quarta-feira, outubro 31, 2012

a grande prole

(história verídica)
Era o Censo de 2000. Interiorzão do Brasil. A recenseadora, de nome Marisa, do IBGE, entra numa casinha simples, mas bem cuidada.É recebida pelo casal Rosa e João, ambos sem cultura (no sentido oficialesco, esnobe mesmo, do termo), ele cinquentenário, ambos com roupas domingueiras para bem (i) ilustrar a solenidade do evento. Enquanto Marisa anota os dados do casal, João manda chamar os filhos que brincavam fora. Chegam logo os três mais velhos. Marisa pergunta pelos nomes, idades etc. Em seguida, entram mais três. Quase ao término do interrogatório, chegam outros quatro pequenos. Marisa, impressionada, mas não despojada de todo dos termos adequados a gente de cultura, dirige-se ao seu João asssim: "Mas que prole grande, hein?". João, orgulhoso e malicioso, responde: "E grossa!"
-Unzuhause-

terça-feira, outubro 30, 2012

tuitando - fora da nova ordem mundial

NY em dias de Haiti, minhas orações por vc, minhas orações por todos nós, pó e escombros e coisa nenhuma ante às forças selvagens sem lei da vida e da morte.


segunda-feira, outubro 29, 2012

a geração do amor

Capa do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles; o rosto de Jung é o oitavo, da esquerda para a direita, na primeira fileira ao fundo


"(...) Jung fazia parte de um cânon de pensadores 'alternativos' que incluía Hermann Hesse, Alan Watts, Carlos Castañeda, D. T. Suzuki, R. D. Laing, Aldous Huxley. Jorge Luis Borges, Aleister Crowley, Timothy Leary, Madame Blavatsky e J. R. R. Tolkien, para citar alguns. Que seu rosto aparecesse na capa do famoso álbum dos Beatles Sgt. Pepper' s Lonely Hearts Club Band, entre uma multidão de personagens não ortodoxos, bastava como endosso. Foi por meio de Jung que boa parte da magia que informou a década mística dos anos 1960 chegou a pessoas como eu. Graças a ele, obras obscuras como o I Ching e O Livro Tibetano dos Mortos tornaram-se o pilar da geração do amor e, mais que qualquer outra pessoa, ele foi responsável pela difusão da ideia de que a Era de Aquário estava logo na esquina".
Gary Lachman
Jung, o Místico


domingo, outubro 28, 2012

generosa e monstruosa Pauliceia, Paradoxo, Paranoica, Popular - parabéns, PT!



São, São Paulo

-Tom Zé-

São, São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor

E amando com todo ódio

Se odeiam com todo amor

 

São oito milhões de habitantes

Aglomerada solidão

Por mil chaminés e carros

Caseados à prestação

Porém com todo defeito

Te carrego no meu peito

São, São Paulo

Meu amor

São, São Paulo

Quanta dor

Salvai-nos por caridade

Pecadoras invadiram

Todo centro da cidade

Armadas de rouge e batom

Dando vivas ao bom humor

Num atentado contra o pudor

A família protegida

Um palavrão reprimido

Um pregador que condena

Uma bomba por quinzena

Porém com todo defeito

Te carrego no meu peito

São, São Paulo

Meu amor

São, São Paulo

Quanta dor

Santo Antonio foi demitido

Dos Ministros de cupido

Armados da eletrônica

Casam pela TV

Crescem flores de concreto

Céu aberto ninguém vê

Em Brasília é veraneio

No Rio é banho de mar

O país todo de férias

E aqui é só trabalhar

Porém com todo defeito

Te carrego no meu peito

São, São Paulo

Meu amor
São, São Paulo

Resenhas na Folha - 27/10/2012 (II)




FOLHA DE SÃO PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES

A odisseia profana de Heidegger
-Caio Liudvik-

Filósofo de origens católicas que o indispunham contra o desenraizamento espiritual e a "morte de Deus" na cultura moderna, Martin Heidegger (1889-1976) manterá esse pathos filosófico –e político, vide a trágica adesão ao nazismo- ao longo de toda a vida. Em "Ser e Tempo" (1927), a denúncia da inautenticidade do homem cotidiano remonta aos temas da "curiosidade" agostiniana e do "divertimento" de Pascal: formas de evasão e de auto-engano com que nos defendemos da angústia que nos atravessa e da morte que nos espreita e que de certo modo "já é" nas agonias de nossa vida provisória, temporária, temporal –mas (e aqui Heidegger rompe com suas raízes teológicas explícitas) sem consolações dogmáticas durante ou no fim do túnel escuro.
O "estranho tratado", nas palavras de seu autor, permaneceu inacabado, depois da guinada teórica que levou Heidegger, a partir dos anos 30, à busca protomística do Ser em si, para além do horizonte "existencialista" –de grande impacto sobre o Sartre de "O Ser e o Nada"- do enredo de " Ser e Tempo", a odisseia profana do homem de retorno a si na transcendência da consciência vulgar e do mundo utilitário. Homem, isto é, "Dasein", literalmente algo como "ser-aí", ou ainda "presença", na polêmica tradução brasileira anterior.
Na nova edição, bilíngüe, Fausto Castilho, ex-aluno de Heidegger, sabiamente preservou intraduzida esta palavra, outro dos muitos méritos de seu trabalho meticuloso e profundo.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

PASSAGENS DE TEMPO

Já na penúltima página da deliciosa travessia por estas "Passagens de Tempo", de Mauro Maldonato, o leitor é brindado com palavras que talvez sintetizem algo do que torna tão belo o percurso: "A nossa consciência, que nos parece tão clara, tão transparente, é na realidade opaca. Opaco é o nosso próprio presente. O provérbio chinês 'na base do farol não há luz' alude ao fato de que não devemos nos projetar no futuro como tal, mas iluminar através do conhecimento –um conhecimento irradiado de esperança – o círculo interno do nosso ser, dando sentido a cada momento de nossa existência".
Filósofo e psiquiatra, o italiano mostra como essas duas profissões podem nomear uma mesma vocação - o de "cuida-dor" da alma, sem arrogância curante, e sim humildade cuidante, como diz Mario Sergio Cortella em texto que integra a edição. Daí os acordes poéticos com que a prosa de Maldonato nos desperta para o mistério do tempo vivido, subjetivo, não cronológico (o autor mostra simpatia explícita pelas abordagens de Bergson e da fenomenologia de Husserl e Heidegger). Tempo da memória, nostalgia, da esperança, da coragem, entre outras facetas estudadas na obra.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

POEMAS DE KONSTANTINOS KAVÁFIS
Um grande mestre da poesia traduzido por outro: não dá para perder este encontro, isto é, a transcriação de parte da obra de Konstantinos Kaváfis (1863-1933), o maior poeta da língua grega moderna, por Haroldo de Campos. Quase irresistível porém é sugerir que essa tertúlia poética tenha ainda mais um ilustre participante: José Paulo Paes e sua belíssima edição comentada dos poemas de Kaváfis, pela editora José Olympio. Com essa leitura combinada, os eventuais hermetismos inerentes à dicção transcriadora de Haroldo, bem como as muitas alusões históricas e míticas do próprio poeta alexandrino, se desvelam a uma luz ainda mais sedutora, assim aumentando nosso poder de apreciação de obras-primas como "À espera dos bárbaros", poema mais famoso de Kaváfis, e síntese de sua visão simbolista-decadentista no plano sócio-histórico: a sociedade decrépita, para quem a liberdade é um fardo corrupto, e que espera ansiosa pelo conforto da escravidão, em paralelo ao homem que, na órbita pessoal, se perdeu em hipocrisias e covardias ante o imperativo (epicurista) de gozar em plenitude a brevidade da vida. Tradutor consagrado da "Ilíada", Haroldo também nos deixou belíssima versão de "Os cavalos de Aquiles", que choram nossa miséria de "obra mortal" dos deuses, no poema kavafiano baseado na célebre cena da epopéia homérica.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO

sábado, outubro 27, 2012

Resenhas na Folha - 27/10/2012


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES

Música Metafísica
-Caio Liudvik-
Ao tecer o célebre diagnóstico da modernidade como "desencantamento do mundo", Max Weber demonstrava todo seu pessimismo a um só tempo crítico e resignado ante a "noite polar, glacial, sombria e rude" que se abatera sobre a humanidade, fadada ao desespero, nos casos de exceção, ou à alienação tranquila de uma vida "sem deuses nem profetas". A insistência de Weber na impossibilidade de reversão desse quadro tinha por alvo de combate a proliferação de seitas e profetas na Alemanha de seu tempo (nosso mercado de salvação esotérica tem ilustres predecessores).
Entre esses círculos, um dos mais expressivos era o de Stefan George (1898-1933), herdeiro de Mallarmé e um dos maiores nomes poesia simbolista europeia. Na coletânea "Crepúsculo", podemos pressentir o magnetismo pessoal e profundidade de visão que fizeram do grande artista esse fenômeno também sociológico.
Afora o impacto que tiveram no dodecafonismo de Arnold Schöenberg, os versos de George são "musicais" na sua própria forma, sonoridade e também na exaltação da música como uma espécie de região metafísica, antessala da transcendência cósmica, superação dos limites e ilusões da palavra vulgar.
Vide o poema consagrado a Nietzsche, que termina lamentando que o infeliz "redentor" dionisíaco "devia ter cantado / essa nova alma/ e a palavra evitado", ou a distância que demarca entre a música e o mercantilismo vulgar da sociedade desencantada: "Soldo algum, nenhum louro / Apenas na canção o amor e o ouro".
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

HISTÓRIA, TEATRO E POLÍTICA
A coletânea, organizada por Kátia Paranhos, traz contribuição de historiadores, críticos e pesquisadores que têm em comum o interesse pelo estudo conjugado de teatro e História, em diferentes situações e contextos semânticos. Assim, por exemplo, Adalberto Paranhos, professor da Universidade Federal de Uberlândia, tece uma interessante reflexão sobre a concepção "cênica" que Maquiavel, no Renascimento, tinha sobre a conduta ideal do governante: o pai da ciência política moderna via a arte do fingimento como virtude cardeal para quem queira fazer história entre e sobre homens que são "ambiciosos, ávidos de lucros, invejosos, ingratos, volúveis, dissimulados".
Maria Silvia Betti  estuda as concepções dramatúrgicas de Oduvaldo Vianna Filho no Brasil pós- AI-5. Edelcio Mostaço mergulha na obra de Hélio Oiticica para nela surpreender um forte (mas ainda pouco explorada) dispositivo de teatralidade no criador dos Parangolés e da instalação "Tropicália".
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

LIVRO DAS MIL E UMA NOITES
Sherazade chega ao fim de sua longa e sedutora tecelagem de histórias para salvar a própria vida ante a fúria do rei, que a cada noite desposava e matava uma mulher como castigo pelo pecado original da esposa adúltera.
O quarto volume do "Livro das Mil e uma Noites" conclui a magnífica empreitada tradutória –numa versão integral, comentada e direta do árabe- do professor da USP Mamede Mustafá Jarouche. O livro traz as populares histórias de Aladim e de Ali Babá e os quarenta ladrões, entre outras.
Em tempos de gestos irresponsáveis de provocação à cultura árabe, na sanha –nossa idolatria ocidental- de celebridade barata e com conseqüências sangrentas para inocentes, nada mais reconfortante do que o deleite da alteridade das culturas e reencontro da universalidade do humano, por estas páginas que, como disse Foucault, são "o avesso encarniçado do assassínio", o "esforço de noite após noite para manter a morte fora do ciclo da existência".
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

terça-feira, outubro 16, 2012

diário de uma formação analítica - 16/10/2012



Segue-se abaixo trecho do meu artigo semestral, que teve por tema o conceito de estádio do espelho em Lacan,  recém- entregue na minha escola de psicanálise.

(...)
Curioso especular como a psicanálise, nos grandes fundadores, tende a uma expansão quase mítica à condição de Weltanschauung (visão de mundo) global da realidade a partir dos prismas particulares, em especial das psicopatologias enfatizadas no trabalho inicial de seus fundadores. Vide as "concordâncias entre a vida psíquica dos homens primitivos e dos neuróticos" que levaram Freud às raízes da História, em Totem e Tabu. Ou ainda o episódio dramático da ruptura entre Freud e Jung, quando este, partindo de suas pesquisas com os esquizofrênicos do hospital psiquiátrico em que atuava, rompe com o "pan-sexualismo" freudiano e atesta, pelos delírios  de um paciente, a verdade universal da existência de um inconsciente coletivo. Já Lacan, psiquiatra como Jung, dedicou a tese de doutorado a um outro campo de psicoses, a paranóia, e, na mesma passagem da pesquisa psicopatológica particular ao universalismo mais ou menos especulativo –lembremos que "especulação", como especular, vem de espelho- de uma verdade da espécie humana, reencontra a paranóia como uma espécie de matriz da constituição da identidade e do conhecimento humano, justamente no estádio do espelho (Lacan, ibid, p, 97). É afinal sob condições de projeção e rivalidade, como parte de um "complexo de intrusão", que a alteridade se impõe como condição de possibilidade de um auto-reconhecimento, para além do paraíso solipsista da fusão mãe-bebê.
(...)

quarta-feira, outubro 10, 2012

diário de uma formação analítica- 09 /10/2012


"Para patinar no gelo fino ou caminhar na praia incandescente, o segredo é a rapidez do passo".
A frase, com o brilho dos grandes aforismos (com perdão da contradição), é do adorável professor Júlio, do meu curso de formação em psicanálise. Foi na chamada "hora clínica" desta noite. É assim que eles denominam, por oposição às "aulas téóricas", o espaço reservado para discussões concretas do cotidiano da clínica. Júlio, pelo aforismo do segredo da sobrevivência a condições inóspitas do muito frio ou do muito quente,  assim metaforizava as estratégias pelas quais o sujeito, ainda mais em nossos tempos de "correria" perpétua,  evita se haver consigo mesmo mediante toda sorte de entulhamento de ocupações, preocupações, "divertimentos" (cito Pascal). Outro exemplo brilhante, esse de uma paciente de Júlio -e Lacan nos ensina que aprendia sobretudo com seus analisandos-, é uma fala quando de um primeiro atraso dela em comparecer às sessões: em dia de trânsito pesado como sempre, ao invés de "cheguei atrasado" = a desculpa proverbial que põe a culpa nos outros, no sistema social, no Kassab, no papa etc, por que não admitir o "saí atrasado", que implica escolha pessoal, subjetividade ali também onde tudo parece fatalidade?
**
Falando em Lacan.. é tempo de elaboração do trabalho semestral. Meu grande investimento do semestre foi, como já comentei, a Introdução ao Narcisismo de Freud. Quase exatos trinta dias de fichamento e pesquisas paralelas. Nesse sentido o semestre tem rendido mais do que o anterior, em que, porém, produzi artigo que acabou escolhido para o colóquio interno de todas as turmas de formação. É que eu já trazia uma questão engatilhada, meu "sintoma-Jung", perfeitamente compatível com a circunstância de estar em cartaz o filme sobre Freud, Jung e Sabina Spielrein. Desta vez a gestação do meu artigo é mais "nativa" do tempo e do conteúdo específicos do curso em andamento. E são linhas também mais pesadas de engendrar, provavelmente mais chatas também, certamente menos maturadas.. mas repletas da presença de Lacan. Me impressiona o grau de atravessamento e, sim, paixão, que esse cara me suscita, a despeito de todos os meus "protestos" por mais compreensão, ao estilo cristalino da prosa de um Freud ou quiçá no estilo obscuro mas sapiencial de Jung. Nada disso, me sussurra Lacan. E eu o escuto, protesto e o amo.. um lacaniano "protestante", nem por isso menos devotado à rebelião.
-Unzuhause-

terça-feira, outubro 09, 2012

segunda-feira, outubro 08, 2012

o quarentão libertário





Quarenta anos de “Jesus Cristo Libertador”.

http://leonardoboff.wordpress.com/2012/10/07/quarenta-anos-de-jesus-cristo-libertador/
07/10/2012
Entre os dias 7-10 de outubro está acontecendo em São Leopoldo junto ao Instituto Humanitas da Unisinos dos Jesuitas, a celebração dos 40 anos do surgimento da Teologia da Libertação. Lá estão os principais representantes da América Latina, especialmente, seu primeiro formulador, o peruano Gustavo Gutiérrez. Curiosamente no mesmo ano, 1971, sem que um soubesse do outro, tanto Gutiérrez (Peru), quanto Hugo Assman (Bolivia), Juan Luiz Segundo (Uruguai) e eu (Brasil) lançávamos nossos escritos, tidos como fundadores deste tipo de teologia. Não seria a irrupção Espírito que soprava em nosso Continente marcado por tantas opressões?

Eu, para burlar os órgãos de controle e repressão dos militares, publicava todo mês no ano 1971 um artigo numa revista para religiosas Sponsa Christi (Esposa de Cristo) com o título: Jesus Cristo Libertador. Em março de 1972 reuni os artigos e arrisquei sua publicação em forma de livro. Tive que esconder-me por duas semanas, pois a polícia política me procurava. As palavras “libertação” e “libertador”haviam sido banidas e não podiam ser usada publicamente. Custou muito ao advogado da Editora Vozes, que fora pracinha na Itália, para convencer os agentes da vigilância de que se tratava um livro de teologia, com muitos rodapés de literatura alemã e que não ameaçava o Estado de Segurança Nacional.

Qual a singularidade do livro (hoje na 21.edição)? Ele apresentava, fundada numa exegese rigorosa dos evangelhos, uma figura do Jesus como libertador das várias opressões humanas. Com duas delas ele se confrontou diretamente: a religiosa sob a forma do farisaísmo da estrita observância das leis religiosas. A outra, política, a ocupação romana que implicava reconhecer o imperador como “deus” e assistir a penetração da cultura helenística pagã em Israel.

À opressão religiosa Jesus contrapôs uma “lei” maior, a do amor incondicional a Deus e ao próximo. Este para ele é toda pessoa da qual eu me aproximo, especialmente os pobres e invisíveis, aqueles que socialmente não contam.

À política, ao invés de submeter-se ao Império dos Césares, ele anunciou o Reino de Deus, um delito de lesa-majestade. Este Reino comportava uma revolução absoluta do cosmos, da sociedade, de cada pessoa e uma redefinição do sentido da vida à luz do Deus, chamado de Abba, quer dizer, paizinho bondoso e cheio de misericórdia fazendo que todos se sentissem seus filhos e filhas e irmãos e irmãs uns dos outros.

Jesus agia com a autoridade e a convicção de alguém enviado do Pai para libertar a criação ferida pelas injustiças. Mostrava um poder que aplacava tempestades, curava doentes, ressuscitava mortos e enchia de esperança todo o povo. Algo realmente revolucionário iria acontecer: a irrupção do Reino que é de Deus mas também dos humanos por seu engajamento.

Nas duas frente criou um conflito que o levou à cruz. Portanto, não morreu na cama cercado de discípulos. Mas executado na cruz em consequência de sua mensagem e de sua prática. Tudo indicava que sua utopia fora frustrada. Mas eis que aconteceu um evento inaudito: a grama não cresceu sobre sua sepultura. Mulheres anunciaram aos apóstolos que Ele havia ressuscitado. A ressurreição não deve ser identificada com a reanimação de seu cadáver, como o de Lázaro. Mas como a irrupção do ser novo, não mais sujeito ao espaço-tempo e à entropia natural da vida. Por isso atravessava paredes, aparecia e desaparecia. Sua utopia do Reino, como transfiguração de todas as coisas, não podendo de realizar globalmente, se concretizou em sua pessoa mediante a ressurreição. É o Reino de Deus concretizado nele.

A ressurreição é o dado maior o cristianismo sem o qual ele não se sustenta. Sem esse evento bem-aventurado, Jesus seria como tantos profetas sacrificados pelos sistemas de opressão. A ressurreição significa a grande libertação e também uma insurreição contra este tipo de mundo. Quem ressuscita não é um Cesar ou um Sumo-Sacerdote, mas um crucificado. A ressurreição dá razão aos crucificados da história da justiça e do amor. Ela nos assegura que o algoz não triunfa sobre a vítima. Significa a realização as potencialidades escondidas em cada um de nós: a irrupção do homem novo.

Como entender essa pessoa? Os discípulos lhe atribuíram todos os títulos, Filho do Homem, Profeta, Messias e outros. Por fim concluíram: humano assim como Jesus só pode ser Deus mesmo. E começaram a chama-lo de Filho de Deus.

Anunciar um Jesus Cristo libertador no contexto de opressão que existia ainda persiste no Brasil e na América Latina era e é perigoso. Não só para a sociedade dominante mas também para aquele tipo de Igreja que discrimina mulheres e leigos. Por isso seu sonho sempre será retomado por aqueles que se recusam aceitar o mundo assim como existe. Talvez seja este o sentido de um livro escrito há 40 anos.

terça-feira, outubro 02, 2012

de Agostinho a Hobsbawm


"Deus das virtudes, volta-nos para ti, mostra-nos a tua face e seremos salvos' [Sl 119 (118)]. Para qualquer parte que se volte a alma humana, se não se fixa em ti, se agarra à dor, ainda que se detenha nas belezas que estão fora de ti e fora de si mesma. Elas nada teriam de belo, se não proviessem de ti. Nascem e morrem: nascendo, começam a existir e a crescer para chegar à maturidade; porém, uma vez maduras, decaem e morrem. Nem tudo envelhece, mas tudo morre. Portanto, no exato momento em que nascem e começam a existir, quanto mais rapidamente crescem para o ser, tanto mais correm para o não ser. Tal é a condição que lhes impuseste, por serem partes de coisas que não existem simultaneamente. São coisas que, desaparecendo e sucedendo-se umas às outras, compõem o universo. Também assim se realiza a fala, através de sinais sonoros. E o discurso não seria completo, se cada palavra, depois de pronunciada, não morresse para deixar lugar a outra".
Santo Agostinho
Confissões

Volto de uma magnífica aula do professor Franklin Leopoldo e Silva (preciso me demorar em motivos por que foi tão boa?), lá na Maria Antonia. Curso sobre a questão do Sentido da História. Aula inicial, como não podia deixar de ser, sobre Santo Agostinho, o patrono das filosofias da História. 
Ainda que em viés teológico, cravado de categorias como pecado original, queda, redenção e graça, é com Agostinho e sua Cidade de Deus que a História Universal (nos parâmetros do mundo então conhecido) entra em cena como questão propriamente filosófica, busca racional de causas, lógica própria e desígnios ocultos, portanto fenômeno cuja instância de articulação e significação seria transcendente ao mero fluxo factual. Daí o salto para além da narrativa historiográfica à la Heródoto ou Tucídides, que era concreta, pontual, adstrita à coleta e reflexão sobre testemunhos diretos sobre os acontecimentos, recolhidos in loco no campo de batalha, por assim dizer, pelo próprio autor ou pelas fontes a que ele recorre.
Agostinho, entre outras inovações, conjuga a linearidade e irreversibilidade instauradas pelo messianismo judaico -a História não como caos ou pura repetição, mas História da Salvação-  com a antiga ideia de circularidade temporal, não mais como eterno retorno cósmico de tipo pagão, e sim dinâmica de ascensão, estabilidade e decadência de todas a coisas, de todas as forças, de todos os impérios. Isso para a perplexidade de seus concidadãos romanos, que viam a inimaginável desgraça se abater sobre Roma, com as "invasões bárbaras", e culpavam o cristianismo, que, segundo eles, embotou o espírito cívico por se lixar para a cidade terrena, cujos negócios e balbúrdia nada acrescentariam em vista da salvação da alma e da cidadania celestial. Curioso que esse tipo de acusação, séculos depois, serviria por exemplo à direita francesa para explicar a Ocupação nazista: culpa do nosso abandono das virtudes cristãs!
Agostinho rebate dizendo, com fino senso analítico e muito respaldo historiográfico, que Roma se perdeu por seus próprios equívocos práticos, afora a exaustão que paira sobre todo status quo. Ensina também, já como autoridade não só sagrada, mas temporal  -a Igreja do bispo de Hipona acabara de ser entronizada como religião oficial do Estado- que a cidade dos homens tem seu valor, conquanto relativo, o de preparação e peregrinação em definitivo regresso à cidade de Deus. 
Embora seja inegável (e cá entre nós, muito sedutor) que haja no cristianismo uma potencialidade radical de recusa do mundo, o cristão de Agostinho não deve dar as costas às coisas temporais, apenas não "inflacioná-las" de um afeto, de um apego, amando ou odiando, que não lhes cabe, enquanto criaturas efêmeras e mortais como o sopro da voz que fala e se cala, e que para ganhar sentido precisa vir a fazer silêncio, o morrer mais ou menos longo que dá a uma massa de sons contorno de palavra.
O protótipo agostiniano de pensar a Filosofia da História teria muitas reaparições ao longo da história ocidental, por exemplo, como destacou o professor Franklin, no marxismo. Isso me traz ao propósito inicial deste post, singela homenagem, com palavras de Santo Agostinho,  a Eric Hobsbawm, que hoje calou. A grandeza de Hobsbawm, em tudo o que falou, esteve justamente na fecundidade com que levou adiante o legado de Marx, por sua vez impossível não apenas sem Hegel, mas também sem o cristianismo e seu maior codificador filosófico, o bispo de Hipona.
Além da homenagem acadêmica, quero também registrar meu pesar pela partida da Hebe. Um pouco menos de sabor de vovó e de vovô no meu mundo, não bastasse a casa vendida e a presença deles já ser apenas no café e no jogo de xadrex, o de Bergman, talvez, que me oferecem em meus sonhos sozinho.
-Unzuhause-