Monday, January 16, 2012
a névoa e o Sol
"(...) a intensidade das impressões amplia-se com a lembrança de si, e, do mesmo modo, também podem ser fortalecidas pela essência [conceito que Gurdjieff contrapõe ao de "personalidade", ou seja, respectivamente, nosso Eu inato e nossas máscaras e automatismos comportamentais], se as recebemos com faz uma criança. Neste momento, estou olhando para a estante de livros à minha frente e recebo impressões vívidas de cores brilhantes que vêm das lombadas dos livros, sobretudo de uma sobrecapa azul-vivo. Imediatamente, porém, o pensamento associativo começa a funcionar em minha mente em relação a esse livro em particular -o nome do editor, certas lembranças de um dos diretores da firma-, uma dúzia de outros pensamentos vulgares e fúteis captam a minha atenção e zás! as cores brilhantes de minha biblioteca desvaneceram-se e sumiram completamente. Agora, vejo tudo não como uma criancinha faria, mas como um adulto esfalfado, 'empalidecido pelo tom desbotado do pensamento', está condenado a ver. É como se uma névoa londrina tivesse invadido meu quarto, despojando todas as coisas de seu frescor".
KENNETH WALKER
Os Ensinamentos de Gurdjieff
Vi por esses dias um filme chamado, no Brasil, de "Sem Limites", direção de Neil Burger , com Bradley Cooper e Robert De Niro.
O protagonista (Cooper) é um escritor encalhado na falta de criatividade e de amor. A situação muda quando apresentado a uma droga mágica por um traficante, irmão de sua ex-esposa linda, forte e impaciente para losers como nosso herói, daí o pé na bunda que tomou dela. A droga, tão poderosa quanto perigosa, vai colocá-lo em grandes enrascadas, mas também impulsionar o despertar de um verdadeiro gênio, usar 100 por cento (e não os proverbiais cinco) de sua capacidade mental, capaz de todos os cálculos e raciocínios, o que o faz considerar pouco pra ele a pretensão de literatura, trocada por outra bem mais "lucrativa", a dos business, em velocíssima escalada, na batida das sinapses aceleradas, do sucesso na forma de enriquecimento, prestígio e sexo, culminando em poder político. As boas atuações, o roteiro tenso e envolvente se somam, para cativar o espectador, ao jogo visual de toda a narrativa entre cenários e objetos de cores frias e quentes, névoa e Sol -espelho objetivo das alternâncias abruptas de euforia e melancolia do personagem, montanha-russa típíca da paisagem anímica dos viciados.
O filme passa longe de qualquer bom-mocismo de uma "moral da história" contra as drogas, sem tampouco merecer demonização dos puritanos como uma apologia delas: é suficientemente simbólico para mostrar que o próprio desejo de drogas, hoje como nos tempos psicodélicos, embute um anseio mais profundo, também presente em outras drogas, como o amor - aliás assisti no sábado a "Amor e Outras Drogas", com a deslumbrante e ali, também, comovente Anne Hathaway, em madeixas cacheadas que, sem serem minhas favoritas, mesmo assim ficam espetacularmente belas como moldura de seu olhar profundo, rosto de anjo e lábios carnudos; ah sim, o filme, este sim, de denúncia ostensiva da indústria das drogas (legais, as das grandes empresas farmacêuticas em conluio com médicos gananciosos, pouco se lixando para a saúde propriamente dita de seus pacientes, ou o que dá no mesmo, fazendo dela uma questão de mercadoria).
Mas dizia do desejo simbólico implícito às drogas: desejo de fusão, transcendência, conjunção dos opostos e pertencimento a algo ou Alguém mais elevado; desejo de alforria das misérias cotidianas, de despertar as camadas profundas de nosso psiquismo, adormecido pelas rotinas e percepções embotadas. Desejo de essência, mais que personalidade: de Self, mais que de persona, nos termos de mestre Jung. Desejo, em suma, de "unus mundus", destrancada a pequena e maciça caixa subjetiva, janelas reabertas para o mundo, vivência de mais sentido, mais sentidos, e mais intensidade, honrando o desígnio arquetípico por que vivemos, respiramos e temos nosso ser. Para além da névoa, acarinhados pelos raios do Sol.
-Unzuhause-
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