sábado, janeiro 28, 2012

desmame dos sonhos e desamparo cria-dor

Li (veja a seguir) uma explicação cosmológica (mítica, em verdade) no mínimo consoladora sobre esse estado de desamparo  que o homem vem cavando para si mesmo, seja pelo heroísmo de quem despertou das ilusões, ou pela covardia de quem já não tem olhos senão para o próprio umbigo.
Biograficamente o mito me ressoa como o fardo de me ver em completo desamparo ante as forças formativas e protetoras de outrora. Necessitado de auto-gestão, de remuneração produtiva, de caminhar pelas próprias pernas e pagando as próprias contas. Como num filme que vi ontem, "Cyrus", é complicado para "o menino magnífico da mamãe" -estágio matriarcal do Eu Ideal, segundo Lacan- aceitar a cesura e o sangramento imposto pelos testes da Morte, da Lei, do Tempo, da troca entre homens, no estágio doravante patriarcal do Ideal do Eu e da lógica do falo, da fala e da falta.
Uma analista que conheci estes dias me sentenciou: ou  Análise (com ela, e a preços que hoje não poderia nem gostaria de pagar) ou a Repetição -por preços aparentemente menores, mas só aparentemente, dado o custo vital de conservar uma mentira. "Fora da análise não há salvação", como antes se diria que fora da Igreja não há salvação. Aliás, me lembro que, após um ano fantástico de crisma, recaí na velha cisma (encucação), e precisei de mais um cisma (ruptura), por me cansar do grupo de jovens da Igreja, sem o mesmo charme do ano anterior; e eu precisava focar no "mundo lá fora", isto é, vestibular, inclusive desimpedindo a mente para o estudo laico e crítico da realidade. Escutei de um deles, ao telefone, também sentença parecida: era um grave erro me afastar do jovem rebanho fiel, aquilo não podia dar certo..
O mito a seguir me vem ao encontro falando de impasses de sempre -desde que percebi o destino inevitável do desmame dos sonhos-, mas também desse desamparo novo, que a velhice de idade impõe como leito e limite às delícias de me repetir sem paraísos simulados a qualquer preço nem estação consolação para este sujo superlotado metrô suando em círculos lentos no âmago do inferno.
-Unzuhause-

"O homem está em formação, mas doravante tem que formar a si mesmo. A Natureza o trouxe do barro primitivo até o ponto em que está. Deu-lhe membros, um cérebro, rudimentos de uma alma. Cabe agora a ele fazer ou desfazer esse esplêndido torso. Que não a chame mais para ajudá-lo, pois a vontade dela é criar alguém que seja capaz de criar a si mesmo".


Goldsworthy Lowes Dickinson (1862-1932)

quarta-feira, janeiro 25, 2012

caindo do cavalo com São Paulo


"Cair do cavalo", a expressão popular, remonta ao célebre episódio bíblico da conversão de São Paulo, celebrado neste 25 de janeiro, dia também do aniversário da metrópole que leva seu nome mas não tem nada de sua "santidade" (nenhum santo aliás é santinho, senão seria papelzim de reza e estátua de gesso, não homens), talvez porém muito de seu tormento e dinâmica de alma genial. Colhido pela aparição fulgurante do Senhor, o então Saulo cavalgava a caminho da cidade de Damasco para prosseguir sua caçada aos cristãos.  A luz que o lança às trevas da cegueira temporária marca a reviravolta da identidade. Do feroz perseguidor ao "apóstolo dos gentios", talvez abaixo só de Cristo em importância para a história da religião que mudou a face do mundo.  A senda da conversão foi de terror e piedade -atributos de toda tragédia, só que aqui vividos na carne, não apenas assistidos em teatro, e que teve resultado feliz, tradicionalmente associado à definição de comédia, não à tragédia. Por isso, aliás, o nome de  "divina comédia" da obra-prima de Dante, também ele vítima e autor de uma profunda conversão (metanóia) existencial "no meio do caminho de nossa vida". Cair do cavalo é episódio inevitável na metade de nossa existência - lá pelos 35 anos de idade, segundo Jung, estudioso das metanóias espirituais dos gênios da cultura e dos mortais da clínica moderna. O próprio Jung passou por vivência assim, quando "caiu do cavalo" das antigas crenças e compromissos com a psicanálise de Freud, com a psicopatologia racionalista, com as psicopatologias da razão. A "metade da vida" (como se eu soubesse a soma total da qual esta seria a metade) está chegando para mim. Transformações também. Uma delas é parar com as "cartas inúteis" (vide texto abaixo). Outra, a recusa de continuar um  "paciente" (substantivo da medicina e adjetivo bovino) sedado pelas medicações  de garantia de sobrevivência do "Mínimo Eu" (Christopher Lasch). Encarar de frente a perspectiva mortal, nessa doença irremissível que é estar vivo,  e fazer algo de belo com isto. Sem cacoetes e ritos de covardia. Peito aberto para a "chuva", respeitando-a e deixando a mente vazia para escoar as águas sem entupir nos detritos. Reconhecendo os amigos e companheiros de jornada, reconciliando-me com e sabendo bem dizer meu amor a meus mestres (Sem dependências infantis que o tempo implora para que sejam deixadas para trás, ou convertidos em poesia, como tudo o que não cabe nas nossas medidas do real.) Suportando a dimensão de solidão radical, sem denegá-la por vinculações imaginárias mas tampouco sem me furtar em me fazer oblação concreta a Deus e ao próximo, pois é no Outro (o divino, o cósmico e o inter-humano) que se pode desabrochar e desbrochar os tesões de um verdadeiro Eu  fadado à morte, e a suas "prévias", como as perdas, envelhecimentos. Sem garantias dogmáticas de qualquer vida depois da morte, pois "caí do cavalo" de toda garantia preguiçosa e medrosa de um final feliz. Mas ansiosamente interessado, e serenamente praticante, dos mistérios da vida antes da morte. 
-Unzuhause-

Para meditação da história  bíblica:
São Fulgêncio de Ruspe (467-532), bispo no Norte de África



Um sermão atribuído, nº 59; PL 65, 929


«Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu» (Act 9,3)

Saulo foi enviado pelo caminho de Damasco para se tornar cego, pois se ele cegou, foi para ver o verdadeiro Caminho (Jo 14,6). [...] Perdeu a vista do corpo, mas o seu coração foi iluminado para que a verdadeira luz brilhasse, quer aos olhos do seu coração, quer aos do corpo. [...] Foi enviado para dentro de si mesmo, para se procurar a si mesmo. Andava errante na sua própria companhia, viajante inconsciente, e não se encontrava porque interiormente tinha perdido o caminho.

Foi por isso que ouviu uma voz que lhe dizia [...]: «Desvia os teus passos do caminho de Saulo, para encontrares a fé de Paulo. Despe a túnica da tua cegueira e reveste-te das vestes do teu Salvador (Gl 3,27). [...] Eu quis manifestar na tua carne a cegueira do teu coração, para que pudesses ver o que não vias e não te parecesses com aqueles que 'têm olhos mas não vêem e ouvidos mas não ouvem' (Sl 115,5-6). Que Saulo se afaste deles com as suas cartas inúteis (Act 22,5), para que Paulo escreva as suas tão necessárias epístolas. Que Saulo, o cego, desapareça [...] para que Paulo se torne a luz dos crentes.» [...]

Paulo, quem te transformou assim? «Ele respondeu: Esse homem, que Se chama Jesus, fez lama, ungiu-me os olhos e disse-me: 'Vai à piscina de Siloé e lava-te.' Então eu fui, lavei-me e comecei a ver!» (Jo 9,11). Porquê esse espanto? Eis que Aquele que me criou me recriou; com o poder com que me criou, agora curou-me; eu tinha pecado mas Ele purificou-me».

Portanto, Paulo, vem, deixa o velho Saulo, em breve também verás Pedro. [...] Ananias, toca em Saulo e dá-nos Paulo; afasta para longe o perseguidor, envia em missão o pregador: os cordeiros já não terão medo, as ovelhas de Cristo viverão na alegria. Toca no lobo que perseguia Cristo, para que agora, com Pedro, ele leve a pastar as ovelhas.

sábado, janeiro 21, 2012

o sino da igrejinha



Festa de Umbanda



-Martinho da Vila-


O sino da Igrejinha

Faz belém blem blam
Deu meia-noite

O galo já cantou

Seu tranca rua

Que é dono da gira

Oi corre gira

Que ogum mandou

Tem pena dele

Benedito tenha dó

Ele é filho de Zambi

Ô São Benedito tenha dó

Tem pena dele Nanã

Tenha dó

Ele é filho de Zambi

Ô Zambi tenha dó

Foi numa tarde serena

Lá nas matas da Jurema

Que eu vi o caboclo bradar

Quiô

Quiô, quiô, quiô, quiera

Sua mata está em festa

Saravá seu seu sete flecha

Que ele é rei da floresta

Quiô

Quiô, quiô, quiô, quiera

Sua mata está em festa

Saravá seu mata virgem

Que ele é rei da floresta

Quiô

Quiô, quiô, quiô, quiera

Sua mata está em festa

Saravá seu cachoeira

Que ele é rei da floresta

Vestimenta de caboclo

É samambaia

É samambaia, é samambaia

Saia caboclo

Não me atrapalha

Saia do meio

Da samambaia

Hino de Umbanda



Deus Nosso Senhor Oxalá Jesus Cristo, permita que cada novo raiar do Sol, mesmo se for o último, seja pleno: em lágrima de gratidão, em sorriso de missão, em aceitação da específica unção,sem a vergonha que atrai rejeição, Senhor, de vida quero contaminação, da conversa a conversão, e contigo caminhar e te amar e te respeitar, como respeito a Chuva sem fobia, sem fo-bios, vida fóbica ou fobia de vida não tenha mais lugar não, Senhor resgata meu corpo do pesadelo de grilhão Senhor fica comigo, não me deixe nunca extraviar-me de tua linha de torta retidão, Senhor és mau com quem vai mal, Senhor és um com cada um, me dê de tua senda sem roteiro, Senhor eu amo o Senhor.
-Unzuhause-

quinta-feira, janeiro 19, 2012

esquisitos e esquizos -esquizoanálise de Deus e de eus




Não reparem na vinheta de rádio breguíssima que vem antes e depois do clipe do Raul. Aliás, nesse caso, o brega não deixa de reverenciar o genial na sua figuração em Raul, o magnífico de sua arte, popularíssima e ao mesmo tempo sofisticada (quem disse, aliás, que não há uma sofisticação própria ao popular, ao "povo", não como categoria de intelectual, mas vivência potencial mais ou menos expressa à flor da pele . Mais ou menos, e hoje menos, com a indústria cultural que entende e traduz por "demandas da nova classe C", nada mais que big brother e lixos congêneres, enquanto tantos pelés, rauls, pixinguinhas, carlitos e picassos podem estar enterrados e "sequestrados" sob a rotina pesada das ruas -e casas- da amargura. Isso é manter a auto-estima do povo no rés-do-chão ao mesmo tempo que lhe enfia goela adentro (pra não citar outros orifícios mais adequados ao nível da coisa) viagras e viagras de adulação do mau gosto. Falando com minha amada jaguncinha esta noite, me dei conta do quão eu mesmo sou elitista, medo de gente, medo do "povo", como se o homem fosse menos perverso, e o convívio com ele, menos penoso, nas classes mais elevadas -e classes no sentido escolar também: preciso escolher e ser escolhido para enfim me tornar de fato professor.
Como Rousseau, sou marcado por um amor à Humanidade tensionado por um mal-estar, um estar mal e no Mal,  entre os homens, e não nego essa contradição, e já não a racionalizo na forma de cartilhas ideológicas revolucionárias, que da boca pra fora pretendam salvar o mundo ou assaltar o céu, que é disso que se trata, nesse bicho estranho e arrogante que é o homem moderno. Também não gosto de bancar o santinho. Ser bom não é ser bonzinho. Esperança sim, mas não para nós (Kafka).
Prefiro assumir esta e outras cisões -desconfio, aliás, que entre as estruturas subjetivas a neurose é pouco para mim , daí o discreto charme de palavras como psicose e esquizofrenia (esquizo- cisão, frenos- mente), vide a exaltação de gente como Deleuze pela "esquizoanálise", que toma a condição esquizo como condição humana e para o humano por excelência. Esquisito? Sem dúvidas! Mas meu Deus é mais. Esquisito e esquizo, cindido entre Bem e Mal, entre Vida e Morte, graça e desgraça, como bem resume mestre Raul no tratado poético-teológico que é esta música "Gita", inspirada no "Bhagavad Gita", amada escritura sagrada dos indianos e baianos, gregos e troianos, de todo o tempo e além.
-Unzuhause-


Gita



-Raul Seixas-


- Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que Ele me falou:

Às vezes você me pergunta

Por que é que eu sou tão calado,
Não falo de amor quase nada,

Nem fico sorrindo ao teu lado.

Você pensa em mim toda hora.

Me come, me cospe, me deixa.

Talvez você não entenda,

Mas hoje eu vou lhe mostrar.


Eu sou a luz das estrelas;

Eu sou a cor do luar;

Eu sou as coisas da vida;

Eu sou o medo de amar.

Eu sou o medo do fraco;

A força da imaginação;

O blefe do jogador;

Eu sou!... Eu fui!... Eu vou!...


Gita! Gita! Gita!

Gita! Gita!



Eu sou o seu sacrifício;
A placa de contra-mão;

O sangue no olhar do vampiro

E as juras de maldição.
Eu sou a vela que acende;

Eu sou a luz que se apaga;

Eu sou a beira do abismo;

Eu sou o tudo e o nada.

Por que você me pergunta?

Perguntas não vão lhe mostrar

Que eu sou feito da terra,

Do fogo, da água e do ar!

Você me tem todo dia,

Mas não sabe se é bom ou ruim.

Mas saiba que eu estou em você,

Mas você não está em mim.



Das telhas eu sou o telhado;

A pesca do pescador;

A letra "A" tem meu nome;

Dos sonhos eu sou o amor.



Eu sou a dona de casa
Nos pegue pagues do mundo;

Eu sou a mão do carrasco;

Sou raso, largo, profundo.


Gita! Gita! Gita!

Gita! Gita!


Eu sou a mosca da sopa

E o dente do tubarão;

Eu sou os olhos do cego

E a cegueira da visão.



Eu!

Mas eu sou o amargo da língua,

A mãe, o pai e o avô;

O filho que ainda não veio;

O início, o fim e o meio.

O início, o fim e o meio.

Eu sou o início,

O fim e o meio.

Eu sou o início

O fim e o meio.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

a névoa e o Sol


"(...) a intensidade das impressões amplia-se com a lembrança de si, e, do mesmo modo, também podem ser fortalecidas pela essência [conceito que Gurdjieff contrapõe ao de "personalidade", ou seja, respectivamente, nosso Eu inato e nossas máscaras e automatismos comportamentais], se as recebemos com faz uma criança. Neste momento, estou olhando para a estante de livros à minha frente e recebo impressões vívidas de cores brilhantes que vêm das lombadas dos livros, sobretudo de uma sobrecapa azul-vivo. Imediatamente, porém, o pensamento associativo começa a funcionar em minha mente em relação a esse livro em particular -o nome do editor, certas lembranças de um dos diretores da firma-, uma dúzia de outros pensamentos vulgares e fúteis captam a minha atenção e zás! as cores brilhantes de minha biblioteca desvaneceram-se e sumiram completamente. Agora, vejo tudo não como uma criancinha faria, mas como um adulto esfalfado, 'empalidecido pelo tom desbotado do pensamento', está condenado a ver. É como se uma névoa londrina tivesse invadido meu quarto, despojando todas as coisas de seu frescor".
KENNETH WALKER
Os Ensinamentos de Gurdjieff

Vi por esses dias um filme chamado, no Brasil, de "Sem Limites", direção de Neil Burger , com Bradley Cooper e Robert De Niro. 
 O protagonista (Cooper) é um escritor encalhado na falta de criatividade e de amor. A situação muda quando apresentado a uma droga mágica por um traficante, irmão de sua ex-esposa linda, forte e impaciente para losers como nosso herói, daí o pé na bunda que tomou dela. A droga, tão poderosa quanto perigosa, vai colocá-lo em grandes enrascadas, mas também impulsionar o despertar de um verdadeiro gênio, usar 100 por cento (e não os proverbiais cinco) de sua capacidade mental, capaz de todos os cálculos e raciocínios, o que o faz considerar pouco pra ele a pretensão de literatura, trocada por outra bem mais "lucrativa", a dos business, em velocíssima escalada, na batida das sinapses aceleradas, do sucesso na forma de enriquecimento, prestígio e sexo, culminando em poder político. As boas atuações, o roteiro tenso e envolvente se somam, para cativar o espectador, ao jogo visual de toda a narrativa entre cenários e objetos de cores frias e quentes, névoa e Sol -espelho objetivo das alternâncias abruptas de euforia e melancolia do personagem, montanha-russa típíca da paisagem anímica dos viciados.
O filme passa longe de qualquer bom-mocismo de uma "moral da história" contra as drogas, sem tampouco merecer demonização dos puritanos como uma apologia delas: é suficientemente simbólico para mostrar que o próprio desejo de drogas, hoje como nos tempos psicodélicos, embute um anseio mais profundo, também presente em outras drogas, como o amor - aliás assisti no sábado a "Amor e Outras Drogas", com a deslumbrante e ali, também, comovente Anne Hathaway, em madeixas cacheadas que, sem serem minhas favoritas, mesmo assim ficam espetacularmente belas como moldura de seu olhar profundo, rosto de anjo e lábios carnudos; ah sim, o filme, este sim, de denúncia ostensiva da indústria das drogas (legais, as das grandes empresas farmacêuticas em conluio com médicos gananciosos, pouco se lixando para a saúde propriamente dita de seus pacientes, ou o que dá no mesmo, fazendo dela uma questão de mercadoria).


Mas dizia do desejo simbólico implícito às drogas:  desejo de fusão, transcendência, conjunção dos opostos e pertencimento a algo ou Alguém mais elevado; desejo de alforria das misérias cotidianas, de despertar as camadas profundas de nosso psiquismo, adormecido pelas rotinas e percepções embotadas. Desejo de essência, mais que personalidade: de Self, mais que de persona, nos termos de mestre Jung. Desejo, em suma, de "unus mundus", destrancada a pequena e maciça caixa subjetiva, janelas reabertas para o mundo, vivência de mais sentido, mais sentidos, e mais intensidade, honrando o desígnio arquetípico por que vivemos, respiramos e temos nosso ser. Para além da névoa, acarinhados pelos raios do Sol.
-Unzuhause-

Tim Maia - O Caminho do Bem




O Caminho do Bem



Tim Maia


O caminho do bem (3x)

Já iniciou

Está acontecendo

Fase racional

Não estou sabendo

O caminho do bem (leia logo, saiba logo)
O caminho do bem (está na hora, é agora)
O caminho do bem (acredite, não duvide)
O caminho do bem

O caminho do bem é um só caminho
O caminho do bem é para todos
O caminho do bem é racional

O caminho do bem (4x)
Pode aguardar

Que o mundo inteiro

Logo saberá

No Brasil primeiro

O caminho do bem (leia logo, saiba logo)

O caminho do bem (está na hora, é agora)

O caminho do bem (acredite, não duvide)

O caminho do bem

Vida modesta e fecunda

Amor de um doce paraíso

Reino prepotencial racional

Aonde viver sempre o bem, e não o mal

Leia logo, saiba logo

Está na hora, é agora

Acredite, não duvide

Do que já aconteceu

Já aconteceu

Está acontecendo

Fase racional

Não estou sabendo

O caminho do bem (leia logo, saiba logo)

O caminho do bem (está na hora, é agora)

O caminho do bem (acredite, não duvide)

O caminho do bem

Numa natureza onde não existe regulagem, não pode existir o bem

O bem só pode ser encontrado na imunização racional

O caminho do bem (4x)

Pode aguardar
Que o mundo inteiro

Logo saberá

No Brasil primeiro

O caminho do bem (2x)

terça-feira, janeiro 10, 2012

Om Namo Bhagavate Vasudevaya




Om namo bhagavate vaasudevaya means "oh supreme lord, (krishna, vishnu) my humble obediences unto you". "ram sita ram" refers to ramayana, lord rama, the 7th avatar/incarnation of vishnu (god) and sita is an incarnation of lakshmi, lord vishnus companion, and they were married. These are both mantras to supreme lord creator of the universe.

Outra explicação:

OM NAMO BHAGAVATE VASUDEVAYA (do sânscrito): é um dos mantras de evocação de Krishna. OM é a vibração interdimensional que interpenetra a tudo e a todos.

NAMO: Saudação ou reverência ao poder divino.

BHAGAVATE: Respeito ao Senhor.

VASUDEVAYA: Vasudeva é o nome da família carnal que criou Krishna. O Ya acrescentado no final significa a característica ativa (masculina) do mantra. Quando alguém faz esse mantra completo, evoca Krishna como homem que também viveu aqui na Terra e sabe das dificuldades enfrentadas por todos.

"estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem" (R. Russo)

Quatro estados básicos de consciência, segundo Ouspensky, discípulo de Gurdjieff:

1) O sono na cama à noite
2) O "sono desperto" em que nos arrastamos vida afora, dia após dia, dispersos de nós mesmos, num emaranhado de ilusões e condicionamentos mecânicos. Como que uma máquina no nosso lugar vivendo a vida por nós, e apelidada muitas vezes de "eu": um robô que lê por nós, opina, trabalha, fala, briga, ama, trepa, escova os dentes come anda pára e se deita por nós. Só por alguns instantes fortuitos nos tornamos conscientes de nossa existência, e então voltamos para nossos sonhos, como a pessoa que se revira em sua cama, abre os olhos e volta a dormir.O inconsciente linguístico-social de Lacan é uma excelente teoria desta escravidão e deste sem-sentido.Os outros dois estados dependeriam de circustâncias excepcionais ou um grau raro de desenvolvimento mental:

3) "Lembrança de si" ou consciência de si verdadeira: sensação vívida do que está ocorrendo ao redor do homem; nos ocorre acidentalmente, sobretudo na infância. O homem pode aqui ver-se a si mesmo objetivamente, como realmente é. É um estado de conhecimento de si, uma sensação de estar presente, de pensar, perceber, sentir e mover-se com certo grau de controle e não apenas habitualmente. As "danças sagradas" de inspiração oriental eram para Gurdjieff uma das técnicas principais de estimulação deste despertar fisiopsíquicoespiritual.

4) Consciência Objetiva, ou Consciência Cósmica, que na literatura sobre os santos é descrita como processo de "iluminação", na qual a consciência clarividente sobre si mesma, atingida no estágio anterior, é estendida a nossa relação com todas as coisas. Cessam as grades, abriu-se a jaula, escuto vejo toco sem intermediação, sou um com o mundo. 
-Unzuhause-

segunda-feira, janeiro 09, 2012

hilário




Talentosíssima atriz, texto brilhante, com uma inteligência rara no humor de hoje, e com uma característica essencial de toda comédia profunda - ser também tragédia, de outra perspectiva. A mim me toca em especial pelo efeito de estranhamento que gera para com as palavras vazias de certa espiritualidade de fachada, para com nossas tentativas ridículas de afetar "equilíbrio" e sabedoria à base de narcose mental, domesticação coreográfica do corpo e outros clichês de defesa contra o cotidiano brutal.

-Unzuhause-

sábado, janeiro 07, 2012

Jim Carrey, o true man



Eu adorava Carrey por seu talento, simpatia e arte, especialmente filmes como "Show de Truman" e "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança". Vendo este depoimento, descubro um irmão de alma, na senda que eu tanto quero merecer trilhar com êxito, a do autoconhecimento e ruptura com a vida condicionada, alienada, desperdiçada. Transcendendo o ego robótico, a máquina de estímulo-resposta, a carcaça adiada que anda pra lá e pra cá dia após dia fazendo achando as mesmas coisas o mesmo nada a mesma fadiga o mesmo desânimo. Perdendo a vida por entre os dedos, insistindo em pseudo-soluções e desesperadamente prisioneiro do que me conforta,  nesse cinzento pesado de corpo e de alma. Carrey parece levar para a vida, em termos que remetem ao método de Gurdjieff, o drama tão magnificamente alegorizado por seu personagem Truman: como sair da caverna pútrida da vida de fachada, controlada, previsível, e como fazer jus à verdadeira potencialidade perceptual e prática desta rara , frágil e preciosa encarnação humana que nos foi dado experenciar.
-Unzuhause-

sexta-feira, janeiro 06, 2012

semidespertos

William James (1842-1910)

"Todos estão familiarizados com o fenômeno de se sentirem mais ou menos animados em dias diferentes. Todos sabemos que, em certos dias, há em nós energias adormecidas, que as excitações desse dia não solicitam, mas que podiam se manifestar, se tais excitações fossem mais intensas. A maior parte de nós sente como se uma nuvem pesasse sobre a sua cabeça mantendo-nos abaixo dos nossos melhores momentos de clareza de discernimento, de segurança de raciocínio, ou de firmeza de decisão. Comparados ao que deveríamos ser, estamos apenas semidespertos. O nosso entusiasmo está amortecido, os nossos projetos arruinados. Estamos utilizando apenas uma pequena parte dos nossos recursos físicos e mentais disponíveis. Em alguns , essa sensação de estar desligado dos seus recursos naturais é extrema, e chegamos então às terríveis condições psicastênicas (1) e neurastênicas (2), com a vida se transformando num tecido de impossibilidades..."

WILLIAM JAMES
 
(1) Fraqueza intelectual; psicose causada por fases de medo e ansiedade, obsessões, ideias fixas, tiques, auto-acusação, convergência de emoção e depressão.
Forma de psicose com fases de medo, ansiedade, sensação de incapacidade e perda da personalidade, fraqueza intelectual e tendência mórbida para dúvidas e hesitações. A psicastenia é uma afecção mental muito difundida que se caracteriza por uma redução na tensão psicológica e cujos principais sintomas são a depressão física e moral, um sentimento de falta de alguma coisa e perda do sentido da realidade, com uma tendência patente às obsessões, às manias e aos fenômenos ansiosos. A denominação de psicastenia foi dada por Pierre Janet a um conjunto de fenômenos neuróticos que correspondem clinicamente a afecções e estados bem adversos: psicopatias, neuroses, esquizofrenia, etc. Janet distinguiu-a, porém, da histeria e de outras neuroses. Segundo ele, a psicastenia seria uma alteração de uma função geral, a função da realidade, fato que provoca substituição da realidade presente por operações de derivação inferiores e desproporcionadas como dúvidas, angústias e obsessões.PSICASTENIA - Forma de psicose com fases de medo, ansiedade, sensação d.e incapacidade e perda da personalidade, fraqueza intelectual e tendência mórbida para dúvidas e hesitações.

A psicastenia é uma afecção mental muito difundida, que se caracteriza por uma redução na tensão psicológica, e cujos principais sintomas são a depressão física e moral, um sentimento de falta de alguma coisa e perda do sentido da realidade, com uma tendência patente às obsessões, às manias e aos fenômenos ansiosos.

A denominação de psicastenia foi dada por Pierre Janet  a um conjunto de fenômenos neuróticos que correspondem clinicamente a afecções e estados bem adversos: psicopatias, neuroses, esquizofrenia, etc. Janet distinguiu-a, porém, da histeria e de outras neuroses. Segundo ele, a psicastenia seria uma alteração de uma função geral, a função da realidade, fato que provoca substituição da realidade presente por operações de derivação inferiores e desproporcionadas como dúvidas, angústia e obsessões.

(2)O conceito de neurastenia foi introduzido por Beard, em 1867, e aplicava-se a um estado de exaustão nervosa. O doente queixa-se de fadiga intensa e de fraqueza física e mental e de nervosismo. É um estado de astenia física e psíquica, pela incapacidade de fazer qualquer esforço, associada a uma perturbação do humor que pode evoluir para a melancolia. O sujeito tem preocupações com a saúde, uma irritabilidade marcante, cefaleias e distúrbios no sono. A neurastenia pode ocorrer como consequência de esgotamento emocional, evoluindo de maneira mais ou menos longa, mas com possibilidade de cura na maioria dos casos.
De uma maneira geral, é usual distinguir entre uma neurastenia endógena, que se desenvolve sobre um terreno constitucional com predisposição específica, e uma neurastenia adquirida em consequência de traumas emotivos, cansaço excessivo, etc.
Tratando-se principalmente de um distúrbio da personalidade, o comportamento do indivíduo sofre transformações que dificultam a sua adaptação social e levam-no a uma marginalidade, assim como à ocorrência de fobias, desconfiança e tendência para a mistificação. Segundo alguns psicanalistas, a neurastenia seria uma regressão da personalidade infantil.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

esta velha angústia

Esta velha angústia
-por Álvaro de Campos -

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.


Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.


Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.


Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
Júpiter, Jeová, a Humanidade -
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!

terça-feira, janeiro 03, 2012

fenda do arquétipo

"(...) a primeira tarefa do herói consiste em retirar-se da cena mundana dos efeitos secundários e iniciar uma jornada pelas regiões causais da psique, onde residem efetivamente as dificuldades, para torná-las claras, erradicá-las em favor de si mesmo (isto é, combater os demônios infantis de sua cultura local)  e penetrar no domínio da experiência e da assimilação, diretas e sem distorções, daquilo que C. G. Jung denominou 'imagens arquetípicas'. Esse é o processo conhecido na filosofia hindu e budista como viveka, 'discriminação' [entre o verdadeiro e o falso]"

JOSEPH CAMPBELL
O Herói de Mil Faces

Minha pergunta é se as tais "imagens arquetípicas" seriam de fato o conteúdo dessa "experiência e assimilação diretas e sem distorções", ou um virtual tietê puro na fonte inacessível mas logo encrostado de conceitos e idealizações pseudo-universais, que afastam a subjetividade da fenda que a faz, do escândalo, do "encosto" (e lá vou eu pra metáfora religiosa, me são inevitáveis, mas não apenas porque arquetípicas, e sim porque me ressoam no particular delas e de mim), ou, como no meu pesadelo, das moscas de refeição do Réveillon, da solidão, do amargor dos peitos flácidos e sem leite, das projeções de fome no alvo fácil de banquetes virtuais indigestos entre convivas de mentira (falácia de faces de facebook), nas consolações e alianças que não te mexem um milímetro do velho lugar, nas conversações que não te escutam e não te transformam nem te permitem transformar-se. As "regiões causais da psique", em contraste com a "cena mundana dos efeitos secundários", onde é que estão, se tudo parece mundano, sem oásis ecológico intocado pela besta-fera homínea, se tudo que era primário hoje torna-se "mundo" e é devastado o chão da Terra, fazendo-nos tremer de pavor ao vento da chuva, apodrecer aos raios do Sol, uivar em tecla de mudo na noite turva na tela mental com seus frágeis fios de conexão?
-Unzuhause-

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Nietzsche e as paredes metafísicas do banheiro

Uma das coisas que me desgostam a alma é lembrar o ser corpo. Tinha profundo desagrado quando, em meio à audição de uma música sublime, a fisiologia me lembrava de alguma de suas (minhas!) necessidades inadiáveis. Estragava o momento divino. Tal antipatia só começou a recuar quando outra ordem de afetos passou a me achacar com a chantagem de que você tem de estar feliz por seus excrementos terem aspecto saudável, não expelirem sangue junto, por exemplo, e que você tem de celebrar o mistério da vida nas suas mais rudimentares manifestações etc. Como diagonal desses dois empuxes, ou vetor resultante, fica um como que temor sagrado, desses que nossos ancestrais chamavam de "temor a Deus", mas pelo corpo. Até nas palavras, o estômago, intestino, bexiga (no sentido urinal), pâncreas me deixam inquieto. A reentrância, o mole misturado, opacidade. O que se esconde nelas, ou melhor, nas coisas delas? E gosto menos do que um segundo antes da menina que, num encontro romântico ou mesmo entre amigos, declare em alto e bom som, com toda a naturalidade de nossa época liberada, "vou fazer um xixi (zinho) e já volto". Que custa o recato de dizermos que vamos ao banheiro (ou ao toilete)? Nietzsche em algum aforismo de A Gaia Ciência fala de nossa necessidade "artística" anti-fisiológica quanto às mulheres e quanto à natureza em geral: ou seja, nosso anseio e capacidade de arte nos permite esquecer do que a natureza exige ciclicamente de nossas mulheres, por mais encanto platônico que tenhamos por elas. Nietzsche compara o mal-estar de lembrar este "lado B" do "corpoético" do belo sexo com o estrago que as ciências da natureza acarretam, se acolhidas sem subterfúgio, para nossa vontade de crer na boa Criação do bom Deus.. Nietzsche só podia mesmo ser o solitário melancólico que foi! Os mais ansiosos da normose acrescentariam também o seu melancólico desfecho de vida, cuidado por mãe e irmã e pela loucura incapacitante, como contra-indicação a seu pensamento. Afetado por tudo, menos por normose, posso dizer que tais traços pessoais e biográficos só somam em encanto à camaradagem de idéias que sempre senti por esse irmão mais velho. Os loucos me seduzem - digo isso em meio à leitura interessantíssima das páginas do louco mais famoso da história da psicanálise, o "presidente Schreber".  Delírio e verdade andam juntos, em se tratando de uma espécie tão prodigiosamente frágil e propensa ao (auto-)engano como a nossa. Cá entre nós, é mesmo tão grande assim, a não ser para nossos rótulos impostos de fora, a diferença entre as revelações ditadas pela  "dementia paranoides" de Schreber(como amo o vocabulário da psiquiatria!) e as ruminações escolásticas de um tratado metafísico ao velho estilo de nossa razão ?
Retomando o fio, "o muro" -célebre imagem dostoiévskiana sobre os limites da condição humana- que nos aprisiona à matéria e especulações bem pode ser traduzido pelas paredes de nossos banheiros, que não cessam de inscrever sem saciar todo tipo de verdade do desejo, vide tantas "mensagens" futebolísticas, políticas, sexuais e religiosas que pululam logo ao lado das salas de aula nas nossas nobres casas do pensamento.
 -Unzuhause-

domingo, janeiro 01, 2012

simples assim


"Parada de fim de ano. Volto no dia 11. Feliz 2012 para todos nós".
blog de Daniel Piza, último post, intitulado "Inté", datado como:  28.dezembro.2011 07:57:05.
Poucas horas depois, às vésperas do Réveillon, descansando com familiares no interior de Minas Gerais, um AVC. E lá se foi, aos 41 anos,  um cara sensacional, um dos nossos mais brilhantes jornalistas e intelectuais. Muito ainda a aproveitar, muito a ensinar e trocar com seus próximos e com um país tão carente em caras desse calibre. Ironia horrível, só mais uma, é que a morte venha do cérebro que tanto o destacava entre nós.
Descanse em paz, muito obrigado por missão tão bonita quanto breve, e que sua família encontre forças para suportar esse momento.
Não fosse a apatia com a qual se reveza, e a esperança que rara- mente deixa borbulhar, eu diria que a vida não cansa de me botar medo. 
-Unzuhause-