quinta-feira, janeiro 31, 2013

o trator que sabe zanzar

Considerada uma lenda da música, a soprano Mary Garden começou a carreira estudando violino. Mudou para o piano. Teve então aulas de canto. Assistiu a alguns ensaios de uma ópera em Paris e estava na plateia na noite de abertura, quando a estrela da noite caiu doente. Garden foi convidada pra substituí-la. Nascia uma estrela. Na sua autobiografia, ela afirmou: "Nunca perdi de vista o que eu queria fazer". Mais tarde sempre insistiu, como tantas outras pessoas de sucesso, sobre como é importante lutar pelos seus objetivos, nunca desistir, se esforçar dia e noite sabendo o que você quer. Mas o fato é que, também como a grande parte dos vencedores, ela contou e muito com a velha e boa sorte, a "fortuna" dos antigos. E além do mais não teve vergonha de seguir um caminho tortuoso, de abandonos e recomeços, ao contrário do clichê empreendedorista de que precisamos antes de mais nada "manter o foco", não olhar pro lado, não nos distrair. Quanto a mim, vejo imensa beleza nisto de não sabermos nunca exatamente quem somos e o que faremos, e com quem estaremos, embora, claro, o descarte do que deixa de interessar, o velho e bom "vai com deus e seja feliz", seja sempre fundamental. Vencedores perdem, losers é que não aceitam perder. O perder do vencedor é abrir mão da mão errada, do sem futuro, do que deu tesão e não dá mais. O não perder do perdedor nato é a teimosia na aposta errada, 'ahhh perdido por um perdido por dez, vou perder até ganhar, uma hora tudo se ajeita', ele pensa. E erra. Sejamos trator, quiçá, na força e na pegada. Mas um trator que sabe bailar como dançarino flamenco, e que sabe zanzar com zazie em Paris.
-Unzuhause-

Marilyn Manson - Sweet dreams (post 50 de janeiro)



comemorando o post 50 apenas em janeiro.. acho q nunca eu havia `taken down`(despejado; aprendi esse termo hoje com o Velho Safado Bukowski) tanta palavra, imagem ou afeto nesse espaco de tempo, desde o longinquo 2005 em que comecei com o blog Unzuhause. Tambem nao me lembro, nesse tempo de espaco tao comprimido q foram esses anos, de sentir o corpo tao vivo . Se, como narcisicamente me fantasio, sou meu primeiro caso clinico como analista em formacao (perdoem a falta dos acentos) , hei de guardar deste janeiro ensinamentos valiosos nao da mera unidade corpo e alma, essa todo mundo ja sabe ou ao menos repete da boca pra fora, mas tambem de corpo e escrita, o corpo como `escrita` tambem no sentido de `destino` que contudo esta em aberto, nao sendo mero `em-si`, mas coisa em devir, como o marmore do artista.
-Unzuhause-

a Mor cega a falta


A seguir, o Velho Safado em momento de mais puro Lacan. 
A falta é que nos move, não é Morcega amada? Paralisa os acomodados, mas é tônus de pro-pulsão dos heróis e heróinas, morcegos e gorilas, que fazem o mundo real de repente tomar tons de graphic novel. Potência e ausência, luzes ou trevas são antípodas limitantes demais (como toda dicotomia não assumida como um todo, sem ser tudo) pra se tentar definir vosso poder. A mor cega a Falta, ou melhor, a morcega faz até o cego como eu poder ver e transcender pela falta.
Feliz aniversário! (ontem, dia 30)
beijos,
Caius Calígula

"Há um lugar no coração que
nunca será preenchido
um espaço

e mesmo nos melhores momentos
e nos melhores

tempos

nós saberemos

nós saberemos
mais que
nunca
há um lugar no coração que

nunca será preenchido

e nós iremos esperar

e esperar

nesse lugar".

Charles Bukowski, "Sem Chance de Ajuda"

quarta-feira, janeiro 30, 2013

o profeta


‎(Assim certo Zaratustra chicoanysiano me tem falado em sonhos)


Desajustados do meu Brasil uni-vos! não entre vós numa unanimidade qualquer, que já seria forçar ajustamento. Uni-vos a vós mesmos, ao vosso todo, aos vossos nadas, fendas, feridas, pepitas de singularidade onde se pressente uma bondade possível para vós e para os vossos próximos. Sim, bondade! palavra desgastada, como tudo o que há de sério nesta vida pequena que vos querem impingir, mas alma que, se datada, é datada não de ontem, mas amanhã. Valor de vir- a-ser. Mas por favor, não esqueçais que sem o Mal que há em vós o Bem nada seria (nem teria graça).
-O Profeta-


o primeiro masoquista


não por acaso o cara deu o nome ao nosso velho conhecido "masoquismo". Na foto me dou licença de inverter a correlação de forças, pois nada mais delicioso e redentor para o masoquista do que se descobrir sádico.. 
-Unzuhause- 
 
"Eu já lhe disse muitas vezes que a dor exerce sobre mim uma atração peculiar, e nada alimenta mais a minha paixão do que a tirania, a crueldade e, acima de tudo, a infidelidade numa bela mulher"
Leopold von Sacher-Masoch,

 Venus in Furs

o Mendigo de dez mil anos atrás


"O Mendigo", no conto com esse nome, de Fernando Pessoa, se diz "anterior a Adão", talvez sinalizando para um estado de consciência ainda mais primordial do que a da primeira consciência propriamente humana, separada dos demais entes e do Criador. Mais velho, pois, que a cisão sujeito / objeto do projeto onto(teo)lógico que nos tornou o triste e (cosmicamente) solitário satã da terra. Solitários sociais podemos talvez reaver a amizade primordial que desprezamos em nome da ganância egoica. "Por isso posso dar conselhos, porque o que conhece é superior como pai para o que ignora".
E o conselho é simples, não precisamos talmudiar, como diria Wilhelm Reich, inventar teologias rivais, fogueiras de inquisição e separação entre papas e heresias, se somos todos irmãos por debaixo dessas vestes:
"Não vivas; sê vivido. Deixa que a natureza te viva. Sê nela como a flor à tona de água ou a folha suspirada pelo vento. Não sejas tu. Seja a natureza. Morre-te continuamente na alma universal.
O sentido da natureza é Deus.
Sonha com o teu corpo todo.

(...)
O que te aconselho é o que te faço. Digo-te a minha vida. Não vivo em Deus, vivo Deus. "
E mais adiante:
"Progresso? vida social? para que é preciso tudo isso? São coisas que uma vez começadas, se não podem acabar. São nisso como a mentira. A felicidade era em nunca ter separado humanidade da natureza. Uma vez separada, a felicidade já não pode estar num regresso. A cruz não se pode depor. Tem de ser levada até o Calvário".
Nascido há dez mil anos atrás, como diria Raul, o Mendigo viu essa coisa toda de Adão, eva maçã, suor no pão que se come e lágrima e chuva, do dilúvio, arca, os passarinhos, o mar vermelho se abrindo para nós e se fechando pros egícpios, davi, filho de davi, paixão e cruz. E nos vê a cada um de nós e a todos, vê com olhos de vento e outros milagres discretos. Vê compassivo nossos enredamentos, os enredos, as duas máscaras do teatro, as ilusões que vão ficando verdadeiras em densidade que se acumula como a mentira que já não se pode deter, a bola de neve, o regresso impossível.
-Unzuhause-

terça-feira, janeiro 29, 2013

mística e violência do desejo

  O debilóide que usa de violência "em nome do amor" contra uma mulher, além de burro, mentiroso, covarde e coitado, é cego ao que o erotismo por si só tem de sublimemente violento. Masculino e feminino (pólos de todo relacionamento, homo, hetero, autossexual) são nomes de gladiadores em eterno combate, em luta por poder, cobiça pelo "objeto" do desejo. A diferença em relação ao debilóide é que o hobbesianismo sexual sadio propicia prazer (e dor) em liberdade para os dois lados. Erra também o debilóide oposto, o da ternurinha e cantada "fofa". A mulher amada que não é objeto, que não é alvo, vira irmã. Ótimo para a mística ascética, mas não para a mística do desejo.
-Unzuhause-

magia sexualis


"O homem comum, que não tem qualquer domínio de seu mental, torna-se escravo de imagens e pensamentos que tomam sua mente e passam por seu cérebro como uma turba enfurecida", dispara Paschal Beverly Randolph, mago norte-americano, conselheiro espiritual do Presidente Lincoln, grande influência sobre ocultistas como Crowley, embora inimigo jurado de Madame Blavatsky. O comentário está num dos capítulos de "Magia Sexualis" -sim, o sexo entendido, ou melhor, sentido (o entendimento é muitas vezes tão brocha e tão pouco bruxo) como ritual mágico mais importante. Eu, depois de anos circulando em torno de bibliografia esotérica, cada vez mais percebo o que Freud dizia e eu tanto resistia: o espiritual como sublimação do sexual. Estive sempre à procura do sexual ao bater nessas portas esquisitas de gurus do comércio da magia. Queria o "grande" sexo, sem Aids nem gravidez. Porra, pra que camisa de Vênus se Vênus despida me dá tanto tesão? Queria a Mulher ideal. Isso deve ter me atrasado uns vinte anos. Tô começando tudo de novo, aos trinta e cinco minutos do grande jogo, marco que justamente corresponde à virada para o segundo tempo da vida, mais outonal do que primaveril. Mas minhas angústias foram sempre de crepúsculo, alegrias de um perturbado pela loucura de ser. Mas sobrecarregado de expectativas em demasia, a magia não podia fluir. Nem o sexo. Tampouco a a magia sexual, verdadeira magia para céticos, pagãos, mundanos, desiludidos de quimeras. Trepar é bom demais, talvez seja tudo o que possamos querer de mais sagrado. Trepar com os outros, trepar com a vida, trepar com a linguagem, que é a poesia e o teatro segundo Shakespeare . Trepar, subir, ver, e descer do outro lado do muro do medo. E ante a paisagem enfim revelada, não mais meramente imaginada, sucumbir de fato ao que o medo tanto me "realizava" me impedindo e postergando, um delicioso e nu orgasmo de bye-bye e silêncio .
-Unzuhause-

sociologia da tragédia


Publicado em O Estado de S. Paulo [Caderno Metrópole],
28/01/2013

O pânico de Santa Maria
●●● José de Souza Martins*

Há no Brasil um elenco de tragédias decorrentes de pânico em recintos fechados, com numerosas vítimas fatais. Ficou na memória popular o caso ocorrido em 1938, numa matinê no Cine Oberdan, no bairro do Brás. Alguém gritou “fogo!” Os que estavam no balcão dispararam em direção às saídas. Trinta e uma pessoas morreram esmagadas, crianças na maior parte. Numa tarde de domingo de dezembro de 1961, um incêndio criminoso no Gran Circus Norte-Americano, em Niteroi, matou mais de 500 pessoas, 70% crianças. O caso de Santa Maria é um caso de pânico em recinto desprovido de meios adequados à atenuação de suas conseqüências mais graves. As vítimas tentaram escapar, mas não encontraram a saída.
O pânico é característico da sociedade moderna porque a multidão é dela praticamente constitutiva. É uma sociedade que frequentemente se expressa como corpo coletivo em grandes aglomerações humanas, temporárias, que atenuam ou anulam a competência para a reflexão individual e a decisão pessoal. Cada um se torna dependente do comportamento dos outros, comportamento por contágio.
O caso paradigmático de pânico foi o do Mercury Theatre, um programa radiofônico de Orson Welles, na noite de Halloween de 1938, que transmitia uma dramatização da obra de H. G. Wells, A Guerra dos Mundos. Para imprimir realismo à apresentação, o programa foi interrompido com a transmissão de uma notícia extraordinária: marcianos estavam desembarcando em diferentes pontos do país. Segundo o estudo clássico de Hadley Cantril, The Invasion of Mars, milhares de pessoas foram atingidas pelo pavor.
O comportamento coletivo é tendencialmente irracional, provocado por fator geralmente repentino, como uma faísca, uma explosão, um grito, uma falsa notícia alarmante, em situações sociais em que as referências estáveis de conduta, que são as normais e corriqueiras, não operam plenamente. As pessoas estão cercadas, predominantemente, por desconhecidos e os códigos de conduta são em boa parte improvisados no momento, de reciprocidades meramente reativas. Quando um começa a correr, todos correm, mesmo sem saber o motivo. É essa característica sociológica do comportamento coletivo que impõe a prudência e a providência de que as situações de multidão sejam regulamentadas e condicionadas por marcos e instrumentos de referência de conduta e de segurança em situação de emergência: saídas largas e em número proporcional ao público presente, extintores de incêndio, especialistas em orientação de multidão, iluminação, etc. São os lembretes das normas sociais interiorizadas, que essas situações invariavelmente colocam entre parênteses. O caso de Santa Maria, pelas informações até agora disponíveis, sugere que o alto índice de mortes foi agravado pela falta desses cuidados.
Quando do pânico decorrem mortes, as pessoas surpreendidas nos trajes, nos atos, no cenário e na circunstância “impróprios para morrer”, numa cultura funerária como a nossa, tradicional, que pressupõe a morte em família, as sequelas sociais são imensas. Cria-se a situação culturalmente anômala do ausente que não chega, do filho que não volta. A espera passa a regular a vida da família, numa sociedade em que já não há lugar para esperar.

* José de Souza Martins é sociólogo e Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP.


segunda-feira, janeiro 28, 2013

paciência de Hokusaki


Muitas vezes ouvimos falar em "paciência de Jó", mas confesso que vejo em Jó tudo, menos esse carneiro pacato do estereótipo. Querem um verdadeiro protótipo de paciência, mas em sentido virtuoso e viril, quer dizer, espiritual? Melhor que venha então deste pintor japonês, e sua linda concepção do tempo lento exigido para a formação do Artista.
Nosso cotidiano, de frenesi, compra, venda e vida valendo tão pouco, torna impossível essa relação com o tempo, portanto , conosco. Nossa substância é feita não de átomos e vazio, mas de sonhos e de tempo. Assim se faz e se desfaz o Eu cambiante e sempre o mesmo, em dialética bem retratada pelo direito que o Artista oriental se dá de trocar de nome como se muda a folhinha das estações.
A profundidade que se perde na alma faz o tempo encolher como shorts na lavanderia, o tempo fica sendo um resto imprestável e exíguo mesmo que se arraste por cem longos anos. Mas o que para épocas e homens menos desumanos era realidade real (ou possibilidade dela), que para nós possa ao menos ser realidade de símbolo; senão a Lua mesma, o dedo que aponta para ela.
"Desde seis anos, tenho mania de desenhar as formas das coisas. Aos cinquenta anos, eu tinha publicado uma infinidade de desenhos, mas nada do que fiz antes dos setenta anos vale a pena. Foi aos setenta e três que compreendi mais ou menos a estrutura da verdadeira natureza dos animais, das árvores, das plantas, dos pássaros, dos peixes e dos insetos.

Consequentemente, quando eu tiver oitenta anos, terei progredido ainda mais; aos noventa, penetrarei no mistério das coisas. Com cem anos, serei um artista maravilhoso. E quando eu tiver cento e dez, tudo o que eu criar: um ponto, uma linha, tudo será vivo.

Peço aos que viverem tanto quanto u que vejam como cumpro minha palavra.

(Escrito na idade de setenta e cinco anos por mim, outrora Hokusaki, hoje Gwakio Rojin, o velho louco pelo desenho).

tragédias, infortúnios da Fortuna - a incontrolável das gentes



O Fortuna
-Carl Off, Carmina Burana-
O fortuna,
Velut luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis;
Vita detestabilis
Nunc obdurat
Et tunc curat
Ludo mentis aciem,
Egestatem,
Potestatem
Dissolvit ut glaciem.
Sors immanis
Et inanis,
Rota tu volubilis
Status malus,
Vana salus
Semper dissolubilis,
Obumbrata
Et velata
Michi quoque niteris,
Nunc per ludum
Dorsum nudum
Fero tui sceleris.
Sors salutis sorte,
Et virtutis
Michi nunc contraria,
Est affectus
Et defectus
Semper in angaria;
Hac in hora
Sine mora
Corde pulsum tangite,
Quod per sortem
Sternit fortem
Mecum omnes plangite.
Oh, fortuna,
Variável como o
Estado da lua,
Sempre crescendo
Ou decrescendo;
Vida detestável

Agora oprime

Depois alivia

Brinca com o desejos das mentes,

Pobreza,

Poder
Dissolves como gelo.

Destino monstruoso

E vazio,

Tu, roda volúvel,

és malevolente,

Bondade em vão

Que sempre leva a nada,

Obscura

E velada

Também me amaldiçoaste;

Agora - por diversão -

Trago o dorso nu

à tua vilania.

O destino da saúde

E virtude

Me é contrário,

Dás

E tiras

Sempre escravizando;

Então agora
Sem demora
Tange essa corda vibrante;
Já que o destino
Extermina o forte,

Chorais todos comigo.


Sartre, Faulkner, felicidade e magreza


"Pessoas precisam de problemas - alguma pequena frustração para aguçar o espírito. Artistas são assim; eu não estou dizendo que você precisa viver no buraco de um rato ou na sarjeta, mas você precisa aprender a ter constância, persistência. Somente os vegetais são felizes."
-William Faulkner-
A citação do grande Faulkner foi um presente da RedEscuta Psicanálise, de que tenho o prazer do convívio no Facebook. Vem muito ao encontro de uma questão tão importante dos dias atuais: o valor da infelicidade quando tudo  e todos nos exigem o contrário dela. Ser feliz, assim como ser magro, se tornou questão de vergonha na cara. Nada contra ambos, sobretudo nada contra a magreza, que graças a Deus me está voltando, como testemunham minhas roupas, os olhares, os elogios alheios. Um conhecido chegou a me perguntar se "tô tomando alguma coisa", por estar visivelmente mais sarado. É porque me quero sarado e saudável que não tô tomando nada, a não ser vergonha na cara de ver que a comida em excesso e a preguiça são desrespeitos ao corpo.. segundo o meu código pessoal de ética, que sempre foi "atl-ética". Mas longe de mim querer impor valores, discordo de Sartre quando ele diz que, a cada vez que escolhemos um jeito de sermos humanos, estamos automaticamente comunicando e querendo obrigar todo mundo a ser desse jeito. Não! É perfeitamente possível escolher, e escolher a si mesmo, sem com isso cair na ilusão virtual do unanimismo (que concordo que exista enquanto possível expectativa, mas ilusória, claro, e não obrigatória para o próprio sujeito diante do espelho).
Por isso recuso a tirania da "felicidade". Primeiro pela variabilidade de suas definições. Segundo porque, não importa com a definamos, não se preocupe, a realidade tratará de nos desacatar, a de-finição é a também ilusória aspiração de de-finir, dar um fim ou finalidade, a um real que por excelência me parece (digo como cético que tem impressões, não dogmas), infinito. Sem fim nem finalidade. Magia do Kaos! Não que eu também queira exaltar a infelicidade por si mesma. Resta o caminho duro e comprido de honrar nosso desejo. Se só os vegetais são felizes, ao menos parte do meu deixar de ser infeliz, emagrecendo, vem justamente do prazer de comer vegetais..
-Unzuhause-


barco pouco pra mar tão revolto

domingo, janeiro 27, 2013

A Mãe aos Pés da Cruz


Se um dia eu for para o hospício, ator assim frustrado (como todo louco o é), certamente meu personagem preferido será alguém entre o Deus-homem dos cristãos ou o Homem-Deus de Nietzsche. Isso se os dois não são um só, pois no Cristo antevejo o Übermensch, assim como Zaratustra é irreconhecível sem os paralelos bíblicos. Um estranho mas crucial ponto em comum é a glorificação do sofrimento, num caso e noutro. Provavelmente Nietzsche seria apenas mais um medíocre acadêmico se não fosse o eleito do demônio das doenças e das frustrações sentimentais; na Gaia Ciência o vemos explicitamente falar da sua doença como vivência iniciática do autêntico amante da autêntica Sofia. E Cristo, então?
Minha paixão por Cristo não podia ficar sem o testemunho da paixão de Cristo segundo Mel Gibson. Finalmente assisti ao polêmico filme, com séculos de atraso. Sim, com séculos, pois o filme parece, até porque falado no aramaico original, literalmente se passar na horas fatídicos da agonia que revolucionou a história da humanidade e que nos define até hoje: quem se pode dizer suficientemente "imune" aos efeitos do cristianismo, que me atire a primeira pedra quando declaro meu amor por este personagem formidável..
O filme foi muito criticado pelo suposto excesso de sofrimento e violência (o homem moderno lida mal com o Mal, como se, homem maduro e liberado que ele é, a "idade das trevas" não lhe dissesse respeito, e tivesse ficado para trás). Quanto a mim, o que mais me tocou, e realmente levou às lágrimas, foi o olhar da Mãe . Uma maravilhosa Virgem Maria, toda de negro, e de alva tez macia e de olhos profundos. Não distingo em relação a ela o que teria de ternura de filho e tesão de homem. Como toda boa mãe na fábula freudiana. Desabei ante a cena que sobrepõe o flashback da mãe correndo preocupada pra cuidar do filhote que apenas tropeçou, ao tempo presente, em que Cristo trucidado cai sob o peso da cruz. Maria crispada das mesmos chicotadas e socos e pontapés e cuspes que fisicamente era seu filho que padecia, mas que metafisicamente somos nós todos que sofremos -e cometemos. Somos esses monstros e esses anjos, Deus e o Diabo em guerra eterna dentro de nós. A semelhança da figura demoníaca com a Virgem, no filme, também me chamou a atenção. Arquetipicamente, a Mãe é a Potência que nos engendra e nos devora. Força de Vida e de Morte. A nossa mãe aos pés da cruz: imagem terrível e sublime do instante crítico de vida e de morte em que a individuação nos arranca em definitivo da ilusão de um mundo materno e de um Pai protetor. Os deuses nos abandonaram, grita na hora absurda (Fernando Pessoa) o jovem herói crucificado.
-Unzuhause-

o punhal da sombra


Uma provação muito forte pra mim não eliminar da consciência imagens que me remetam a expectativas frustradas, a mentiras acreditadas, ao bizarro mais inesperado. Amigos, torçam por mim, pra que eu não caia de novo nessa tentação, porque quando faço essas "limpezas", quase sempre me descubro mais pobre no final. Lidar com a Sombra (nossa imagem invertida e degradada, o galã de academia que se descobre apunhalado no íntimo pelo nojento careca barbudo) não é coisa pra ficar só nos meus fichamentos junguianos, porra!
-Unzuhause-


sábado, janeiro 26, 2013

amor, burn-out e a sabedoria de Sileno


Palma de Ouro do Festival de Cannes, além de outros prêmios importantes na Europa e EUA, a caminho do Oscar, "Amor" de Michael Haneke tem entre seus grandes méritos, como diz um crítico do New York Times, mostrar, "como que pela primeira vez, como os mais tristes e intratáveis factos da vida podem ser transformados em arte”. 
Um casal de octogenários tem a vida subitamente transformada pelo AVC da esposa, Anne, encarnada espetacularmente pela atriz Emmanuelle Riva. Se o tempo até então fora um declive sensível, porém suave, em relação aos dias glamourosos de um casal sofisticado de professores de música erudita em Paris, o evento fatídico tinge de horror e infortúnio o cotidiano de limitações físicas e humilhações morais que vai se impondo dia após dia.
É no mínimo de uma pretensão temerária que Haneke escolha esse tipo de título, genérico e de abrangência colossal como seria a "morte", a "humanidade", a "vida". Mas me parece que o desafio é brilhantemente vencido justamente devido ao particularismo concreto da situação que observamos quase como num laboratório sádico, o da câmera e o da elegante mansão a que somos voyeuristicamente chamados para contemplar o quão cruel a velhice pode ser para com nossos (fictícios, isto é, imaginados e construídos por nós mesmos) "direitos humanos".
Ou seja, ao universalismo abstrato do tema, temos uma resposta contundente mas particular e concreta -receita quase infalível para que a obra singular se converta em poderosa alegoria ou símbolo de algo geral. E se essa senda de leitura é possível, a alegoria que desponta nos lança para junto das tantas ameaças e fragilidades do que de mais forte e belo há na condição humana, a ficção (real) de amar. O risco da indiferença, da incompreensão, a ambivalência do amor e do ódio. Tédio, traição, morte, em suma, as tantas patologias do tempo. Que na doença grave se manifestam com perversidade especial na qualidade de torturadora caprichosa, lenta, gradual e inclemente. O tempo está na raiz da invenção das mitologias e religiões e astrologias (vide a sátira ao horóscopo de jornal, em dado momento do filme), essas tentativas de "medicalização" (antes dos prozacs) da tristeza radical de nos sabermos cativos da Fortuna (acaso, "sorte"), esta deusa amoral que o capitalista ironicamente tomou para batizar seu objeto de desejo, acumular "fortuna", quando metafisicamente é a Fortuna que nos acumula, nos empilha e descarta como cadáveres gastos após nos manipular (mais ou menos tiranicamente, segundo a "virtú" de cada um de nós) e nos arrancar violentamente do parque de diversões e de monstruosidades em que nos fez pass(e)ar  de modo tão fugaz.
O filme também toca, no âmago da trama -isso me ocorreu mas não devo me estender a respeito, quem viu o filme sabe por quê- na questão do "burn-out", termo técnico cada vez mais em voga para se falar em estados extremos de estresse, em especial dos profissionais da área de saúde. 
Mas isso já muito no concreto da situação; alegoricamente, como propusemos, "Amor" tem alcance muito, mas muito mais extenso: tão vasto como a tragédia de viver, o "inconveniente de haver nascido" (Cioran), a dor que fez Sileno, justo o mais sábio dos discípulos do deus do vinho e do prazer,  afirmar que a melhor coisa que nos poderia ocorrer é que nós não tivéssemos ocorrido (não nascer), e a segunda melhor, que deixemos de ocorrer o mais rapidamente possível.
-Unzuhause-

amor entre céu e inferno



Volto depois para tecer "breves palavras" sobre o "Amor" segundo Haneke, e sua visão de um casamento literalmente entre o céu e o inferno. Breves palavras: adoro esta forma que uma certa amiga tem de introduzir opiniões, no caso dela, invariavelmente bombásticas, não no meu! rs; ela se serve assim de um paradoxo entre forma e conteúdo similar ao das cartas de São João, em que a expressão enganosamente tenra "filhinhos" é só a senha para pesadas reprimendas e "correções" que o Apóstolo que Jesus Amou dirige a seus filhos na jovem fé. Por ora, gostaria de compartilhar esse trecho do amor nupcial entre céu e inferno na poesia de William Blake.
-Unzuhause-

PROVÉRBIOS DO INFERNO
-In: Blake, W., O Casamento de Céu e Inferno-

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
O verme partido perdoa ao arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.
A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.
Nenhum pássaro se eleva muito, se eleva com as próprias asas.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a glória de Deus. A fúria do leão é a sabedoria de Deus. A nudez da mulher é a obra de Deus.
O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam. As tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O sorridente tolo egoísta e melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que ejam flagelos.
O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dizei sempre o que pensa, e o homem torpe te evitará.
Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade. A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.
Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.
Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Da água estagnada espera veneno.
Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.
Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!
Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.
O fraco na coragem é forte na esperteza.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa. Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.
Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.
A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.
Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma florzinha é o labor de séculos.
A maldição aperta. A benção afrouxa.
O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.
A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.
A Exuberância é a Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.
O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.
Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.
Onde o homem não está a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.
É suficiente! Ou Basta.

amorte


Já que falei em amor, o destino quis que poucos instantes depois eu reencontrasse outra questão obsessiva, a morte. A derrocada iminente de todas as formas, precariedade, impermanência. juventude que um dia passará, por instinto da natureza, mas que poderá sobreviver ao relógio na vontade de auto-reinvenção pessoal, a casca, a cobra, permanente impermanência. O corpo também como arena de todos os perigos, como que a "Sombra" do Cisne Branco, a fantasmagoria agressiva que se levanta para atacar a dançarina no espelho, exigindo o nascimento ou despertar da latência do Cisne Negro, no lindo filme com Natalie Portman. Outra imagem, essa da literatura, que me obceca: Byron bebendo vinho numa caveira diante da amante, antes dos versos e dos beijos, numa abadia em ruínas. Imagem sublimemente gótica -e o nome de todo sublime pra mim é meio que gótico- dos grandes paradoxos que precisarei conciliar (precisa mesmo "happy end"?), se quiser novamente amar. Pois ante o encontro romântico sinto tremores e temores como os que sentia, de criança, ante a igreja aqui de casa, digo, vizinha, a igreja de meu batismo, da qual eu passava ao lado tendo calafrios que calam frio como o vento de algum mistério mortal. Mas as igrejas e cemitérios podem ser também a força de mistérios de Eros, e Cristo pode ser também um dioniso. Morrendo de medo de viver, mas é live for love, como na camiseta da menina na Paulista hoje à tarde.  Tempo perdido e reencontrado. Legião!
-Unzuhause-

sexta-feira, janeiro 25, 2013

no fronti-hospício do inferno


"A Autoridade Interior lhe permite superar sua timidez inicial, especialmente perto de pessoas em quem você tem um interesse romântico. Muitas pssoas que têm muito a oferecer num relacionamento nunca se dão a chance de fazer parte de um - conhecer alguém é assustador demais. As pessoas que conseguem mais oportunidades de se conectar romanticamente não são necessariamente as que seriam os melhores parceiros; são aquelas que mais se expõem (Barry Michels)

Se Dante colocava no fronti-hospício do inferno o "Deixai toda esperança ó vós que entrais", as palavras deste psicólogo norte-americano, formado em Harvard e terapeuta, ao que consta, de várias celebridades de Hollywood, dessas que alimentam nossos sonhos românticos, mas que, como bons atores (já fui um), devem ser personagens dificílimos na vida real; o que Michels diz na citação acima, retomo o fio da meada, bem poderia constar num hipotético cartão de apresentação às avessas, sobre mim e meus, se não infernos, ao menos purgatórios do afeto: cheio de amor pra dar e receber, mas me desperdiçando seja em contatos banais, seja em nervosismo, tensão, excitação misturada com profunda insegurança, calando o que teria de melhor a oferecer, ou melhor, a ser, pois somos sempre em situação (Sartre), e cada relacionamento é uma nova forma de nos tornarmos o que sempre fomos.
-Unzuhause-

quinta-feira, janeiro 24, 2013

para candidatos a loser


duas formas de se tornar seríssimo candidato a loser na vida, segundo bela fórmula de um dos gurus do coaching: assumir riscos idiotas (aqueles totalmente desproporcionais ao lucro de baixo nível que se pode esperar de determinada decisão) e não assumir risco nenhum.
-Unzuhause-


terça-feira, janeiro 22, 2013

Lord Byron, vinho na caveira e pelos pubianos


O que para almas demasiado delicadas ou de auto-estima  mutilada seria uma ferida de morte, para ele era uma força a mais. Coxo, Byron fazia da impossibilidade para a dança mais um dos atrativos pelos quais enlouquecia as mulheres da época. Fazia da deficiência pretexto discreto para a postura e olhar ligeiramente ausentes, em perfeita sintonia com os dizeres lacônicos, nos salões da aristocracia britânica dos anos 1810; sua aura gótica, espelhada nos livros, mas haurida da experiência, sua tez pálida, ainda mais realçada pelas vestes tão negras como sua alma e sua visão da vida e da morte, e a sensação de que velava pecados inconfessáveis; sua aparência diabolicamente bela, sua conexão com as pulsões profundas do Ser, para além das ridículas limitações e convenções sociais. Tudo nele contribuía para o que ele se tornou, na obra de arte que soube fazer de sua vida de conquistador inveterado e cruel: um fenômeno arquetípico, antecipatório de desrepressão de tantas jovens esposas "respeitáveis", isto é, "bem"casadas e encalacradas no papel frustrante de fantoches da boa sociedade. Em sua abadia particular, trocou beijos entre recitação de versos com a esposa do melhor amigo, depois de deixar-se surpreender por ela tomando vinho em um cálice improvisado (caveira humana); outra dama, depois de gostosamente "pervertida" por ele, mas enfim desprezada, chegou às raias da loucura, na perseguição infatigável ao ex-amante; dela recebeu a então tradicional oferenda de cacho de cabelos, só que, neste caso, do púbis. Insânias só comparáveis talvez ao que só mais de um século depois, não a sisuda aristocracia inglesa, mas nossa sociedade do espetáculo e de massas, testemunharia nos shows de histeria das fãs de ídolos do rock e do cinema..
-Unzuhause-

A Inês
-Lord Byron-
Não me sorrias à sombria fronte,
Ai! sorrir eu não posso novamente:
Que o céu afaste o que tu chorarias
E em vão talvez chorasses, tão somente.

E perguntas que dor trago secreta,
A roer minha alegria e juventude?
E em vão procuras conhecer-me a angústia
Que nem tu tornarias menos rude?

Não é o amor, não é nem mesmo o ódio,
Nem de baixa ambição honras perdidas,
Que me fazem opor-me ao meu estado
E evadir-me das coisas mais queridas.

De tudo o que eu encontro, escuto, ou vejo,
É esse tédio que deriva, e quanto!
Não, a Beleza não me dá prazer,
Teus olhos para mim mal têm encanto.

Esta tristeza imóvel e sem fim
É a do judeu errante e fabuloso
Que não verá além da sepultura
E em vida não terá nenhum repouso.

Que exilado - de si pode fugir?
Mesmo nas zonas mais e mais distantes,
Sempre me caça a praga da existência,
O Pensamento, que é um demônio, antes.

Mas os outros parecem transportar-se
De prazer e, o que eu deixo, apreciar;
Possam sempre sonhar com esses arroubos
E como acordo nunca despertar!

Por muitos climas o meu fado é ir-me,
Ir-se com um recordar amaldiçoado;
Meu consolo é saber que ocorra embora
O que ocorrer, o pior já me foi dado.

Qual foi esse pior? Não me perguntes,
Não pesquises por que é que consterno!
Sorri! não sofras risco em desvendar
O coração de um homem: dentro é o Inferno.

para ouvir Dostoiévski: Rachmaninov- divine liturgy- Our Father - Отче наш


Recebo por email presente do amigo querido José de Souza Martins, mestre maior de meus tempos de sociologia na USP. Música para acompanhar um romance de Dostoiévski, de preferência a epopéia de Aliocha Karamazov, herói de uma coragem de santidade que já me fez devanear de verdade o desejo de ser sacerdote ortodoxo - não fossem a sensualidade e o desespero dos seus irmãos e minhas e de tantos de nós, órfãos do Sentido, na polifonia labiríntica e infernal da alma moderna!, a me prender ainda e tanto à terra.
-Unzuhause-





segunda-feira, janeiro 21, 2013

holocausto da velhice e a virtú do niilista


Maratona cinéfila desde sexta, dia, como hoje, das horas intensivas de curso de história do cinema do Espaço Itaú (eterno Espaço Unibanco..); e entre ambas as aulas, também no meu "temenos" alquímico sagrado de tantas obras-primas, lágrimas, risos, pipocas e beijos, dois filmaços. Sábado, "Amor", de Haneke, sobre os horrores de lento holocausto pessoal que a velhice pode nos reservar. E ontem, menos badalado -o Unibanco tem um frisson característico em torno do grande "evento" da vez, e a vez é de "Amor"-, mas ainda mais prazeroso, para mim: "A Negociação",em que, ao lado da sempre maravilhosa Susan Sarandon, temos um  sórdido,  profundo, fantástico, e tão cinicamente capitalista Richard Gere, encarnando uma grande individualidade e uma persona social que, em si, me atrai cada vez mais como forma moderna não tanto de virtude, mas de virtú, esta ética épica do herói de si mesmo que é o gladiador niilista das arenas do mercado e nas lutas contra um tempo também ele indócil quando não cruel.
-Unzuhause-


domingo, janeiro 20, 2013

teria Lou fugido do casamento com ele por medo?


"Quem poderá fugir se, preso a ti,
sentiu o peso do teu grave olhar?

Nunca fugirei se tu me prenderes,

Não posso acreditar que só destróis!

Deves visitar, eu sei, tudo o que vive,
Nada se subtrai, na terra, às tuas garras;
A vida sem ti seria bela. No entanto
Também a ti vale a pena viver-te".

"A Mágoa",
poema de Lou Salomé a Friedrich Nietzsche

sexta-feira, janeiro 18, 2013

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Bernardinho, TCC e a Mandala da Excelência

Lendo o "Transformando Suor em Ouro", de Bernardinho, a gente entende a genialidade por detrás do sucesso da seleção masculina de vôlei na última década. Mas também os fatores do evidente desgaste deste projeto antes vitorioso, e que começou a titubear não só, mas também, nos resultados dos últimos anos. Trata-se de uma filosofia de choque, que dificilmente é mansa o bastante como a de um Zé Roberto para ir pelas beiradas e abocanhar títulos inesperados.
Bernardinho, ao meu ver o maior técnico brasileiro de todos os tempos, em todas as modalidades, é um monstro, no ótimo sentido da palavra -ao menos para mim, em euforia, de fora, com suas mordidas na bola, gritos, porradas verbais- e no péssimo também, imagino, para muitos dos soldados, digo, dos jogadores comandados por este general, ops, técnico, perfeccionista e obsessivo. A analogia militar não é gratuita: sabemos o quanto o positivismo de Comte -criador da palavra "sociologia"-, com seu lema da "ordem e progresso", teve especial acolhida, no Brasil, nas Forças Armadas. E no livro vemos o quanto ela inspira as diretrizes filosóficas do trabalho de Bernardinho, que faz explícitas referências comteanas. São insistentes os apelos dele por uma "consciência coletiva" que, sabemos, é conceito essencial na sociologia de Durkheim, continuador direto de Comte: a aposta numa espécie de entidade psíquica, ou melhor, moral, que é suprapessoal, independente, anterior, exterior a todos nós indivíduos e nos molda segundo seus arquétipos. Passível de ser estudada em seus próprios termos, o que legitimava a própria existência da sociologia e seu crescente espaço acadêmico a partir da virada para o século XX. Bernardinho não explicita esses refinamentos teóricos, mas os põe em prática num viés de construção da consciência coletiva, isto é, do "ego team", acima das vaidades individuais.
Na ilustração acima, temos o pilar conceitual de todo o livro, isso que ele chama de a "Roda da Excelência", exemplo (sem que o técnico saiba, aparentemente) do arquétipo junguiano da Mandala. Reparem na reta inferior, denominada "planejamento": quintessência da racionalidade científica que os positivistas sonhavam como paradigma da reforma social, ela é o terreno em que a roda do coletivo, sob a batuta do "coach" (aquele que dirigia a carruagem no Velho Oeste americano) se dirige até o estrelato à direita (sem conotações ideológicas, hein? rs) , isto é, não o estrelismo, mas o brilho da glória.

Um dos pensamentos que mais gosto no livro é de que a vontade de treinar tem que ser maior que a de vencer. Pois que direito temos de supor que nossa vontade de vencer é maior que a do adversário? Ganhar querem todos. O diferencial estará na dedicação ao trabalho preparatório, treino exaustivo, segundo os diferentes requisitos mencionados, como a disciplina e os hábitos "positivos" de trabalho. E aqui o positivismo desliza da matriz sociológica para a da chamada psicologia positiva, de matriz cognitivo-comportamental, voltada à erradicação dos negativismos, vícios etc que atrapalham a alta performance. O sucesso empresarial deste livro, e de Bernardinho como "coach", não são por acaso. São muitas as analogias, de fato, entre esporte e guerra, esporte e política, esporte e competição em geral.
Quanto a mim, redescubro meus antigos pendores liberais (que, depois da desilusão collorida, foram temperados de social-democracia) por este viés da individualidade forte, da qual pressinto analogias evidentes na liderança encarnada por Bernardinho, mas também na Roda, ou Mandala, enquanto metáfora de desenvolvimento pessoal. Minha crise atual com a psicanálise, e "tentação TCC", também se disseminam nesse contexto: sempre fui religiosamente aficcionado da ideia de alta performance, de esforço, de superação das limitações, de caminhar rumo a objetivos claros. E começo a notar na dinâmica da TCC mais similaridade com esses aspectos; a proverbial "demora" ou, como dizem, falta de agilidade, do tratamento analítico começou a me incomodar demais, a coisa toda é muito parlamentar (é parlar e parlar e parlar), no trato com nossa realidade psíquica, nossos fantasmas, nossos desejos. Minha vocação "política", por assim dizer, é mais executiva.
-Unzuhause-

Lacrimas Profundere - Ave End



Let us to your heart now

Let us to your soul
Deeper deeper deeper
But it's over and out
Oh let me finish it

And when it all ends
I touch you
And when it all ends
I give you all

Be mine and be higher

And swallow all you need

And we will die for us

For that time it is gone

I hate you my dear

Faster faster faster

Shall I beg for you not
But what else can I do

And when it all ends

I touch you

And when it all ends

I give you all

Be mine and be higher

And swallow all you need

And we will die for us

I have you in my heart now

Let a tear for our end

Sooner sooner sooner

Let us beg for us

terça-feira, janeiro 15, 2013

indigência simbólica


Claaaro que depois daquela propaganda que fiz (post anterior) do livro do junguiano James Hollis, eu mesmo me senti seduzido a devorar suas ideias sobre a condição masculina na sociedade (talvez) pós-patriarcal que desponta no horizonte. Com a vivacidade típica de sua escrita (e de sua fala também, acompanhei palestra dele aqui em SP anos atrás e fiquei muito impactado), ele comenta o que, articulando Jung e Heidegger, poderíamos chamar de a "indigência simbólica" da vida moderna, a falta de ritos capazes de preparar o indivíduo para as grandes crises, etapas e tarefas de sua jornada de vida, para as horas críticas de confronto com o desconhecido, a dinâmica permanente de morte e renascimento, a aventura de transformação da existência e de fazer alma até nos momentos e lugares mais ermos de uma vida que não é para amadores, mas para os que a amem com devoção e seriedade. Ritos que conectassem o indivíduo à sua própria interioridade profunda, fazendo do "conhece-te a ti mesmo" um desafio precioso, parte do grande drama sagrado em que homem, mundo e deuses se entrelaçavam quando era ainda possível vida simbólica substancial, provedora do ardil (instrumentos, recursos, experiência, narrativas compartilhadas) para o acasalamento com a penúria do viver - lembro aqui ardil e penúria como o par platônico gerador do divino Eros, o motor dos sóis, dos ceús, do sangue, da seiva, e de tudo o que é vivo, agregador, arco entesado da tensão essencial cuja flecha fálica é teofórica (portadora do deus) em sua reafirmação da masculinidade a cada novo neófito da tribo. Masculinidade que Adler, aliás, parece considerar um movimento segundo na ordem da sexuação, um "protesto" contra a feminilidade radical de tudo que é nossa matriz.
Ritos de passagem da puberdade me relembram que estamos em dias de vestibular. Símbolos, isto é, reservas nucleares de energia anímica, perpassam todos os saberes, não só nas ciências humanas (quais não o são?), mas da biologia à matemática, física e química, mas o que deles nos sobram são meras "for-mulas" em manuais de assassinato de almas, digo, apostilas de cursinhos de vestibular, esse grande momento de coroar (em coroa de espinhos) os horrores de um processo de escolarização primária, na maioria dos casos, insosso, vazio e burraldo.
-Unzuhause-


segunda-feira, janeiro 14, 2013

o sexo frágil


Gosto demais deste analista pós-junguiano. Seu Os Pantanais da Alma me ajudou muito numa hora crítica, e agora topo aqui nas minhas estantes com um outro livro de leitura urgente para todos quantos nos sentimos confusos e perdidos nesta nova era matriarcal, segundo alguns.
-Unzuhause-


OS OITO SEGREDOS QUE OS HOMENS CARREGAM

1. A vida dos homens é tão governada por expectativas restritivas com relação ao papel que devem desempenhar quanto a vida das mulheres

2. A vida dos homens é basicamente governada pelo medo

3. O poder do feminino é imenso na organização psíquica dos homens
4. Os homens conluiam-se numa conspiração de silêncio cujo objetivo é reprimir sua verdade emocional

5. O ferimento é necessário porque os homens precisam abandonar a Mãe e transcender o complexo materno

6. A alma dos homens é violenta porque suas almas foram violadas

7. Todo homem carrega consigo profundo anseio pelo seu pai e pelos seus Pais tribais
8. Para que os homens fiquem curados, precisam ativar dentro de si o que não receberam do exterior

James Hollis,
Sob a Sombra de Saturno - A Ferida e a Cura dos Homens

Nirvana - Milk It



I am my own parasite
I don't need a host to live
We feed off of each other
We can share our endorphins
Doll steak!
Test Meat!
Look on the bright side, suicide
Lost eyesight I'm on your side
Angel left wing, right wing, broken wing
Lack of iron and/or sleeping
I own my own pet virus
I get to pet and name her
Her milk is my shit
My shit is her milk
Test meat!
Doll steak!
Look on the bright side, suicide
Lost eyesight I'm on your side
Angel left wing, right wing, broken wing
Lack of iron and/or sleeping
Doll steak!
Test meat!
Look on the bright side, suicide
Lost eyesight I'm on your side
Angel left wing, right wing, broken wing
Lack of iron and/or sleeping
Protector of the kennel
Ecto-plasma, Ecto-skeletal
Obituary birthday
Your scent is still here in my place of recovery!

domingo, janeiro 13, 2013

a raposa no buraco


Estou cada vez mais entusiasmado pelo universo do coaching, do marketing, planejamento estratégico, liderança -mais que isso, pelos conceitos que esses saberes podem aportar para uma visão mais pragmática e, por que não, capitalista (mundo em que vivemos) do processo mais amplo da individuação. Claro que é preciso, aqui como em tudo, discernimento do bom e do ruim, mais que do bem e do mal, esta velha cisão moralista que reaparece, por exemplo, no preconceito recíproco entre psicanalistas e cientistas comportamentais. Pra mim esse tipo de fla-flu é bobo e cansativo, prefiro ver o que me serve em cada perspectiva. Nesse espírito gostaria de compartilhar uma história colhida junto a Kurt Mortensen e seu ótimo As Leis do Carisma, livro que acabei de ler hoje.
Uma raposa corria, saltava, brincava lépida e sorridente (sim, não somos os únicos bichos capazes deste magnífico ato espiritual que é o sorriso), aproveitando os últimos dias de outono. Quando saltou por cima de uma cerca, caiu de cabeça num num buraco cavado por um fazendeiro que pretendia construir um poço. Ele não tinha encontrado água suficiente, mas o buraco ficou lá. Tomada de pânico, a raposa saltava sem parar, tentando escapar de sua prisão, mas não conseguia alcançar o topo. Estava ficando cada vez mais cansada e molhada. Uma outra raposa passava por ali, olhou pla beirada e perguntou à primeira o que estava fazendo.
"Oh!", respondeu a raposa no buraco, "Você não está sabendo? Uma grande seca está se aproximando e esta será a única água nessa região. Desça aqui e você será salva", disse, disfarçando a agonia num sorriso agora amarelo.

A segunda raposa pensou na oferta, mas algo lhe parecia errado. Um indivíduo de sua espécie afirmava que queria ajudá-la a salvar sua vida, mas todas as partes do seu corpo a aconselhavam a fugir dali.

"Venha, vamos", disse a raposa presa, "pule aqui e você não morrerá". Ela secretamente planejava subir nas costas da outra para alcançar o topo do poço. A segunda raposa olhou para dentro e falou: "Daqui a pouco vou ficar com você". E saiu correndo, fugindo dos apelos da primeira raposa".
No contexto do livro, a historinha visa a ilustrar o fato de gatilhos subconscientes serem determinantes para gostarmos ou não de uma pessoa. As palavras da raposa queriam dizer uma coisa, mas seu "buraco" a fazia dizer outra, com o corpo, o olhar, o sorriso amarelo. Daí o pressentimento de perigo e fuga por parte da segunda raposa. Se ao menos tivesse sido sincera no apelo por ajuda, a raposa no buraco teria tido maior chance de ser ajudada, mostrando maior congruência de sua fala com o conjunto de seu comportamento.
Gostaria porém de desenvolver uma dimensão específica de leitura. Nosso carisma, isto é, energia interior e capacidade de motivar os outros a quererem fazer o que queremos delas, é severamente prejudicado quando somos reféns de "buracos" anímicos desta ordem.  Dificilmente atrairemos pessoas ou relacionamentos de alto nível se quisermos falar (ou melhor, "pedir", ou mesmo mendigar, mediocridade oposta ao poder de influência dos carismáticos) a partir deste lugar de sofrimento, medo e insegurança. Penúria e ardil, segundo Platão, são os pais do divino Eros. Não se ama -tanto em sentido romântico quanto nos outros tantos- se não se tem em si certa incompletude, falta, buraco. Mas a fábula parece indicar uma variante pervertida dessa dinâmica, quando a falta fica viúva da potência, e assim se enfeia, se enruga, se engorda, se degrada em mera carência, impotência, passividade que delega ao outro a salvação que não vem senão de dentro para fora, do buraco para a luz. Quando a falta se enviuva da potência, fica impossível gerar Amor.
-Unzuhause-

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Baudelaire, psicanálise e o sofrimento do sucesso



Segue-se um trecho de entrevista maravilhoso, em que o psicanalista Jorge Forbes comenta o mal-estar inerente ao sucesso - conceito que na sua raiz embute a ideia de "queda", extravio em relação ao nível médio dos losers mais ou menos mansos ou ressentidos.  Sofremos não apenas para "chegar lá", nem apenas para nos mantermos lá: sofremos porque este lá, este "topo", se é que podemos cair para cima, é um lugar sagrado, ou seja, ambivalente: venerado mas isolado, admirado em si mas invejado na sua personificação pelos poucos que lá chegaram, se destacaram e nos deixaram para trás. Daí a solidão e a incompreensão. Baudelaire retrata, no célebre poema "Albatroz",  essa dinâmica humana universal em termos de uma religiosidade estética: o Poeta como "Cristo"- gênio-solitário cuja nobreza é parte da razão e do próprio instrumento de sua destruição. Um alerta em prol da atitude de nos responsabilizarmos por nós mesmos, pela dor não só de perder, essa é mais óbvia, mas também pela dor de vencer. Como diz o provérbio, não entreguemos nossas pérolas aos porcos, nao só à "turba" externa, da gente mesquinha, mas à nossa própria massa interna (o que é interno sem ser também externo?) de afetos desorganizados, carências, complexos, fraquezas, lodo fervente apesar do qual, contra o qual e pelo qual é possível a travessia e a proeza, a caminhada individual do sopé ao cume da montanha, ou melhor, da planície ao "infra-mundo" da glória (se o sucesso é mais da ordem do profundo que da altura) nas grandes tarefas e desejos da existência.
-Unzuhause- 

O Albatroz
-Charles Baudelaire-
Tradução de Ivan Junqueira


Às vezes, por prazer, os homens da equipagem

Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,

O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,

O monarca do azul, canhestro e envergonhado,

Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,

As asas em que fulge um branco imaculado.


Antes tão belo, como é feio na desgraça

Esse viajante agora flácido e acanhado!

Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,

Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!


O Poeta se compara ao próncipe da altura

Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;

Exilado no chão, em meio à turba obscura,

As asas de gigante impedem-no de andar.



terça-feira, janeiro 08, 2013

Narciso e o bom selvagem


Ducha de Narciso passar a tarde entre lordes e madames da classe A no Studio W das celebridades e ainda sair aliviado por não ter a temida calvície me esperando para abocanhar por debaixo dos caracois de meus cabelos. 
Quem disse que nós trabalhadores do pensamento estamos a salvo das vaidades e veleidades da "vida comum" ? Termo aqui empregado no sentido que aprendi do professor Porchat, grande mestre do ceticismo, esta visão de mundo libertadora ao reconduzir nosso olhar para rente das realidades vividas, compartilhadas por todos, sem hierarquia de mestres e asnos, de doutores e "gente comum", sem presunção de meta-explicações totalizantes que mais existem na cabeça do intelectual que nas próprias coisas.
Até porque ainda resta a barba por tirar, saí bem parecido com meu pai, de quem lembro pouco, além da virilidade e beleza meio que selvagem devidamente transmitidas (sim, a modéstia é meu forte rs) e que a mãe superintelectual talvez, com meu consentimento, tenha ajudado a ficar meio em segundo plano, torturadas pela angústia (esse afeto pouco prevalente entre os bons selvagens), eclipsadas pela luminosidade assexualizante da persona de estudante exemplar e filho pródigo, crostas dominantes a não ser nas horas, que precisam ser muitas, numa vida saudável, em que fazemos coisas que nossa mãe não deveria saber nem dar pitaco.

-Unzuhause-

guitarra imaginária

Me sonhei com aquela guitarra imaginária das baladas nos anos 90, você já viu ou foi algum adoleta assim, quando eu era "o Nirvana" do colégio Objetivo; estava "tocando" Come as You Are, mas em plena Livraria Cultura dos meus 2000 em diante: ...os tempos e lugares misturados de nosso sonhar. Será para celebrar este dia de me despedir -talvez para sempre, se apavorante calvície um dia me atacar- do cabelão comprido de roqueiro inspirado na paixão por Kurt e por Cristo, que eu também encarnei em fé no mesmo ano (1993) em que virei o Nirvana do Objetivo?
-Unzuhause-

segunda-feira, janeiro 07, 2013

a quênose de Anne Hathaway


‎"Um Dia".. ahhh que filme, ahhh que delícia de Anne Hathaway, tão espetacular que é capaz da humildade de artista (quênose, na teologia) de se esvaziar de algo do seu esplendor de divindade e dar vida a uma moça graciosa mas desajeitada, inteligente porém engolida, assim como seus sonhos de poetisa, pela cidade grande e seus pães insossos e pela solidão e seus dentes caninos. E o alento da poética conexão com o homem da sua vida, apenas amigo, amizade apaixonada que se transmuta e se reafirma, nem que pela distância e ausência, a cada ano, por vinte anos, sempre num mesmo místico dia, até que, um dia.. ahh que música.. ahh que vida apaixonantemente trágica, bela e cruel.
-Unzuhause-




escrita, ilusão e carência

Recorde de visualizações neste blog Unzuhause, num único dia: 163. Descontando as minhas próprias -dia chato pra cacete me acentua ainda mais a dependência química de gozar de minhas letras-, devem ser umas 150 de visitantes, o que muito me alegra. Todo aquele que mexe com a escrita tem algo anormalmente grande no quesito carência, não necessariamente a ponto de ter arrepios românticos ao ser eleito o alvo da vez pelos hare krishna ou pelos caras de colete azul da unicef ou de colete branco dos médicos sem fronteira espalhados num vasto corredor polonês ao longo da calçada da Paulista. Carência mais visceral, insuficiente adaptação ao mundo, coração que não cabe em si e em nada do que está dado, degradando as asas do devaneio em fardo da melancolia, sufocação que só deixa a fresta da "ilusão" sem futuro da palavra, freudianamente falando: ilusão alucinatória, como a dos sonhos, das religiões. Fruição antecipada do ainda ou do já ou do para sempre impossível.
-Unzuhause-

Tales e a Queda filosofal



 Diógenes Laércio inicia sua célebre "Vida e Doutrina dos Filósofos Ilustres" com Tales de Mileto (c. 624-546 a. C). O quanto há de histórico e o quanto há de "apenas" lendário nessa coletânea de biografias sobre os grandes homens do pensamento antigo, está ainda aberto a discussão. Mas anedotas como esta aqui parecem pairar acima dessas dicotomias, têm um gênero de verdade que nos toca, a nós, admiradores a qualquer tempo da Sabedoria, Sofia desejada, difícil de alcançar, tanto quanto as estrelas, que queremos entender sem sequer sabermos nos haver com o chão.
"Dizem que, certa feita, quando uma velha senhora o tirou de casa para que pudesse observar as estrelas, ele caiu num fosso, e seu grito por socorro fê-lo obter da senhora a resposta: 'Como podes almejar saber tudo sobre o céu, Tales, quando sequer consegues ver o que está diante de teus pés'."

Como diz a amiga Roberta comentando este post no facebook, a historia ''é bem provável', já que "filosofos são sempre os mesmos, ontem e hoje" . A narrativa sobre algo que nos parece o mesmo ontem e agora é da ordem do mito, mais que mera lenda ou da história: mito como por exemplo a queda de Adao, fato fatídico na origem de alguma realidade essencial do cosmos, da vida, do homem. A "queda" de Tales seria o pecado original da filosofia. Em termos gregos, mais trágicos que moralistas, a "hamartía", errar o alvo. Fracasso em se libertar da decadência ontologica geral do ser humano, segundo Heidegger: o estado de dispersão e falatório, a mediocridade da vida rotineira, de que o intelecto teórico, ao tentar se livrar via abstrações celestiais, acaba por ser a presa mais patética. Antes da Pedra, é preciso se haver com a Queda filosofal.
-Unzuhause-

domingo, janeiro 06, 2013

terapia do Rocky




hahahaha lembrando aqui de quanto essa música e imagens embalaram minhas primeiras preocupações, de criança já encucada -de papo cabeça ou aborrecida, ou ambos- com questões de motivação, superação, eye of the tiger, desenvolvimento pessoal, a recusa ética e quase religiosa de ser um loser -fracassado sistemático e conformado, diferente da pessoa que erra e vive fracassos.  Confesso que tenho redespertado pra essas mesmas preocupações, como diz Faustão, "no pessoal e no profissional". Paradoxal, pra quem vem de tantos anos de prática e estudo no mundo da psicanálise. Psicanálise, uma maravilha como erudição e auto-conhecimento, mas quero outras ferramentas de empoderamento do indivíduo para o boxe, ou atualizando, pro MMA, que não é mesma coisa que vale-tudo, no óctogonon diuturno da existência.
-Unzuhause-

noite sádica

 
Nervos à flor da pele madrugada adentro devido a um capuccino que tomei fora de hora e que por sua vez me tomou o sempre difícil relaxamento para o sono. Intranquilo, dedilho as teclas do remoto controle e ele me oferece canais evangélicos (não falo mal deles, como não falo mal de religião alguma), que dessa vez não conseguem "santificar" os espíritos, como que crianças indomáveis que os pais cercam de penumbra, silêncios ou historinhas pra que peguem no sono. Casados, por esta noite, eu e a insônia latente não damos conta dos diabinhos que querem é acordar e zoar. Ligo o abajur e me volto então, sem silêncio nem escuro possíveis, para historinhas, das minhas: livros de filosofia. A leitura regular tem sido sobre a vida de Nietzsche, meu filósofo de maior paixão, mas que amo também e sobretudo nas encruzilhadas de sua vida e doutrina. Fica mais claro a este olhar o quanto o filósofo do poder falava de domínio, saúde, vitória, não por conhecimento de causa, mas por inveja do que lhe faltava miseravelmente. Mas o sono segue longe. Os diabretes querem mais. Até porque a identificação demasiado forte com a tragédia de Nietzsche está longe de ser sonífero eficaz. Tento, por afinidade, outro tipo de leitura, mais acadêmica, sobre Nietzsche também. Fico enervado por motivos banais, tipo o cara passar a chamar "Assim Falou Zaratustra" -tema central do estudo- simplesmente de "Za", a partir da segunda menção. Nomes sagrados pedem reverência e estranhamento, mesmo se objetivamente haja sentido em abreviar uma citação que se repetirá muito. Que não se repita tanto, não ao menos da maneira burocrática de tanto trabalho acadêmico. Acho que no fundo senti, e me doeu como um erro de português que risca o vidro da janela, o abismo entre o Nietzsche do "Za" e meu Friedrich atormentado, adoentado, morrendo de vontade de viver. Acorro enfim ao divino Marquês de Sade. Com ele os diabretes se entendem, o sono se concilia, e posso enfim sonhar os sonhos a viver quando o novo dia raiar.
-Unzuhause-