Sunday, April 24, 2011

na serra pascal do Si-Outro

Imagem no Monastério Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica

Meu sábado de Aleluia culminou numa grata surpresa:a convite da queridíssima Lucila, fomos, junto com uma outra amiga, a Dani, para a missa das monjas beneditinas do Monastério Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra. E pra mim o percurso em si foi o que de mais "pascal" -Páscoa: passagem- pude vivenciar, dado que me sinto um pouco alheio, atualmente, à "eficácia simbólica" (Lévi-Strauss) dos ritos externos da instituição católica. A vontade ao ver aquelas doces freirinhas e seus cânticos tristes e recatados era botar no meio delas a Woopy Goodberg pra puxar o coro de "Oh, Happy Day!" e sair com todas elas, com o padre e com o público, pra cantarmos ao ar livre, meditarmos e batermos palmas ao Cristo ressuscitado, dizendo e honrando a noite, o vento e o verdor do Fora, num rito xamânico-cristão, em torno da fogueira que de fato fizeram para acender o círio. Mas nada nesses devaneios meus importa, ante a beleza da homilia do padre e das palavras bíblicas rememorando a História da Salvação, e suas diversas epifanias desde o Gênesis, passando pela luta de libertação do Povo de Deus contra os "egípcios" (esotericamente, as forças escuras de nossa alma) até a vinda do Redentor para consumar a vitória da vida contra as forças da morte e da opressão (interior, inclusive). E o que amei em especial foi poder reencontrar tais ensinamentos -em si mesmos já sabidos, ameaçados, pois, pela catalogação informativa- e senti-los libertos num contexto de "aprendizagem" que soube ser novo e transformador, graças à nossa disponibilidade criadora e à sorte de contar com amigas tão especiais pra compartilhar este "ir", esta singela e expressiva aventura -até pelo inusitado, e pelo tarde da noite, escuridão cerrada, nem sequer a luz da Lua na madrugada orante. O que começou árido e pesado pra mim -mais um "feriadão" impessoal, no deserto e no calvário do mesmo- terminou em um legítimo atravessamento, epifania imanente, diferença, di-ferir condicionamentos egóicos indo ao encontro, na serra densa, do Si-Mesmo (ou Si-Outro?) que despertava da morte.
FELIZ PÁSCOA!!

-Unzuhause-



Saturday, April 23, 2011

de amor e feriadão

Ânima
que desânimo
simulacro
de amor
tão silente,
tão ausente,
frio, indiferente
sob medida
da feição
desafeta
desse mundo
vagabundo
de servidões e
feriadões
alegria
pedestrina
de homens-turbo
voando baixo
engarrafados
aladins
em caixões 
de quatro rodas
peidando fumaça
como a caixinha
luminosa
de peidos mentais
buzinando feliz:
"ninguém é de ferro"
e tem razão
replicantes de ferro 
do Oni-ninguém
e os símbolos
enferrujados
e os a-fé-tos
embolorados
as patéticas
ilusões
da libido
arquetípica
sifilítica
paralítica
que fracassa
monolítica
e se humilha
ante totens
que ela inventa
e a inventa
e se destrói
suicida
via crúcis
mamãe maria
mamãe pietá
mamãe repouso
mamãe-seio
do Ser
mas nesse enquanto
mesquinho sendo
imundo mundo
do instituído
os gemidos
lancinando
vão do parto 
ao in-farto
agonias
de falta
desalento
cada volta
cada nova
aflição
corrosão
decepção
da sempiterna
e sempre idêntica
solidão
-Unzuhause-

Friday, April 22, 2011

paixão de Nosso Senhor (V)

paixão de Nosso Senhor (IV)


Santa Gertrudes de Helfta (1256-1301), religiosa beneditina



Exercícios, VII nono (a partir da trad. SC 127, pp. 281ss., rev.)


«Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos Seus amigos» (Jo 15, 13)


Amor, tu que reténs o meu Jesus, o meu doce Salvador, tão preso e pregado à cruz que, ao expirar por tua mão, Ele morre cheio de ti, Amor, que fazes? Não te poupas nem descansas para vir em auxílio dos infelizes, Amor, nem te impões a ti próprio limites. A tua perícia tocou com tanta força o coração do meu Jesus que, despedaçado por amor, o Seu coração foi chamuscado. E eis-te contente e doravante satisfeito, agora que o meu Jesus foi suspenso e morto diante dos teus olhos — morto, morto de verdade, para que eu tenha vida em abundância; morto para que eu seja uma criança adoptada pelo Pai com ainda mais ternura; morto para que eu viva mais feliz. [...]
Ó Morte que nos trouxeste tantos frutos por graça, que a minha morte seja tranquila e sem medo debaixo da tua protecção. Morte de Cristo que trazes a vida por pura graça, deixa-me desaparecer debaixo das tuas asas (Sl 36 (35), 8). Morte donde sai a vida, faz arder em mim para sempre uma só centelha da tua acção vivificante. Morte gloriosa, morte frutuosa, súmula de toda a salvação, amoroso contrato do meu resgate, pacto inviolável da minha reconciliação, morte triunfal, doce e cheia de vida, em ti brilha para mim tão grande caridade que nada há de comparável no céu e na terra.
Morte de Cristo que amo com todo o coração, és a confiança espiritual da minha alma. Morte amantíssima, em ti estão contidos para mim todos os bens. Só te peço que me guardes sob a tua benevolente protecção, para que na minha morte eu repouse com suavidade à tua sombra (Ct 2, 3). Morte cheia de misericórdia, és a minha vida felicíssima, a melhor porção da minha herança (Sl 16 (15), 5), abundante redenção, preciosíssimo legado.

Wednesday, April 20, 2011

paixão de Nosso Senhor (III)


"Hoje qualquer criança que aporte nessa terra extinta encontra bem menos espaço para o brotar e o florescer. Encontra de imediato a câmara obs-tétrica do pré-natal, encontra, em seguida, o peito de silicone e o bottox, encontra o zumbi erótico da terra devastada e não mais alguma mulher plantada no húmus e no silêncio de seu próprio útero. Num encontro desses, para não ficar ofuscado e queimado pelo mundo, recua-se até a fenda, até o negativo, e aí, ou você permanece lá e se torna um escritor ou um pensador - caso consiga não enlouquecer, caso suporte ser esbofeteado por todos os lados e permaneça com o rosto todo machucado, mas permaneça sem se refugiar nos constructos da loucura -ou você é obrigado a cindir-se e enviar ao mundo os falsários, as coreografias fatigadas para transitar entre as figuras do mundo".
Juliano Pessanha
Instabilidade Perpétua

Tuesday, April 19, 2011

harpas, hienas, hi-Atos

aiii começou! começou a enxurrada de emails de "feliz páscoa", falando de Jesuisinho Luz e o cacete a quatro socorrooooooo.. mas a guerrilha cultural no infinitésimo, a fenda da revolta, o micromaquis de repúdio e escape à ditadura da mediocridade é sempre possível.. como hoje de manhã! as hienas elétricas da cidade "dinâmica" queriam me roubar a serenidade filosófica, eu tava quase me rendendo ao torpor, mas a música de Mozart me trouxe à tona e me salvou.. na guerra das Harpas às Hienas, Hi-ato de transcendência se fez, o agônico tempo de concreto da necrópole cedeu ao brotamento da rosa no asfalto, anjos em asma no ar falto, fadiga de ar farto, a dessaturação, a espontaneidade da Escuta, do Aberto, élan vital do Espírito, Jesus Cristo libertador e primogênito do buraco negro, mandando à merda jesuisinho luz da feliz páscoa nos nossos corações..
-Unzuhause-

Sunday, April 17, 2011

paixão de Nosso Senhor (II)

"Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz! e escrevam nela:
-Foi poeta - sonhou - e amou na vida"

 Álvares de Azevedo
"Lembrança de Morrer"



paixão de Nosso Senhor (I)



Friday, April 15, 2011

plantão unzunews II


Conferência com Frei Betto
Imaginário, Futuro e Utopia
Conferência com Frei Betto, frade dominicano e escritor reconhecido no Brasil e no exterior por sua trajetória como intelectual e militante político, comprometido com as ideias de libertação e emancipação popular.


Dia 19 de abril, terça-feira, às 19h30.
Sala de Leitura - 2º andar. SESC Pinheiros - Rua Paes Leme, 195.


Acesso livre até a capacidade do local.

Thursday, April 14, 2011

plantão unzunews

Claude Lefort (1924-2010)

HOMENAGEM AO PROFESSOR CLAUDE LEFORT
 28 de abril de 2011
14h30
Conferência de Abertura
Prof. Dr. José Arthur Giannotti (USP)
15h30
Mesa Redonda
Prof. Dr. Luciano Oliveira (UFPE) Profa. Dra. Eliana de Melo e Souza (UNESP) Prof. Dr. Sérgio Cardoso (USP)
17h30
Mesa Redonda
Prof. Dr. Newton Bignotto (UFMG) Prof. Dr. Adauto Novaes (Arte e Pensamento) Profa. Dra. Olgária Chain Féres Mattos (USP)
19h30
Conferência de Encerramento
Profa. Dra. Marilena de Souza Chaui (USP)


Local: sala 14
Conjunto Didático de Filosofia e Ciências Sociais, 315
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 - Cidade Universitária
Inscrições e Informações: www.fflch.usp.br/df

Wednesday, April 13, 2011

música bonita, aniversariante mais bonita ainda *PARABÉNS, QUERIDA LOU-À-LACAN


PS: Olha você como dança no meu céu e me lembra o horário da sessão hahahahaha

E aqui, você em suas vestes ancestrais, ainda nietzsche-freudianas

PARABÉNS LOU-À-LACAN! Por mais um ano de vida. Por ser quem há muito meu inconsciente esperava para abrir a tampa de lixo da caixa de Pandora, dos restos inúteis e pistas de renovação. Por ser pessoa importante, importantíssima para mim, como será cada vez mais para o mundo intelectual. Por ser tão linda por dentro e por fora, apesar de ser REAL, negando o meu matema -este junguiano- de que "Beleza > ex-sistência" rsrs.  
Por ser obra de arte que ilude, incita e excita ao de-bate (como diria outra lacaniana adorada, vampira na acepção e no poder da palavra). Só na barca de uma consequente e sim-thomática "ilusión", título da música em tua homenagem, logo abaixo, a travessia é suportável.
Por me reensinar a desejar, enquanto te reensino a "ler"rsrs. Pela Reforma do Entendimento em que logo te convencerás do porquê "Cisne Negro" ser tão bom. Por me oferecer escuta tão sutil para reelaborar meu próprio Cisne Negro.
Por me dar vontade de pegar o papel do chão HAHAHAHAHAHAHAHA
beijo enorme no coração!
-Unzunietzsche-


Tuesday, April 12, 2011

magia de aprender

"Professor" Aleister Crowley

Acabo de ser convidado pra participar de minha primeira banca examinadora universitária -qualificação de um mestrado na USP. Sentimento de alegria, de responsabilidade, e também da inevitável passagem do tempo e deslocamento de ponto de vista na minha relação com a vida de estudos. Ao invés de apenas o devorador individual, começar a falar "sobre" e se possível transmitir conhecimento;  ao que meu anarquismo íntimo e minha índole e fraqueza para o auto-deboche me sussurram: -Como se você tivesse algum! ou melhor, como se este conhecimento fosse uma "coisa", thing, e não um processo que, pra mim e pra você, é perpassado de "no things", não coisas, nada, zeros, iniciações e reinícios.
De todo modo, já que de ensinar é que se trata, gostaria de compartilhar uma "receita" não de coisa a aprender, mas do que é o aprender mesmo. A filosofia do trabalho intelectual é algo que me encanta, e sugestões provêm de fontes as mais díspares, livros e experiências, inclusive estas, de um tipo ocultista na sua aparência, mas que, falando não do ocultar, mas do re-velar, é amplamente traduzível noutras searas do Aprendizado que, no seu (sem) limite, é Um Só.
-Unzuhause-

"Cada palavra, cada verso, cada Livro tem um sentido próprio e inexprimível que só pode ser captado por um profundo estudo e, sobretudo, por uma frequente prática cuja razão de ser é a experiência direta. A simples leitura desses Livros pode nos deliciar e nos conceder lampejos de Luz - a qual os Iniciados chamam de L. V. X. - daquela Verdade que é subjacente e onipresente em todos nós, embora quase nunca o percebamos. Porém somente o trilhar do Caminho, somente o Trabalho constante e árduo da Labuta Iniciática pode lapidar nosso ente errático e peregrino, fazendo-o ascender de Oásis em Oásis, tornando-o capaz de suportar desertos cada vez mais rigorosos e impiedosos até que tenhamos atingido a Fonte Primeva".

"Apresentação" a
CROWLEY, Aleister,
Os Livros de Thelema

Saturday, April 09, 2011

kokoro, gaman, kansha, sumimasen, gassho



Imperdível a reflexão que se segue, de Monja Coen, sobre o recente desastre no Japão. Palavras que, assim meramente escritas, são já marcantes, mas de uma real intensidade e beleza que tendem a escapar a quem ainda não teve a oportunidade de ver esta mulher de perto. É de uma energia, de um carisma, de uma profundidade espiritual arrebatadoras. Antes mesmo de saber de sua fama -é hoje a mais conhecida expressão do zen-budismo no Brasil, e de grande trânsito em jornais e televisão-, a conheci pessoalmente, por "acaso", numa tarde em Perdizes, numa loja em que eu cuidava de emoldurar um quadro com a foto de Jung. Não me esqueço da alegria de menina que essa vetusta mestra brasileira me participou ao se deparar com a imagem do mestre suíço, seu velho "conhecido", e tanto mais forte porque lido, nesta foto, pelas lentes geniais de Henri Cartier-Bresson. A monja ficou especialmente curiosa pelo anel negro na mão esquerda de Jung. Expliquei-lhe que era um anel gnóstico e dei alguns detalhes sobre essa corrente subterrânea do cristianismo dos primeiros tempos, de que Jung, por vias próprias, foi o maior dos seguidores modernos.
De lá pra cá, não deixei mais de frequentar o templo da Monja quando ainda era perto do metrô Clínicas e depois da mudança para o Pacaembu. Tenho ido menos do que gostaria, é verdade. Não me esqueço sobretudo do Réveillon que ali tive a honra de vivenciar.
Quanto ao texto, que nos ensine sobre os segredos não só do povo japonês e não só neste tsunami. São instruções de grande valia para todas as catástrofes, naturais ou antropológicas -vide Realengo, nesta semana-, com que se defronta a sede humana de sentido, dignidade e justiça num mundo cada vez mais violento e absurdo. São também doces portais verbais para a (l) titudes espirituais que se re-velam (se abrem e se velam de novo) ao coração nos toques e abraços de amor que, por via do Outro, Deus mesmo parece nos dar.
-Unzuhause-
***

Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: kokoro.
Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência.
Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?
Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.
Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras.

A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima.

A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.

Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos- mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.

Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo. Sumimasem.

Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.

O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.

Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.

Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

Mãos em prece (gassho)


Monja Coen

Thursday, April 07, 2011

o Gita alquimista

Eu sou o dragão impregnado de veneno,
que está em toda parte e pode ser comprado por pouco dinheiro.
[O inconsciente: tóxico, ubíquo e "barato", desidealizado; o dragão como símbolo da serpens mercurialis, matéria-prima primordial, o "increatum" segundo Paracelso (itálicos by Unzuhause)]
Aquilo sobre o que repouso
e que repousa sobre mim
será encontrado em mim
por aquele que fizer sua investigação
segundo as regras da arte.
[a arte e o método do auto-alquimista, artista da produção de seu "ser próprio", na tarefa de buscar o ouro filosófico, a iluminação, ou, segundo Jung, individuação]
Minha água e fogo
[passividade e atividade, feminino e masculino]
destroém e reúnem;
[o inconsciente para-consistente, como diria o Newton da Costa, dra. Lou-à-Lacan?]
do meu corpo
extrairás
o leão verde
["O íntimo de cada um", para Samael Aun Weor; é associado frequentemente ao sal, substância e símbolo de grande valia na alquimia e na religião: "sois o sal da Terra"]
e o vermelho
[para Aun Weor, o leão vermelho é o ouro potável, que é a Kundalini, que é o fogo do sêmen; "Há que se separar o Leão Vermelho de todo tipo de refugo"].
Mas se não tiveres
um conhecimento exato de mim,
teus cinco sentidos
serão destruídos em meu fogo.
[decifra-me ou te devoro, diz a esfinge a Édipo; o inconsciente que é via de salvação e de ruína, da loucura e do gênio]
Minhas narinas exalam um veneno
que se expande cada vez mais
e que já causou a morte de muitos.
[conta-se de fato que muitos alquimistas perdiam a vida por erros ou imprevistos em suas investigações]
Por isso deves separar com arte o grosseiro do fino
[arte para sutis],
se não quiseres conhecer a mais extrema pobreza.
[a desgraça material e espiritual que nos ameaça por culpa nossa, de não fazermos jus ao nosso "ser próprio", expressão do Zaratustra de Nietzsche]
Eu te faço o dom
das forças do masculino e do feminino
[androginia do Homem Primordial, antes da secção-sexuação em duas metades!]
e também as do céu e da terra.
[se queres que a árvore de tua personalidade se erga até o céu, então lhe permita deitar raiz no mais profundo e escuro submundo também]
Os mistérios de minha arte
devem ser manejados
com coragem e grandeza de espírito,
[a virtude do pesquisador de si mesmo]
se quiseres superar-me pela força do fogo,
["farás obras como as que faço e até maiores"; o discípulo verdadeiro de Buda é quem chega a poder pisotear a imagem do Buda]
pois muitos já causaram danos a seus bens e trabalho por essa falta.
Sou o ovo da natureza,
que só os sábios conhecem;
eles criam a partir de mim,
piedosa e humildemente,
["evitam qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido" -Ben Jor, música "Os Alquimistas Estão Chegando"]
o microcosmo,
preparado por Deus
para o homem,
por Deus, o Altíssimo.
["façamo-lo à nossa imagem e semelhança"]
A maioria aspira em vão,
pois a pouquíssimos é dado:
[muitos são os chamados, poucos os escolhidos]
que os afortunados façam bem aos pobres
com meu tesouro
e não prendam sua alma ao ouro perecível.
[superação do ranço cobiçoso, ganancioso do pudim do pudê]
Os filósofos
[por Deus, não evoquemos e judiemos em vão este santo nome!]
me designam pelo nome de Mercurius
 [o Hermes grego, arquétipo do Selbst, para Jung];
meu esposo é o 'ouro filosófico';
eu sou o velho dragão
que pode ser encontrado no mundo inteiro:
pai e mãe,
jovem e ancião,
muito forte e fraco,
morte e ressurreição,
visível e invisível,
duro e mole;
desço à terra e subo ao céu.
Sou o mais alto
e o mais baixo,
o mais leve
e o mais pesado
[de novo, a lógica paradoxal de tudo que é da ordem do insconsciente e do arquetípico!]; frequentemente, a ordem da natureza
se inverte em mim
[a opus é contra naturam] 
no que se refere
à cor, medida, ao peso e número;
contenho a luz da natureza
[a fonte de iluminação que emerge diretamente, aleticamente, do Ser, e não das correspondências e coerências lógicas dos discursos humanos];
sou escuro e claro,
provenho do céu e da terra;
sou conhecido
e ao mesmo tempo
não tenho existência alguma
[ex-sistir, subsistir como ente fora-de-si, modo decaído e sub-lunar do Ser, que por sua vez tudo move e é imóvel, assim como tudo faz ex-sistir sem ser Ele próprio um ex-sistente];
graças aos raios do sol,
[Deus-Sol, símbolo da consciência]
todas as cores e metais
brilham em mim.
Sou o carbúnculo do sol,
a terra pura e mais nobre
[o nobre, odiado tanto pelos maus quanto pelos "bons", segundo Zaratustra]
através da qual
podes transformar
cobre
ferro,
estanho
e chumbo
em ouro".

Aurelia occulta, in: Theatrum Chemicum (1613)
apud JUNG, C. G.,

"O Espírito Mercurius"

"perils of the soul"


Dormi tenso
Acordei pesado
Vi minha Anima fora do nosso campo de magia
ou do lado de lá da janela

de minha solitária
-solitária no sentido de presídio-

quimera

Vi-a despojada de suas vestes sacerdotais
mas nem por isso (que pena!) como seria
poeticamente nua

-é possível ainda fruir de poesia e nudez?-

mas sim com as roupas prosaicas

que a vida prosaica nos exige
foi um choque

me senti fraco
me senti feio, do Um ao mais-um

de "auto-estima" a pior possível
me corroendo por dentro
em ciúmes de Bentinho
de um Outro que nem precisava lá estar

Outro de mim

A regra da Pai

o corte do laço

coração aos pedaços

os mantras com Rosário

em rêveries solitaires de Rousseau

em impotências de atuar o desejo

me angustia

o tudo-de-novo

a rejeição, o medo, o julgamento

a porta fechada

o calabouço calado

o fim do passeio

a cama de espinhos

de garoto excepcional

foi estranho
mas que ajude

em nossas metas

que abra alas

à Verdade

alada

alética

se algo ainda

de minha fome

me fugir

em ti

perdona-me

atualmente eterna dona de mim

protagonista de meu mito

que eu tire você

e o mito pra dançar

como pedia o Artaud

pra que o mito não seja mais

meio de martirizar
e sim

passarela do desejo

tempo propício do ensejo

pra minha língua

sorver o Real

e pedir mais..

 
-Unzuhause-

Wednesday, April 06, 2011

o Rousseau da Revolução Russa



"Para nos melhorarmos, para caminharmos em direção àquele objetivo, aquela perfeição, que não exige menos de nós por ser inatingível, são necessários a solidão, o afastamento das preocupações com o dia-a-dia. No entanto, a solidão constante torna o aprimoramento de nós mesmos impossível, quando não destituído de sentido. Um equilíbrio tem de ser encontrado entre a meditação em solidão e sua aplicação na vida cotidiana"
TOLSTÓI
Calendário da Sabedoria, 06 de Abril
***

Não me saem da mente, ainda que de forma desorganizada, larvar, sensações que provêm do filme "A Última Estação", sobre Tolstói. Ainda mais fortes à luz do pensamento de hoje de nosso Calendário da Sabedoria do russo, sobre a importância do equilíbrio entre solidão e convivência.  
Eu amo a biografia de Tolstói, sobretudo sua guinada religiosa que antecipa o pacifismo revolucionário de Gandhi, revitaliza o senso rousseauniano do retorno à natureza (à nossa humana natureza, inclusive), desmascara a farsa dos carneiros de preto que se diziam representantes de Cristo na Terra (Igreja ortodoxa) e profetiza, com seus ideais igualitários, a abolição das estruturas carcomidas da Rússia czarista pré-1917.
O filme mostra porém o tolstoísmo como um novo movimento religioso em si, portanto em risco de decair nos velhos vícios dos carneiros de preto: poder, cartilhas morais, egoísmo, dicotomias estúpidas que arrogam e obsedam os hominhos megalomaníacos, idólatras de um pseudo-Prometeu forjado egoicamente, levando-os a roubar o que deveria, sob risco de "inflação" (Jung), permanecer sempre como dom e prerrogativa de Zeus, portanto enigma e transcendência.
Nos tornamos quase sempre, quando dispomos de alguma aparência de "pudê", uns imperadores auto-fantasiados que com seu cabeção tolo querem tapar, como na lenda, o Sol de Diógenes, o mestre cético que andava com uma lanterna acesa em plena luz do dia tentando encontrar enfim um homem de verdade.
O retrato do tolstoísmo em A Última Estação nos alerta para a patologia recorrente em toda fé que troca o carisma pelo poder, como diria o "tolstoísta" Leonardo Boff. Mas também encanta pelas cenas em que jovens, intelectuais ou não, pegam no batente no campo, assim como pelo choro genuíno do povão quando do anúncio da morte de Tolstói, o libertador, prefigurador de Lênins, Rosas e Trotskys, o herói que renunciou às comodidades de conde e literato, o santo separado e descontaminado  das frescuras, conversas fiadas e desmunhecagens dos niilistas de cátedra (como Merquior chamou nosso Foucault).
A figura da esposa de Tolstói me comoveu também. Não a princípio, pois me soava a egoísmo e materialismo sua postura de rechaço à faceta profeta do marido, e interesse de conservar os direitos econômicos da obra dele para a família. O "movimento" pressionava Tolstói a abrir mão destes direitos em prol do interesse público.
Mas ao final me ficou a imagem de uma mulher autêntica, apaixonada, fiel, a que Tolstói não pôde fazer jus, convertido que fora, pelos crentes idiotas ao seu redor, em ícone caricatural de si mesmo - a ponto do seu "número 2" parecer gostar da idéia de que, ao invés de ser curado,  o mestre morresse a bela morte de um novo mártir.
Paradoxos! A vida é feita de paradoxos e pede conjugação dos opostos, acolhimento à dúvida, amor fati inclusive pela Sombra de tudo que é luminoso no Real.
A fé tostoísta é uma agenda urgente para hoje, a nos ensinar por seus méritos espirituais, sociais e ecológicos, e a nos chamar ao discernimento dos seus excessos e distorções, reveladas com sensibilidade e sem maniqueísmos em "A Última Estação".
A propósito, na frase de Cristo "A casa do meu Pai tem muitas moradas" (Jo 14, 2), a palavra grega que se traduz como "moradas" significa, literalmente, "estações ao longo do caminho".
Assim sendo, a "última estação" de Tostói pode simbolizar a última estação de todos nós, no caminho da evolução espiritual e terrenal (Espírito e História, fé e política sempre estão de braços dados), quando até mesmo solidão e separação, familismo e amor pela humanidade, o bem e o mal, enquanto hipóstases rígidas e doutrinais, devem ficar para trás, absorvidos num mesmo e único Amor (a esposa aceita no leito de morte do herói sugere ao menos um princípio de resgate disto).Quando deus e o diabo são, ambos, tentações derrotadas que agora só atrapalhariam o devido, complexo de tão simples, e integral mergulho final no Abismo.
-Unzuhause-

Tuesday, April 05, 2011

preciso de volta do mar, olhos nos olhos do mar

vertigem de sentir a verdade -pra fora dos escombros do clichê sentencial- de que a gente passa e as obras ficam: nunca ouvi como hoje essa delícia de música do 14 Bis (aliás o que não é bom nesses caras, hein?).. nunca me falou de um imperativo tão premente! desde sempre eu ouvi as canções de amor como convites ao autoconhecimento (e portanto conhecimento do absoluto). hoje, ouço o autoconhecimento como convite a uma canção de amor.. 
-Unzuhause-

Monday, April 04, 2011

germanística da alma (1) - no devir do Geist com Zaratustra

Nietzsche e as três metamorfoses do espírito, em Assim Falou Zaratustra: o camelo, o leão e a criança

Höher als 'du sollst' steht 'ich will' (die Heroen): höher als 'ich will' steht 'ich bin' (die Götter der Griechen)

 'Eu quero' (os heróis) está acima de 'Tu deves'; 'Eu sou' (os deuses dos gregos) está acima de 'Eu quero'

-F. NIETZSCHE-

Sunday, April 03, 2011

Heil, Re-nascimento



Encontro no banheiro dois frascos de opti-free (soro de lentes); estão com a tampa aberta, para o alto; parecem dois hominhos tirando o chapéu em saudação recíproca. Aos quarenta e oito do segundo tempo de mais um fim-de-semana de sísifo -essas 48 horas que arrasto sôfrego pelo apito final- posso dizer que a cena dos soros é o que de mais fraterno encontrei, no período, entre os viventes da urbe, perto dos quais me sinto alma penada, apenada e sem nenhuma pena de mim. Mas o fim-de-semana em si, eu vim, vi e venci! Ao menos na extensão de práticas interessantes. Aula de alemão, minha verdadeira "língua natal"; "A Última Estação", filme sobre os dias finais de Tolstói, convertido da literatura à santidade ecológica e social, santo para tempos pós-niilistas, o Rousseau da Revolução Russa; "Vips", novo filme de Wagner Moura, que me fez lembrar o quão difícil, mais difícil do que conquistar e realizar um grande papel na Arte, é depois ter de "desencarnar" dele o suficiente pra aceitar que a vida segue e novos papéis devem chegar. Talvez não tão espetaculares quanto o "capitão Nascimento" para o qual um dia nos demos à luz.. mas não só de dias brilhantes se faz a centelha que no fundo de nós mesmos, ela sim, deve brilhar e nascer e renascer sempre mais. Wagner venceu a primeira batalha consigo mesmo, embora seja impossível não re-ver, aqui e ali, em seu novo personagem, a genial criação anterior, aliás homenageada na última cena do filme; que vençamos também essa dura tarefa de não nos limitarmos a atores de um papel só. Enquanto isso, no Monastério, mamãe -meu ícone vivo de Mãe Maria- abre caminho pra minha idade adulta (buááá), muro de berlim tá caindo, coringão só empatou, televisão da sala pifou.
-Unzuhause-

Saturday, April 02, 2011

sopro no muro

Transporte público em São Paulo pode não ser apenas a opressão-síntese de pesadelos urbanos. Pode também abrir brechas para o (re)encontro do humano nos homens. Ontem tive essa experiência. Estava no metrô, à noite, nenhum livro a tiracolo -pois o dia, graças a Deus, fora já intenso o bastante pra me convidar ao singelo exercício de apenas pensar, sem ler, sem ver, sem linhas nem coordenadas. Porém nossas "situações", como diria o Sartre, costumam nos obrigar a "ver", a medir, a encaixar significados nos devidos lugares. A situação que se precipita sobre nós de fora, ou as "situações" já acumuladas e sedimentadas em nós na forma de preconceitos e medos. Uma situação, neste sentido, interna e externa, é minha má impressão sobre como as pessoas se vestem e lidam com seus corpos hoje em dia. Sem querer generalizar, o que "vejo" nessa esfera é muita banalização do sagrado Eros. É muita imoralidade, eu diria, se essa palavra puder não ser confundida com o moralismo velho e neurótico. Quanto a mim, sempre fui mais amigo das amplas mundivisões psicóticas do que da estreiteza triste das histerias e obsessões.Por isso sempre amei mais os personagens e fábulas teóricas de Jung do que as de Freud..
Bom, retomando o fio, estava no metrô, e três meninas, muito jovens mesmo, na faixa de uns 15, 17 anos, se tanto, entram de repente, na enxurrada dos corpos noturnos da estação São Joaquim (horário de saída de faculdades). O amontoamento físico por si só me causa desconforto e náusea, ao desfigurar  e desrespeitar (como os barulhos insuportáveis de uma vizinhança em reformas) o princípio da individualidade do outro e nossa, fundamental a que conquistemos o direito concreto de sermos humanos, não meros bípedes racionais.
Mais chocante ainda pra mim foi acompanhar, de relance, a interação das três garotas, que pararam de pé bem em frente a mim. Estética da prostituição que, como a estética do skate, ou outras modinhas "marginais" quaisquer, parece estar invadindo pra valer os lares de nossa classe média e fazendo a cabeça e despindo os corpos de nossas mulheres. Destaco as mulheres porque naturalmente tendo a ver nelas mais beleza, delicadeza e virtude moral; da maioria dos caras, que hoje elas tanto tentam imitar, não costumo esperar mesmo grande coisa em termos de elevação espiritual e afetiva. Não por acaso elas estão se "pegando" tanto entre si, lesbianismo de quinta, sem alma, para mimetizar e se dar ao consumo do olhar masculino. Uma delas dizia ter beijado umas "300 pessoas" só ontem, talvez uma força de expressão como a dos "300 picaretas do Congresso" segundo o querido presidente Lula. Mas num caso como no outro, o exagero parece estranhamente "rente" à realidade dos fatos. Só entre duas das amigas, devem ter rolado uns três beijinhos durante aqueles minutos. Trajes sumários, vocabulário idem. Homens barbados com sorriso voluptuoso de pedreiro acompanhando tudo. Eu triste. Mas vou pular direto pro momento da surpresa. Com o metrô já mais vazio, uma delas pôde se sentar ao meu lado no banco. Não que a conversa e as atitudes tenham por isso mudado de nível, num primeiro momento. Mas a doçura da menina em questão se insinuou adiante, na forma de me perguntar, sobre se estávamos na estação Sé. Me chamando de "amigo", não do jeito banal que a gente usa no dia-a-dia ao chamar o padeiro, o porteiro do estacionamento, o frentista do posto de gasolina, de "amigo". Não, percebi (não sei se com meu natural "adoçante" psíquico) mais afeto do que isto. Impressão que se confirmou pouco depois, quando ela reclinou, "do nada", sua cabeça no meu ombro. Sem intenções libertinas, me pareceu. "Te incomodo?" Disse que não, claro, mas procurando evitar que meu tom de voz transmitisse apetites de Lobo Mau diante da Chapeuzinho Vermelho. Continuei tentando mais pensar do que "ver", estação após estação. Ela tirou a cabeça mas logo a reclinou de volta. As outras duas amigas até a pediam pra parar com isso, pediam desculpas pra mim. Nenhum problema. Ao contrário, o único problema, o bom problema, era sentir que minha muralha de preconceitos translúcidos com que a gente julga "ver" e andar vieram abaixo ao doce sopro do afeto. No fim, pedi apenas que as três tomassem cuidado com o que fossem fazer aquela noite (balada à vista). Uma delas, a mais bonitinha, mas de um shortinho que não podia ser tão curto (lá vou eu de volta ao "ver" sem contemplar), chegou até a me perguntar: "Você é judeu?... Não? Ah, porque parece". O judeu que me ocorreu à mente do coração, não eu, mas em mim, não por meu mérito, mas por graça, foi o Homem de Nazaré. Aquele que comia e conversava com as prostitutas, sem sermão, e sim compaixão.
-Unzuhause-

Friday, April 01, 2011

solidão, sólido grande

"Solidão" de Marc Chagall

Manhãzinha de sexta. Dia triste ao prenunciar o fechamento que logo virá das bibliotecas e a submersão do corpo e da alma em mais um par de "dias-abismos" de homem do buraco branco (como diria o Juliano) que são pra mim o sábado e o domingo, enquanto dias oficiais do instituído mesquinho, do prático-inerte, do lazer sem graça.
Dor homeopática e circular que sinto se acirrar em períodos de férias e feriados, porque então o relaxamento se amplia, se con-solida e se consagra no ethos coletivo e nos "horários especiais" das bibliotecas, no esvaziamento das faculdades e lotação das estradas, parece que todos estão partindo e me deixam pra trás, me sinto sozinho de uma solidão ruim, perco assim  o oxigênio (emocional) da reflexão pura, a qual não me ocorre como luxo, mas necessidade e fragilidade visceral de quem se sente morrendo quando afastado das altitudes e atitudes do Espírito.
Falando em solidão boa e em solidão ruim, colho e compartilho a seguir uma belíssima passagem do existencialista francês Gabriel Marcel sobre a grandeza dos filósofos.
Claro que não bastam citações quando a solidão ruim vem me sugar e devorar, me rare-fazer e desidratar todas as imagens. Ainda sim, são palavras boas de se ouvir a poucos passos do eterno retorno (de cada fim-de-semana) ao buraco branco. Encorajam que eu não abra mão, nessa travessia ameaçada pelo estático, da fidelidade a minha própria "solidão", poetada tão bem por Guimarães Rosa (ô tristeza irresistível de amar as citações): solidão que é sólido grande, talvez a pedra no caminho, sim, mas que em dias melhores eu por mim poetizo não em metros ou quilos mas em intensidade e em concentração; sólido da pedra filosofal que se engendra nas retortas alquímicas do "cor-po-pensamento" que rasga, que sangra, que salva.
-Unzuhause-
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"A imperecível glória de um Kierkegaard ou de um Nietzsche consiste, talvez, principalmente nisto, em terem provado, não só por seus argumentos, mas por seus julgamentos e suas próprias vidas, que um filósofo digno desse nome não pode ser homem de congressos, e que se desvia de seu caminho cada vez que permite ser afastado da solidão, que é sua finalidade".


GABRIEL MARCEL
The Philosophy of Existencialism