momento tomavam simbolicamente o poder mundial. Isso se, antes de consumar o beija-mão, o presidente não se virasse para a câmera e implorasse, pateticamente, para que o Superman, sumido inexplicavelmente (ou, como só nós sabíamos, por conta de seus afetos particulares), reaparecesse e viesse salvar a Terra...Um dos malignos toma então a palavra e se dirige ao herói desaparecido, exigindo sua presença para que também se ajoelhasse. E na vida privada, o encanto de Lois já não parecia o mesmo.. A consequência previsível mas gloriosa é o retorno do Salvador para salvar o mundo e -por um efeito mágico- fazer Lois "esquecer" a vidinha que tentaram levar a dois. O que a tornou de novo a fã apaixonada -mas forçosamente à distância- do enviado de Krypton.
Saudade de "Christo"-pher Reeve, trágica, magnífica e acho que definitiva personificação do super-herói na telona.. Meu maravilhamento e-terno por Superman.. ressurrecto ontem no contexto de uma conversa que então tratava dos "foras" amorosos.. eu dizia de minha inaceitação de que uma "vaca" qualquer ousasse não reconhecer minha grandeza rsrs. E de como numa hora dessas sempre me senti como o Superman reduzido a Clark Kent e apanhando do bebum, extraviado da verdadeira e solitária (como somos solitários, do berço ao túmulo) missão, desapossado das prerrogativas originárias da angelitude -é evidente a ressonância messiânica e mística deste mito de massas do século 20, que fala ao e do Self profundo de todos nós- e em queda, decadente ao se misturar e melar no vil charco de afetos das vacas, mulas, essa morte em vida do planeta dos terrícolas, os quais só podemos amar e "salvar" (contribuir para a iluminação) sob a condição de, estando entre eles, não sermos um deles.
-Unzuhause-


Sunday, March 20, 2011



Pelo Voo de Deus Quero Me Guiar
(Jorge de Lima)

Não quero aparelhos
para navegar.
Ando naufragado,

ando sem destino.
Pelo voo dos pássaros
quero me guiar.

Quero Tua Mão

para me apoiar,

pela Tua Mão

quero me guiar.

Quero o voo dos pássaros

para navegar.

Ando naufragado,

quero Teus Cabelos

para me enxugar!

Não quero ponteiro

para me guiar.

Quero Teus Dois Braços

para me abraçar.

Ando naufragado,

quero Teus Cabelos

para me enxugar.

Não quero bússolas

para navegar,

quero outro caminho

para caminhar.

Ando naufragado,

ando sem destino,
quero Tua Mão

para me salvar.

Saturday, March 19, 2011

borbulhos perversos


Manhã de satur-day (dia de Saturno) lendo Samuel Beckett.. ontem à noite, na mesma companhia,  em meio a suas frases escatológicas e seres tragicomicamente arruinados, tive estranho e incontrolável -ainda que tentando esconder meu rosto dentro do livro- acesso de gargalhadas em pleno metrô lotado, e justamente pelo metrô lotado, a boiada de caras humanas se comprimindo e estendendo feito sanfona desafinada, vapores dos bufos impacientes, coisas caindo no chão, a porta automática que não fecha, a coisa que não anda, metálica Vara da Voz superior administrando e advertindo a boiada contra brincadeiras inconvenientes na plataforma que poderiam causar sérios acidentes..  E, entre uma e outra espiada no pandemônio, rosto de volta pra dentro das linhas de Beckett, aliviado de qualquer espírito de seriedade, eu me diluía no todo, indiferenciando-me sem mais quaisquer clichês de indignação do tempo do ego separatista, afogado no lodo donde  saltavam de meu mal-estar, rumo à superfície, borbulhos de euforia perversa.

-Unzuhause-

Elegia 1938

Carlos Drummond de Andrade


Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,

onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais,

sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.

À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze

ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra

e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.

Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina

e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas

sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.

A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota

e adiar para outro século, a felicidade coletiva.

Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição

porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Thursday, March 17, 2011

feliz dia das Senhoras dos Gatos

Foi assim, com uma imagem e um título próximos a esses, que meu Monastério virtual, e eu escrevendo este post, me ocorreram em sonho nesta noite. Sem que fosse formalmente um "dia das Bruxas", mas sendo! O dia anterior fora dominado por cogitações, em sessão de análise com Lou-à-Lacan, acerca de minha auto-imagem de "aprendiz de feiticeiro", minhas buscas solitárias no círculo mágico, minhas práticas e invocações, livros de orações, an-seio do sublime, e minhas hesitações, evitações pânicas da "suj-idade", tanto no âmbito dos encontros reais na magia prática, quanto da vida dos corpos. Lou-à-Lacan parecia me ver e me ter no colo, minha cabeça reclinada nela.. como no primeiro beijo do primeiro namoro.

-Unzuhause-

Monday, March 14, 2011

pwww

A questão não é que eu seja de todo um misantropo patológico.. mas sim que quase sempre, como diz Sêneca, voltamos menos humanos do convívio com os humanos. Como diz minha amada jaguncinha, lido mal com o contraditório, não no concerto geral das vozes autorais em dialética eterna no pensamento. Estas eu amo, e quanto mais divergentes melhor! Mas isto na noosfera dos grandes autores e das obras. Não na pequenez de alma e nos olhos esbugalhados da gentalha auto-referente, nos automatismos de opinião e nas pretensões dos ninguéns adornados de cílios postiços, orelhas de burro recobertas de peruca e rabo de algodão da identidade.  Mal-estar de abrir mão do silêncio do oceano do Nada, este meu maior Magneto, para ter de zonzar no aquário dos entes e suas opiniõezinhas, seus gostinhos, suas putas que os pariu.. No inferno das interações cotidianas, é quase sempre instantânea a sensação da "queda" espiritual.  E o que parece fugir à regra é o que ainda não teve tempo ou a ocasião para se degradar. Me sinto banalizado a cada concordância admirada, e irritado a cada discordância teimosa de noventa e nove por cento dos outros. E pior quando, tal como o médium do filme de Clint, toco no outro e me vêm em descarga as misérias e agonias que falam através dos discursos . Meu jeito de comunicação com "os mortos" -as latências podres dos vivos- , que como no caso do médium Matt, torna proibitiva a coexistência. As arrogâncias e desesperos, as distorções e fracassos de ser cujos murmúrios gritam  a ponto do insuportável para meus sensíveis ouvidos desprovidos de nome-do-pai o bastante pra dar conta da comédia da Lei. Comédia cujos rudimentos linguageiros me remetem  a uma brincadeirinha de infância com a minha irmã -primeiro tempo, talvez, de uma vontade de zoar as comunicabilidades:
-hsdjhgjag?
-Hã??
-pwww (som de peido com a boca, dedão da mão pra baixo)
-ah, seu bobo!

-Unzuhause-

Sunday, March 13, 2011

ainda carnaval (sem fantasia)..


De um mau gosto absoluto, a capa ao menos mostra o que diz: sem fantasia (e sem uma giletinha básica), a estrela conta tudo e revela sua intimidade..

Saturday, March 12, 2011

Maradona na clínica de Saturno

Minha Nossa Senhora.. que febre foi esta, delirium tremens do obsceno. Provavelmente tudo o que se passara foi mais uma cena também, mas que subvertia o chato teatro de bonecas de sempre. Que bonequinha perversa foi aquela que me escapou dos dedos e se pôs ao meu ouvido provocando entre risinhos: "Você não sabe beijar!" E eu me defendendo, e ela insistindo na certeza impossível -pois não a beijei-de que eu não sabia beijar. E ela ainda: "Tenho uma coisa pra vc". "Meu beijo?". O horror dos micróbios já não importava, queria aquela boca, aqueles micróbios, aquela força total. Mas o que ela me daria não era seu beijo, era meu espelhinho com a imagem do Maradona inchado, drogado e preso na clínica de Saturno. Saio ainda ator-doado. "Você acha que veio a passeio?" No táxi, o mercúrio ainda enlouquecido no termômetro da espinha. Retro-olhando o presente com horror , feiúra de andar claudicante de manco e de manqué conformado, a má forma, as deformidades herdadas, erradas, desejos artistas reduzidos a gozos autistas.  No espelhinho não dela, do táxi, desfilam os velhos objetos de fetiche; em sua beleza abstrata, igualmente deformados, mais um  estratagema do sintoma, vão voyeurismo,  passivo maradonismo daquele que, preso na clínica de Saturno, ouve de um dos colegas de cárcere: "Eu sou Napoleão", e de outro: "eu sou Jesus", disparates tão verossímeis perto da loucura do próprio Diego gordo e derrotado no jogo consigo, lhes dizendo, para o surto geral das gargalhadas incrédulas: "Eu sou Maradona". A música do Maradona herói da Copa de 86 toca então como esperança de uma nova atitude. Senão a do heroísmo juvenil que deu seu espetáculo no seu devido tempo, o daquela Copa de 86, que seja a sabedoria do Maradona clown genial da Copa de 2010. Me senti mais perdido que nunca no conforto intoxicado das drogas ascéticas do medo e da falta, do mal-dizer o desejo, e aqui me vi, preso na clínica de Saturno, junto com o Diego inchado que parecia o mais louco de todos ao lembrar-se do veraz delírio de grandeza de ser Maradona..
-Unzuhause-


Wednesday, March 09, 2011

além da vida


O verdadeiro Segredo Maçónico...
É um segredo de vida
E não de ritual
E do que se lhe relaciona.
Os Graus Maçónicos comunicam àqueles que os recebem,
Sabendo como recebê-los,
Um certo espírito,
Uma certa aceleração da vida
Do entendimento
E da intuição,
Que actua como uma espécie
De chave mágica dos próprios símbolos,
E dos símbolos
E rituais não maçónicos,
E da própria vida.
É um espírito,
Um sopro posto na Alma,
E, por conseguinte,
Pela sua natureza,
Incomunicável

 
Fernando Pessoa
-x-

No contrafluxo dos carnavalescos do metrô da Consolação, volto, segunda, pra casa com a "consolação" íntima, ainda que em minúscula, de mais uma noite vitoriosa como fugitivo da polícia secreta do TAU (Tédio Assassino Urbano). E minha consolação foi dom de Clint Eastwood, a cujo "Hereafter" (Além da Vida)  assisti pela segunda vez, mas com o encantamento primeiro, o do sentimento de que a metade da moeda perdida quando da separação de nosso amigo -essa é a origem da palavra "símbolo", na Grécia- está lá, no bolso deste gênio do cinema e da vida. Se não "a" metade, pois minha Lou de Lacan me faz suspeitar das harmoniosas metades especulares, ao menos "uma" metade, uma combinação possível, que aponta, em Clint e em mim, para uma mesma tremenda simpatia pelo espiritual. Espiritual que, neste filme, chega mesmo a ser "espírita", pois não há dúvidas do elogio do diretor à doutrina de Kardec. Elogio tanto mais contundente quanto maior o contraste entre, de um lado, a anemia idosa da instituição católica e a série de picaretas trambiqueiros do saber (esta praga em todos os setores da pobre cultura moderna), e de outro, o dom mediúnico legítimo da personagem do sempre brilhante Matt Damon.
O filme de Clint fala de tantas coisas.. Sobretudo da tensão entre o chamar (vocare, vocação) da transcendência e o seu não-lugar na rotina banal da vida média. Fala da agonia de um mundo de selvagerias naturais (tsunamis) e humanas (atentados, violência urbana corriqueira). Mas fala também de amor, perdão, reconciliação e (re)encontros. Fala da corrosão da persona profissional da jornalista "fashion" que, na iminência de morrer, anteviu a luz que nos aguarda do lado "de lá", e, de volta pra vida, ante tamanha descoberta já não podia se encaixar nos interesses comezinhos e nos papéis de sucesso como a profissional, amante do chefe e cartaz publicitário que ela antes encarnava.  Precisou então conhecer o desprezo, a perda de status, a ridicularização, para, ameaçada pelo fundo do lodo, ver nascer o lótus do amor com outro ser atormentado pelo próprio dom espiritual - Matt, como médium que perde garotas e se amargura na vida por conta de seu dom de comunicação com os mortos. Quem já não se sentiu batendo a própria cabeça na parede, se barateando, se auto-desvalorizando, se alienando na divisão interna entre atender ao chamado profundo de ser quem se é, por um lado, e a lógica da conveniência, do fazer a vontade dos outros, mesmo que ao preço de nossa alma sem preço? O dom que aparta (santificação é separação) é o que também pode re-ligar. A mediunidade de Matt, esta "maldição", como ele (corretamente, aliás) se auto-denuncia, é o que justamente lhe "mediará", junto com a coragem da viagem e do viver a vida,  dando (o) corpo à paixão pela literatura  (de Dickens), o feliz encontro romântico tão frustrado tantas vezes.  E isto em troca, num instante crucial, de um gesto de generosidade do médium com -e eis o terceiro grande personagem principal, as três histórias paralelas que se encontram na "casualidade" da curvatura do infinito- o pobre menininho dilacerado pela recente perda do irmão gêmeo. Matt aceita, depois de muita relutância, "mediar" uma conversa do rapaz com seu falecido, gesto que por sua vez trará ao garoto não só o alívio de saber que o irmãozinho está bem e continua amando-o e por perto; o irmãozinho falecido o alerta também de que a vida tinha que continuar do lado de cá mesmo,  com toda a dor e saudade, mas sem os subterfúgios e "consolações" que temos quando e enquanto fruímos da delícia da companhia protetora de pessoas superpoderosas. 
O fato é que, a cada dia, perco mais e mais os "amigos imaginários" da infância, distanciamento do "irmão gêmeo" imortal da fantasia. Transcendências cretinas nos afastam do reconhecimento objetivo da vida em sua imanência. Nos iludem com atalhos fantasmáticos. Não é isto que Clint, e sua espiritualidade tão generosa quanto exigente, me ensinaram na doce-amarga noite de segunda-feira de Carnaval. Não: o que eu trouxe comigo do cinema, caminhando na contramão da euforia carnavalesca do metrô da Consolação, era uma fisionomia séria e circunspecta, dentro e  fora, como quem tivesse antevisto, na magia impotente dos símbolos da arte, a verdade de que só se alcança no temor e tremor, na solidão, na perda e transformação, na morte e ressurreição dos nomes e formas, o Paraíso -não como outro metrô banal, a três estações do da Consolação, mas como plenitude, incomunicável "segredo maçônico" de Pessoa.
-Unzuhause- 

Tuesday, March 08, 2011

viagem de carnaval com RaulRuah..

Letra, texto e música a seguir compõem um triplo bálsamo simbólico. Pena que os símbolos, por si mesmos, "apenas" embelezem, não realizem a vida que eles estilizam. De todo modo, um alento para meu espírito entorpecido pelas cinzas de mais um carnaval da frivolidade e de alegrias "fake". Colorida de vida autêntica, pra mim, é a cinzenta quarta-feira que abre a Quaresma, meu tempo litúrgico predileto.
Atônito, ameaçado de todos os lados pelo tédio assassino que espreita de tocaia por trás do computador, da televisão, do rosto aparentemente humano dos transeuntes motorizados, dos meus dentes, das palavras de papel que embalam minha higiene no banheiro, me refugio nos "paraísos artificiais" que ainda acenam sob a cena. Um dos quais é a crença de que a vida não precisa ser apenas isto que seus atores, prostitutos e bobos da corte pregam com seu próprio exemplo como se fosse regra universal. Enquanto isso, nos subterrâneos, a dor mí(s)tica ruminando aos meus ouvidos o pesadelo: "Vais ficar pra titio ou te arrumarás com qualquer uma;  se casares, com as opções de mercado que te ofereço, vais, ao invés de fazeres tenda como Fausto no Tabor da coniunctio mística, é te afundar e te mudar, com banheiro, fogão e show do faustão, para as alegrias de leitão do cemitério conjugal". Titio por titio, casado ou solteiro, prefiro é virar padre!
Tropeços do amor na contramão das esquinas e nos bueiros da grande cidade.
Noutro nível do Amor, a poesia de Raul e o esoterismo de Annie Besant se "traduzem" um no outro como dois suaves vestígios da Transcendência que nos rasga e sangra a alma, que nos torna infelizes errantes na Terra, infelizes enquanto não reconhecermos que nossas metas estão além, vão além, são o Além. Além-Homem (Übermensch), diria Nietzsche.
Tema da alegoria de Raul, o disco voador é uma das vias modernas de "além";  circular, é avatar do símbolo ancestral da mandala em que o homem sem religião (graças a Deus!) pode projetar suas aspirações mais íntimas, o anseio pelo estranho familiar, pela vinda do Salvador, pela totalidade, antes chamada "Deus",  que dormita no inconsciente coletivo enquanto arrastamos essa vidinha sonâmbula que Maya nos propõe. Rasguem-se os véus, e que o corpo desnudo  da vida venha nos propiciar o frêmito de prazer há tanto esperado.
Pegar carona nessa cauda de cometa, pela via láctea, estrada tão bonita da viagem no disco voador do Raul teósofo, da viagem de auto-conhecimento indicada pelas palavras raulzíssimas de Annie, mestra como Raul na arte das moções e emoções de ruah, termo hebraico idêntico para vento e para espírito. O que Raul profetiza sobre a vinda do "moço do disco voador", Annie articula como a transformação interior do sujeito que põe seu pequeno ego pra dançar com a Superalma. O ingresso de ambas as experiências, se é que são distintas, está escondido como a palavra perdida dos maçons, é sem preço de tão valioso, posto que gratuito: Amor.
-Unzuhause-
-x-
"Entre as transformações que se operam nas profundezas da natureza humana à revelia da consciência inferior, há as que afetam o exercício da vontade. O Ego [termo que na teosofia da época equivaleria não ao "eu" pessoal, mas o núcleo transpessoal da psique, o  arquétipo do Selbst, si-mesmo, de que nos fala Jung (by Unzuhause)] lança um olhar sobre o passado e, ao balancear seus resultados e as faltas cometidas, resolve mudar o modo de sua atividade.
O veículo inferior continua , sob a influência dos antigos impulsos, a se chocar violentamente contra a lei. Mas o Ego decidiu que ele siga uma linha de conduta diferente. Até então, ele cedeu à atração da animalidade; os prazeres do mundo inferior o acorrentaram. Agora, vira-se para o fim verdadeiro da evolução e toma a resolução de trabalhar com fins mais elevados. Vendo o mundo inteiro no caminho da evolução e compreendendo que, opondo-se a essa corrente formidável, seria lançado à margem, ele resolve auxiliar a corrente que o conduz ao porto desejado".
Annie Besant
Cristianismo Esotérico
-x-



S.O.S.
(Raul Seixas)

Hoje é domingo
Missa e praia
Céu de anil
Tem sangue no jornal
Bandeiras na Avenida Zil...
Lá por detrás da triste
Linda zona sul
Vai tudo muito bem
Formigas que trafegam
Sem porque...
E da janela
Desses quartos de pensão
Eu como vetor
Tranqüilo eu tento
Uma transmutação...
Oh! Oh! Oh! Seu Moço!
Do Disco Voador
Me leve com você
Prá onde você for
Oh! Oh! Oh! Seu Moço!
Mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí...
Andei rezando para
Tótens e Jesus
Jamais olhei pr'o céu
Meu Disco Voador além...
Já fui macaco
Em domingos glaciais
Atlântas colossais
Que eu não soube
Como utilizar...
E nas mensagens
Que nos chegam sem parar
Ninguém, ninguém pode notar
Estão muito ocupados
Prá pensar...
Oh! Oh! Oh! Seu Moço!
Do Disco Voador
Me leve com você
Prá onde você for
Oh! Oh! Oh! Seu Moço!
Mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí...
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí!
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí!...

Monday, March 07, 2011

confissões de um "vampirinho" com dor de dente

A música-tema desta cinzenta manhã de segunda-feira, aqui no Monastério, é uma baladinha que sempre "tocou" em meus anos de romantismo infantil dilacerado.. Com o adendo de que, no vídeo que vos ofereço, Rod Stewart nos apresenta uma delícia de novidade e uma potestade vocal na frágil figura da cantora Amy Belle. Como as mulheres gostam de se recolocar em sua cativante fragilidade originária, em sua charmosa condição de canarinho cantante, em vestidinho preto básico, e troféu mais cobiçado do mundo, ante um parceiro forte e mistagogo..  
Já eu confesso dificuldades em impor às minhas divas esse tipo de "redução", que não necessariamente é violenta e desrespeitosa, ou o é na mesma medida em que toda transa, quando não é estupro, é uma violação consentida. Ao contrário da redução, minha tendência, dolorosíssima para mim mesmo, é a "amplificação": a deificação pagã das grandes mulheres como se rompessem com a lei de gravidade lacaniana de que "A Mulher" não existe. O que se rompe assim é minha calma psíquica e a própria sedução objetiva, que talvez devesse ser, no sentido que falei, redução, não amplificação. Padeço de um trovadorismo selvagem, vontade desmedida de encontrar grandes ícones vivos de meu desejo de perfeição física e espiritual. Meu "vampirismo", se existe, fica gravemente adoentado, sofrendo de seu próprio poder de encantamento e sua tragédia de desilusão.
Ainda hoje caio com gosto na minha própria arapuca, derrapo nas curvas dessa corrida maluca, curvas também de corpos de modelos de beleza que, se torturam a mulher comum pela distância de suas celulites com relação à "modelo" perfeita, não menos me pressionam quando não as "possuo", a essas modelos, a esses arquétipos, mesmo que oniricamente, isto é, por alguma forma de comunicação sim-pática (no sentido mágico) e de entrega pela mulher de seu "sangue" vital. Apesar de meu tabu do sangue menstrual..
Meu Monastério não tem foto de revista pornô escondida sob as imagens que adornam as paredes: Cristo, Sartre, Freud, Jung, ou seja, grandes bruxos do Conhecimento. Ainda assim, minha poética do espaço (Bachelard) é impregnada, como eu, de um clima meio "bruno-surfistinha" por conta deste desejo permanente, essa sede e fome por grandes mulheres, mulheres que, como a linda analista me fez pensar, sejam aquelas cuja conquista é tão "necessária" pra mim quanto o sentimento de que eu não poderia "dar conta" de tamanho tesão de physis e personalidade.. É como dizia Groucho Marx, eu não entraria jamais para um clube que me aceitasse como sócio! rs
Aliás, minha própria analista é uma síntese aguda desses fantasmas, e dou graças a Deus por ter descoberto tamanha "Exu-Beirância", como gosto de chamar essa Lou de Lacan,  exuberante beirada da encruzilhada de Exu. Encruzilhada tricéfala de Unzu com Lou com Exu.
Na semana passada, o episódio da rejeição pela professorinha particular reativou esse universo tão carregado e ancestral de meus afetos e devaneios.. Não esperava, conscientente, ao menos, nada de concreto da pessoa, mas foi como um vampirinho (viu, dona Morcega? rs) iniciante mas me sentindo, paradoxalmente, como que um careca, dor nas costas, sobrepeso, cheio de rugas e olheiras que eu deparei com o frescor de bela pessoinha comum da professora de espanhol. Não tive a graça de muitos seres da noite, de poder camuflar em tempo hábil as misérias e me embalar numa atmosfera mais "saudável", sem as marcas do tempo desertificado que me rouba tantas energias nos últimos anos.
Vide o pretexto deslocado do próprio encontro.. aula de espanhol? Pra mim espanhol é dessas línguas que, afora alguma urgência específica, posso aprender sozinho, e que leio e escuto com muita facilildade. Tentei então, à falta de motivação para esse tipo de aulinha, desviar o foco para um estudo mais literário, e apresentei a idéia de estudarmos Dom Quixote. Claro que, na falta do que me ensinar nesse quesito literário, a professorinha se viu meio que acuada, talvez mesmo intimidada pelo meu "não" tácito ao seu beabazinho da língua em si, quando o que eu desejava era o abecedário inteiro do gênio da língua (ops, os grandes escritores), e de trás para frente.. Isto, mais os caninos precocemente eretos -e ui! como dói depois o dente quando não cravejou sua presa natural- e aquele destreino de vampirinho encantado elegiacamente pela vidinha bonita que via diante de mim, tudo isto, eu dizia, deve ter produzido aquela reação afetivo-química desvairada da professorinha em bater em retirada da minha existência. Ahh não me recuperei ainda deste "fora" metafísico, tão raro mas tão reiterado, em horas-chave, como ele é em meus séculos de existência-fantasma.
Coração partido!! Se bem que os vampirões clássicos não tenham coração, segundo minha adorada Morcega tanto insiste em nos comunicar hahahahahahahahahahaha.
Ahhhh depois desses cacos, que venha a cola, bota Rod e Amy pra tocar!!
-Unzuhause- 


Saturday, March 05, 2011

Anda suelto Satanás (para Helenita Penélope Cruz)


Segue-se trecho de um texto que, no conteúdo e na língua, vem em homenagem à Helenita Penélope Cruz, belíssimo docinho catalão enviado da confeitaria de Orfeu para trazer música e ternura para a canseira  surda e muda em que minha rotina intelectual se arrastava, esgotada, antes de descobrir a força de seu piano. De seu Beethoven. Encontrar-te foi uma descoberta decisiva para o impulso final da luta pelo doutoramento, e por isto você está entre os meus agradecimentos na tese. Helenita, te prometi seguir abrindo espaço para estudos cátaros, esta paixão que trazes de casa e que é também minha, sedento que sou por "novos" (na verdade, antiquíssimos, pois só no antigo há o autenticamente novo) caminhos espirituais. Hoje, proponho um material sobre os bogomilos, heresia balcânica do século X que teria tido grande influência para a gênese do catarismo do século XII e XIII.
Boa leitura e boa viagem por esta "Arca de Noé", que é como Mircea Eliade designa o ofício e o espírito do historiador das religiões enquanto neófito (iniciante) num rito de religação com o Poder ancestral, enquanto se arrasta, esgotada, a travessia do pântano da vida moderna.
-Unzuhause-

-x-

(extraído de  
http://www.artrev.8k.com/0000000041.htm)


Anda suelto Satanás

La visión pesimista de la sociedad que exhibían los bogomilos era una consecuencia directa de su cosmogonia. El hijo primogénito de Dios Padre, Satanael, recorrió el Universo hasta sus más bajos confines y envidió el reino de su padre. Cuando ascendió de nuevo, se rebeló contra él. Fue despojado de su carácter celeste y arrojado del cielo. Decidió entonces, secundado por miriadas de ángeles rebeldes, crear su propio reino. La creación en siete días narrada en el Génesis no sería sino obra suya. Tras crear la Tierra, el Sol, la Luna, los vegetales y los animales, concibió el plan de crear al ser humano. Para mantener al hombre bajo su imperio, Satanaél dio las tablas de la ley a Moisés. Con la misma misión envió a Elías. Así se ha perpetuado el orden civil y religioso que ha tenido al hombre sometido bajo el poder de los demonios.

Dios Padre se apiadó de la humanidad y envió a uno de sus ángeles, Maria, para que recibiera a su otro hijo, Jesús, quien penetró por el oído de María y se revistió con una forma humana pero inmaterial

(una doctrina conocida como «fantasiasmo», adoptada por muchos gnósticos). Por su parte, Satanael envió a su demonio Elías bajo la forma de Juan Bautista, para apartar a las gentes del verdadero bautismo, el del Espíritu Santo, sustituyéndolo por el bautismo de agua, considerado por los bogomilos como una farsa satánica. Satanael consiguió al fin que Jesús fuera crucificado, pero éste sólo murió en apariencia y volverá para juzgar a la humanidad. Satanael, que perdió su partícula divina «el» para llamarse Satán, arderá con los pecadores y el mundo que creó será consumido por las llamas hasta desaparecer. Hasta que eso ocurra, según algunas sectas bogomilas, el alma de los pecadores más leves conocerá un sinfín de reencarnaciones hasta su purificación final.


El camino de los perfectos

Quienes profesaban este credo se llamaban a si mismos «verdaderos cristianos» y se constituían en iglesias. No poseían templos, pues los consideraban poblados por los demonios. Según la creencia bogomila, el mismo Satanaél habitó el Templo de Jerusalén, tras el cual se instaló en la catedral de Santa Sofía en Constantinopla.

Los miembros de las comunidades bogomilas se dividían en dos agrupaciones bien diferenciadas. La primera estaba formada por los «perfectos», los «elegidos», hombres y mujeres iniciados en los misterios y portadores del ideal bogomilo. Vestidos con hábitos negros, encapuchados y dedicados a una vida ascética de oración y contemplación, los «elegidos» despreciaban el cuerpo, al que consideraban una creación satánica. Para ellos, los niños apenas tenían ningún componente espiritual y cuando veían a una mujer embarazada, afirmaban:

«Lleva un demonio dentro». Traer nuevas almas al mundo era perpetuar la obra satánica. Seguían una estricta dieta vegetariana, complementada con largos ayunos. Se abstenían de matar vida alguna y sólo comían vegetales y pescados, ya que éstos se reproducían sin cópula. De entre ellos salía su propio clero, organizado en una jerarquía de diáconos, sacerdotes y obispos (el djado Vladika, «anciano» o «abuelo», como aún se le denomina en Bulgaria). Los bogomilos búlgaros tenían también la figura de un Papa, jefe supremo de su iglesia.

El segundo grupo lo constituía la masa de los creyentes. Compartían los bienes, utilizaban los fondos comunes para alimentar a los pobres y a los "perfectos" y cuando uno de ellos enfermaba, a menudo hacía la promesa de convertirse en «perfecto» y, tras una dura abstinencia y después de renunciar a cónyuge, hijos y bienes, recibía el Espíritu Santo por la imposición de manos de un «perfecto». Sus enemigos aseguran que algunos recurrían al suicidio o eran asfixiados con la almohada, en su lecho, para ganar el cielo.

La liturgia bogomila era muy sencilla. Negaban el poder de la misa y de los sacramentos cristianos. Especial repugnancia les producía la cruz, por ser el instrumento de tortura de Jesús.
Negaban que Cristo hubiera realizado milagros, considerando que el Evangelio habla alegóricamente de la enfermedad y la ceguera del alma de los pecadores. El culto a las reliquias de los santos les parecía absurdo. Pensaban que el cuerpo era una creación de Satán y que en los cementerios moraban los demonios. Por la misma razón negaban la resurrección de los cuerpos.
Las dos tendencias más poderosas de la «herejía búlgara» estaban integradas en dos «órdenes» bien diferenciadas; el orden o iglesia búlgara, partidaria de un dualismo mitigado y del bogomilismo más puro, y el orden o iglesia dragovitsiano (Feclesia Drugometiae), máximo exponente de un dualismo radical con posturas muy cercanas a las de los paulicianos. Muchos bogomilos acabaron acercándose a las religiones de los pueblos dominadores del momento. Abrazaron la fe católica, la ortodoxa o la musulmana, pero conservando sus creencias dualistas. Incluso hubo bogomilos infiltrados entre los monjes ortodoxos de los célebres monasterios del monte Athos.

Viajando hacia Albania encontraremos a muchas poblaciones que se confiesan musulmanas. Sin embargo, un examen más atento nos revelará que en realidad profesan una mezcla de Islam y dualismo que delata su auténtico origen bogomilo.

El origen de los cátaros


En Occidente los misioneros bogomilos llevaron su doctrina a Praga en cuya universidad se estudiaron sus postulados con inusitado interés. Encontraron seguidores en Alemania, donde fueron conocidos como ketzers. En Italia, después de haber evangelizado la Panonia, hallaron terreno abonado ya que en el siglo VIII se habían asentado en Sicilia armenios paulicianos deportados. Pocos años después, bajo su jefe espiritual, Djakonica, la comunidad pauliciana en Italia alcanzó grandes proporciones. Numerosos predicadores del orden búlgaro y del orden dragovitsiano viajaron a Occidente. El dualismo mitigado, propagado por los bogomilos de la iglesia búlgara, especialmente por los bogomilos bosnios, conocidos allí como patarinos, arraigó con tremenda fuerza en el norte de Italia, donde dieron origen al catarismo italiano. En Verona, Turin y otras ciudades adquirieron proporciones alarmantes para la Iglesia católica. Las comunidades italianas fueron vitales para la expansión de la herejía por el sur de Francia, Occitania y Languedoc, donde la población e incluso los grandes señores y buena parte del clero adoptaron las doctrinas del dualismo radical llevadas allí por los representantes del orden dragovitsiano. Estos herejes, que fueron denominados al principio patarinos, búlgaros, maniqueos, paulicianos o publicanos, empezaron a ser llamados cátaros, «los puros».
A partir de este momento el nombre de «bogomilo» cayó en desuso, pero su ideología se transformó con una vitalidad sorprendente y reapareció continuamente como una corriente oculta en la historia de Europa. Dejaron encendida una antorcha cuyos destellos se ven en los movimientos valdenses y albigenses; en la reforma protestante; en la filosofía cartesiana o en filósofos contemporáneos como Henri Bergson. Se vislumbra incluso en la concepción dualista radical de los nacionalsocialistas: un Universo concebido como un dantesco campo de batalla entre dos principios irreconciliables:

Luz y Oscuridad.

Thursday, March 03, 2011

o mantra e o ziriguidum

Quase uma e meia da madrugada. Estive umas duas horas ou mais suando bytes pra tentar entender a porra de uma atualização necessária do youtube. Só se ouviam, não se viam os vídeos. Uma alma generosa deixou a dica decisiva num setor de perguntas mais frequentes. Mesmo assim o caminho foi longo e repetitivo. Como num passeio dantesco, fui exposto ao desprazer de deparar, quando não apelar para o que aparecesse pela frente, durante os infinitos testes - inclusive os videos "mais populares" do momento. E dá-lhe Ivete Sangalo e comercial da Sandy para cerveja "devassa". Meu Deus.. e isso é só o começo dessa tortura chamada Carnaval.. e esse climão de Réveillon??!!! Deus meu, cadê minha passagem para alguma cabana de ursos polares. Ou Iraque. Ou o raio que o parta, mas de Brasil tô cheio. De São Paulo tô cheio. Mas caio no erro denunciado por Zaratustra: me demoro no lugar que já não posso amar, e assim instauro uma lógica de gozar, usufruir, da minha própria insatisfação. Ao invés de mudar. Mas meu Deus, como levar a Biblioteca do Mosteiro junto comigo. Não me admito num avião (eita coisinha horrível, com ou sem livros) sem meus livros pais, meus livros filhinhos, livros amantes, livros amigos, meus livros colegas de trabalho ou ainda simples (des)conhecidos. Desapego, Unzuhause! Falando em desapego: o mantra que se segue foi o que me amparou quando me livrei de sandys e ivetes e escolhi por conta própria a trilha sonora das minhas lutas com o youtube. Lição metafísica nisto: diante das canseiras impostas pela vida, resta sempre a brecha para a escolha da música com que iremos ao front. Ou, menos belicamente: com que cantaremos a transformação do obstáculo em portal. Abertura. Vida musicada, ou seja, vida que vale a pena ser.
Agora vinte pras duas. Vou pra cama. A noite é longa, o sono, curto. Algum de meus livros me ajudará a esperar por Morfeus. Tomara que amanhã, as mudanças que tanto penei, as transformações que tanto doí (pensei nisso: mais que dizer "transformações doem", seria o caso de "doer transformações")  ainda sejam válidas. Sem sandys e ivetes. Longe desse inferno de ziriguidum.

-Unzuhause-

buuuuuuuuuuuuuu

Sempre me considerei um anjinho.. mas ontem ouvi de uma professora particular: "Seu jeito de se aproximar me assustou, por isso desisti de dar aulas pra você". Juro que eu não havia falado nem feito nadica de nada de mais para ela.. Me lembrou dois episódios. Um, quando uma colega de escola de teatro via meus ensaios para "Calígula", de Camus. Minha primeira peça inteira, num esquema de seriedade profissional, e logo no papel do protagonista. A menina espiava momentos de ensaios e leitura antes da aula, nos corredores, e me confessou que eu dava medo. O personagem era mesmo terrível. Depois ela, que nada tinha de travada e medrosa, bem ao contrário, se tornou uma grande amiga, além de colega, novamente, agora numa faculdade de jornalismo. O outro episódio foi uma conversa no Centro Cultural São Paulo com uma amiga deleuziana, esquizoanalista, doidinha e gostosa. Eu confesso, queria impressioná-la com saberes e poderes. Mas tinha, como ainda tenho (menos, agora, mas tô retomando, noutras bases), comprometimento com a cosmética. E achava esse comprometimento o meu maior diferencial para paquerar. Mas algo a distanciava de mim, e naquele fatídico dia, acho que saquei uma das razões: ela me sugeriu rapar geral a cabeleira, pois "via" em mim algo que o cabelo "certinho" atrapalhava. Não sei se isso facilitaria minhas pretensões. Nada mais se esclareceu, a coisa ficou no ar, e eu não tive a coragem de aceitar a proposta. Pensando agora, de fato, os calvos normalmente são os escolhidos para papéis de vilão. Calvos não necessariamente capilares. Me senti careca (desnudo?) aos olhos da professorinha assustada de ontem. Chapeuzinho Vermelho partiu meu coração.. pois  eu sempre quis ser o mocinho da lenda.. Será?
-Unzuhause-

Wednesday, March 02, 2011

ao som de Fausto e Pietá


Passaram-se já anos e ciclos, mas ainda me lembro das lágrimas acarinhando minhas bochechas enquanto eu lia, lá pelas duas da manhã, não sei, as últimas páginas de Fausto, de Goethe. Na vitrola, o lindo CD do Era. Não podia demorar muito, pois mamãe e a maninha logo chegariam, e eu odeio ser tirado abruptamente, por força do olhar do Outro,  do transe do "clima" de um grande filme, livro, ou de uma música, ou de um sonho. E, sem nada planejado, a minutos de elas chegarem, eu ansioso de cruzar a chegada do longo percurso de leitura do clássico de Goethe, justamente a cena decisiva, da redenção de Fausto e sua acolhida nos céus, pela Mãe, foi "assistida" por mim ao som da última faixa do CD, esta aqui (ouça abaixo). Como combinou! Como melodia, palavras e imagens se trançaram e me traçaram destino de deleite naqueles instantes. Não bastasse sua beleza própria, uma música que entrou para a minha história como um dos momentos de grande amor e gratidão pelo divino que in-existe mas que "é", ilusão? não sei..  mas que é sempre como.. como livro, como história, como sonho, como mito. Poema-cântico que, com a humanidade das "Eras", eu revivi ao som de Era naquela noite.. de amor e redenção, nos braços dos anjos, elevado da terra, no colo da Mãe (coletiva), antes da chegada da mãe (pessoal), pietátianamente liberto da cruz da existência.
-Unzuhause-



Don't U
(Era)

Sempire d'amor
Sol mani deo
Empi altera
Invocante di amor
Infanatibo
Senzo removi
Sempire d'amor
Sempire di adore

(trad.)

Você Não?
(Era)

O amor eterno
As mãos ensolaradas de Deus
As mudanças da experiência
Chame o amor
Seja amado
Sem sair
O amor eterno
A adoração eterna
***

Tuesday, March 01, 2011

descanse sem paz

Descanse sem paz.. e acorda renovado. re"noivado" consigo, com a vida, com o caos anárquico e ateu das coisas que nenhuma compaixão têm por nós, pois somos nós que a devemos às coisas.. compaixão pelos seres, pelos entes, doentes, pequenos interesses, raciocínios e medos. a gentileza de uma noite virando a secura e o desprezo no dia seguinte. a falta de gentileza se dissemina como uma epidemia. o vírus da morte que espreita a substância de alegria da vida. mas tenho culpa nisto tudo.. eu e meus antidepressivos, estufa de proteções sufocadoras que fabricam quixotes e dulcinéias para aliviar a fuga-fobia na contramão, no evitar as mãos do experimentar genuíno e espontâneo do âmago da vida, bem e mal, deus e diabo, eros tanático, arquétipo em flor. flores como a que entregamos para a dulcinéia que as recebe, sorri e as pisoteia. não sobrará pétala sobre pétala. e a dulcinéia medrosa e defensiva muda de cara. fecha a cara. voltamos pra senzala de nós mesmos. do-eu am-parado, amuletado em anti-depressivos. cadeira de rodas, não o rolimã; lá fora, o temporal mata impiedoso, e vicejam os bosques de girassóis e ratazanas sombrias. devoramento... ponto de não-retorno. me tiraram a alegria. me tirei a alegria. como o coleguinha da escola que empurrou o outro para a cerca de arame enfarpado, durante a "brincadeirinha" do corre-corre. primeiras cica-atrizes. atrizes motrizes do desejo em suspenso.. eternos vapores do mistério translúcido que é o nosso querer mistérios, quando o que há é nada. Nada! estamos sós. ninguém para chegar, ninguém para o jantar. miseravelmente lançados no mundo, sôfregos por afogar a angústia em "novidades" simplórias como mais casamentinhos felizes e mais trezentinhos mil-réis. pai, te perdôo pois não sabes o que fazes.

-Unzuhause-

PS: texto sob a direta inspiração e audição de:

monstruosa madrugada da Arte (28/02)


Até que as madrugadas de inquieta borrasca têm seus tesouros a nos esperar enterrados no fim do arco-íris. Acordei hoje lá pelas 4 ao som do temporal de dentro e de fora, e fui brindado com um espetáculo de não se desretinar nunca mais do coração: "Monster - Desejo Assassino", de 2003. Com Charlize Theron em desempenho de gênio como Aileen Wuornos, uma prostituta serial-killer (história verídica). Atuação que merecidamente lhe rendeu um Oscar de melhor atriz, como descobri, às gargalhadas, hoje pela manhã. Veja-se, pela foto acima, um pouco, na epiderme, do que este papel acarretou de entrega e devoção por parte da deslumbrante Charlize, que queimou num potlatch sacrificial suas formas e formosuras para deixar o Monstro da Arte emergir nela e através dela. E (re) descobri também "Crimson & Clover", a música-tema da comovente noite de amor da personagem de Charlize com sua namoradinha, também ela tão fora dos padrões da "estética" (ou melhor, da cosmética) vigente. A música que lhes embalou os beijos e carícias na cama -e o sorriso e abraço cúmplice de Charlize na viagem de carro na manhã seguinte- tá tocando aqui na cela sem parar, como um chiclete delicioso, desses de se mascar noite adentro com os vagabundos iluminados de Kerouac, ou na companhia dos bêbados lascivos de Bukowski, prazeres como há tanto tempo não me permito, enredado em mentiras sublimatórias e em asco pelo mundo podre, mas que relembrei, como um velho professor em fuga do fardo dos anos de esposa feia, aliviado ou vingado após "umazinha" com a lolita da sua sala de aula. Foram instantes de anamnese não socrática, mas báquica, nesta noite de gozo monstruoso com a arte de Charlize, assim como tive dias atrás com Natalie Portman, que também acaba de ser agraciada, de modo justíssimo, com a estatueta de Hollywood pelo fantástico "Cisne "Negro". Duas grandes artistas, um só e mesmo gênio ensinando como saltar fora das garrafas enterradas da santidade covarde e caricata, êxito e "exit" de obras de arte do "ator santo", escritas com o sangue, com as vísceras, com o frêmito e o vômito de nosso dilaceramento.
Unzuhause-