Wednesday, January 25, 2012

caindo do cavalo com São Paulo


"Cair do cavalo", a expressão popular, remonta ao célebre episódio bíblico da conversão de São Paulo, celebrado neste 25 de janeiro, dia também do aniversário da metrópole que leva seu nome mas não tem nada de sua "santidade" (nenhum santo aliás é santinho, senão seria papelzim de reza e estátua de gesso, não homens), talvez porém muito de seu tormento e dinâmica de alma genial. Colhido pela aparição fulgurante do Senhor, o então Saulo cavalgava a caminho da cidade de Damasco para prosseguir sua caçada aos cristãos.  A luz que o lança às trevas da cegueira temporária marca a reviravolta da identidade. Do feroz perseguidor ao "apóstolo dos gentios", talvez abaixo só de Cristo em importância para a história da religião que mudou a face do mundo.  A senda da conversão foi de terror e piedade -atributos de toda tragédia, só que aqui vividos na carne, não apenas assistidos em teatro, e que teve resultado feliz, tradicionalmente associado à definição de comédia, não à tragédia. Por isso, aliás, o nome de  "divina comédia" da obra-prima de Dante, também ele vítima e autor de uma profunda conversão (metanóia) existencial "no meio do caminho de nossa vida". Cair do cavalo é episódio inevitável na metade de nossa existência - lá pelos 35 anos de idade, segundo Jung, estudioso das metanóias espirituais dos gênios da cultura e dos mortais da clínica moderna. O próprio Jung passou por vivência assim, quando "caiu do cavalo" das antigas crenças e compromissos com a psicanálise de Freud, com a psicopatologia racionalista, com as psicopatologias da razão. A "metade da vida" (como se eu soubesse a soma total da qual esta seria a metade rs) está chegando para mim. Transformações também. Uma delas é parar com as "cartas inúteis" (vide texto abaixo). Outra, a recusa de continuar um  "paciente" (substantivo da medicina e adjetivo bovino) sedado pelas medicações  de garantia de sobrevivência do "Mínimo Eu" (Christopher Lasch). Encarar de frente a perspectiva mortal, nessa doença irremissível que é estar vivo,  e fazer algo de belo com isto. Sem cacoetes e ritos de covardia. Peito aberto para a "chuva", respeitando-a e deixando a mente vazia para escoar as águas sem entupir nos detritos. Reconhecendo os amigos e companheiros de jornada, reconciliando-me com e sabendo bem dizer meu amor a meus mestres (Sem dependências infantis que o tempo implora para que sejam deixadas para trás, ou convertidos em poesia, como tudo o que não cabe nas nossas medidas do real.) Suportando a dimensão de solidão radical, sem denegá-la por vinculações imaginárias mas tampouco sem me furtar em me fazer oblação concreta a Deus e ao próximo, pois é no Outro (o divino, o cósmico e o inter-humano) que se pode desabrochar e desbrochar os tesões de um verdadeiro Eu  fadado à morte, e a suas "prévias", como as perdas, envelhecimentos. Sem garantias dogmáticas de qualquer vida depois da morte, pois "caí do cavalo" de toda garantia preguiçosa e medrosa de um final feliz. Mas ansiosamente interessado, e serenamente praticante, dos mistérios da vida antes da morte. 
-Unzuhause-

Para meditação da história  bíblica:
São Fulgêncio de Ruspe (467-532), bispo no Norte de África



Um sermão atribuído, nº 59; PL 65, 929


«Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu» (Act 9,3)

Saulo foi enviado pelo caminho de Damasco para se tornar cego, pois se ele cegou, foi para ver o verdadeiro Caminho (Jo 14,6). [...] Perdeu a vista do corpo, mas o seu coração foi iluminado para que a verdadeira luz brilhasse, quer aos olhos do seu coração, quer aos do corpo. [...] Foi enviado para dentro de si mesmo, para se procurar a si mesmo. Andava errante na sua própria companhia, viajante inconsciente, e não se encontrava porque interiormente tinha perdido o caminho.

Foi por isso que ouviu uma voz que lhe dizia [...]: «Desvia os teus passos do caminho de Saulo, para encontrares a fé de Paulo. Despe a túnica da tua cegueira e reveste-te das vestes do teu Salvador (Gl 3,27). [...] Eu quis manifestar na tua carne a cegueira do teu coração, para que pudesses ver o que não vias e não te parecesses com aqueles que 'têm olhos mas não vêem e ouvidos mas não ouvem' (Sl 115,5-6). Que Saulo se afaste deles com as suas cartas inúteis (Act 22,5), para que Paulo escreva as suas tão necessárias epístolas. Que Saulo, o cego, desapareça [...] para que Paulo se torne a luz dos crentes.» [...]

Paulo, quem te transformou assim? «Ele respondeu: Esse homem, que Se chama Jesus, fez lama, ungiu-me os olhos e disse-me: 'Vai à piscina de Siloé e lava-te.' Então eu fui, lavei-me e comecei a ver!» (Jo 9,11). Porquê esse espanto? Eis que Aquele que me criou me recriou; com o poder com que me criou, agora curou-me; eu tinha pecado mas Ele purificou-me».

Portanto, Paulo, vem, deixa o velho Saulo, em breve também verás Pedro. [...] Ananias, toca em Saulo e dá-nos Paulo; afasta para longe o perseguidor, envia em missão o pregador: os cordeiros já não terão medo, as ovelhas de Cristo viverão na alegria. Toca no lobo que perseguia Cristo, para que agora, com Pedro, ele leve a pastar as ovelhas.

0 comments: