Thursday, February 28, 2013

Jung e o theatrum mundi


Vi o "Jung e Eu" de Sergio Britto no Sesc Belenzinho, anos atrás, e fiquei deveras impressionado com a semelhança que ele atingiu, física e animicamente, com o mestre suíço. Foi um de seus últimos trabalhos; e o saudoso ator nos deixou -em texto que aparece como introdução na edição de 2006 das "Memórias, Sonhos, Reflexões"- um bonito testemunho dessa experiência. Mostra como, ao nos aproximarmos de um autor como Jung, "ler" é um exercício importante, mas insuficiente. Jung é para ser vivido, mais que simplesmente lido e, pior ainda, repetido.
Sou quase calvinista nesse ponto, não bastassem as várias afinidades que nutro com a revolta protestante que preludia a individualidade moderna e o espírito do capitalismo (Weber): há que haver uma espécie de predestinação a ser junguiano, uma eleição que não tem a ver com QI, diplomas ou afetações eruditas em geral, mas com uma sintonia de corações. A gente não apenas lê, a gente "se" lê pelos prismas de Jung.
Antes mesmo de demonstrações do intelecto, vivemos os assentimentos da intuição. E os assentamentos do espírito em zazen, recolhido em si mesmo, no escuro e ínfimo do quarto do sermos eus, como pedrinhas caleidoscópicas que se somam mas que são mais que a soma das partes como os eus em Deus. Nunca tive "emoção de lidar" (Nise da Silveira) mais potente, no silêncio meditante ou na sarabanda dos ditos e desditas e dizeres que me dizem a mim e ao mundo, do que através do ateliê de mitos conceituais de Jung. Sergio também tece por afinidades existenciais o subtexto que lhe permitiu tamanho êxito em seu "Jung e Eu". Destacaria, por exemplo, como pra ele Jung tinha razão em discordar do pansexualismo de Freud. E Sergio sempre esteve bem longe de meras razões de recato moral ou (pra lembrar o filme famoso de Polanski) de "repulsa ao sexo" ao a-ssentir com a crítica de Jung à teimosia de Freud em só ver sexo na libido, redefinida por Jung como energia psíquica em geral. E é aqui que Sergio introduz uma bela reflexão sobre o que para ele significava o trabalho de ator -metáfora, para mim, do trabalho de existir, no theatrum mundi que nos cerca e nos constitui:
"Por mais que eu tenha sido o ser humano altamente sensual/sexual, minha libido maior, aquela que dominou minha vida acima de tudo, foi minha carreira artística, especialmente a do ator teatral. Encontro no realizar teatral, na procura interna de meu personagem de cada nova peça, um jogo espiritual altamente prazeroso, e no ato de criar um ser novo que não sendo mais eu, e sim alguém que criei dentro de mim, a libido que realiza um orgasmo acima de todos que experimentei em toda a minha vida sexual amorosa".
-Unzuhause-

Wednesday, February 27, 2013

a TCC do Oriente?


"O que importa é partir definitivamente, de algum lugar, o mais cedo possível - Agora. No momento em que se dá esta partida, forças começam a juntar-se em torno do eixo do emprendimento e impelem o aspirante para a sua meta, lentamente, a princípio, mas com velocidade crescente, até que ele esteja tão absorto na persecução de seu ideal que o tempo e a distância deixam de importar-lhe. E, um dia, ele descobre que atingiu seu objetivo, e olha pra trás com uma espécie de admiração, para a longa e tediosa viagem que completou no reino do tempo, embora durante todo o tempo ele estivesse vivendo no eterno"
I. K. Taimni, A Ciência do Yoga
Com esta citação inicio um equivalente para o yoga do exercício, ano passado, do "diário de uma formação analítica". Fascinado, mais do que outrora, pela tensão entre psicanálise e TCC, tendo entre ambos o ponto intermédio chamado Jung -e o yoga-, meu motor de propulsão tem, como sempre, a forma de um ponto de interrogação, já que deixo as respostas e disputas para outrem, habito o deserto e o (nada) sereno da dúvida criadora e amizades improváveis, loucas mas sem a camisa de força impotente do ecletismo: o Yoga -programa de transformação pessoal de pensamento, palavra, ação, existência-, uma sagrada terapia cognitivo-comportamental dos mestres do Oriente?
-Unzuhause-

teoria da dependência


Ficar na dependência dos outros te fazerem feliz ou te corresponderem em sua expectativa de que algo faça sentido nesta zorra é táo produtivo quanto o cara, na tirinha do Dilbert, perguntar ao Dogberto o segredo do êxito na vida. O Dogberto, interessadíssimo em que outro se dê bem, e dotado da profunda sabedoria que somente anos de análise são capazes de nos trazer, 
lhe revela o caminho das pedras: "Durma com um pote de gelatina na cama. Ajuste o despertador para acordar você a cada duas horas. Quando ele tocar, enfie a cabeça no pote e berre: 'Rapaz, como estou cansado!'"

-Unzuhause-

Sunday, February 24, 2013

o sinalizador de si

Ahhh Corinthians.. talvez a melhor fase da nossa história, em taças na estante e seriedade de autocondução. E eis que pula ao palco,embriagado de orgulho escoteiro por sinalizar ao mundo e tornar crível para si próprio sua existência vil, um  imbecil pra ceifar uma vida inocente, nos manchar de sangue, nos matar de vergonha. Merda!
-Unzuhause-

Saturday, February 23, 2013

"Sempre ao Seu Lado"



Me lembro de sair deste filme sob o impacto da maior arapuca emocional da minha vida. Talvez não tenha chorado tantos litros nunca, e apenas esperava por um filme fofo sobre cachorrinho e com o talento magistral de Richard Gere. Foi um blecaute da razão, uma humilhação para a máxima superegoico-patriarcal de outrora de que homem não chora. Ah, chora, ah como chorei. me lembro de tentar articular palavras, fazer sentido, e tudo fazia era apenas água, chuva de verão paulistana de lágrima, no telefone com minha mãe, na saída do então Cine Bombril. Vinha desprevenido porque excessivamente feliz (a felicidade será sempre um excesso?) de uma aula de música da querida Helena Carreras, e esperava acrescentar mais um inocente lazer ao prazer das lições de Helenita sobre nossos atormentados Beethovens, Wagners. Mas não. Inocente nunca sou, e a tragédia de novo a me puxar pra si num amplexo de volúpia por minha alma conturbada e romanticamente predisposta para a dor e para o amor. A pureza do animal, a bondade "punida", o laço de amizade despedaçado pela crueldade da morte, a fidelidade eterna.
Pois bem, me pus à prova hoje nesse filme-arapuca, uns dois anos depois daquela dor inesquecível. Em casa, portanto sem grande parte da feitiçaria toda própria à sala de cinema. E já escaldado, depois de várias vezes ter me furtado a esse reencontro.  E na batalha pela serenidade estoica ante o trágico, perdi de novo. Ou ganhei, vai saber. Porque nada como as lágrimas para limpar as retinas e desimpedi-las para a vida, para a morte e, acima de ambas, para o amor . :)
-Unzuhause-


Resenhas para a Folha - 23/02/2013


Folha de S. Paulo
Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
Caio Liudvik

V.I.S.H.N.U.
"Sempre que a Lei é esquecida, sempre que prevalece a anarquia, eu me encarno. Retorno a cada era; para os justos libertar; para os maus destruir, Para estabelecer a Lei". Esta passagem do clássico "Bhagavad-Gita" dá voz a Krishna, um dos avatares do deus Vishnu, que na trindade hindu corresponde ao aspecto "Preservador" da Divindade, ao lado de Brahma (Criador) e Shiva (Destruidor).

Esse aspecto salvacionista da mitologia da Índia imprime uma fresta de raio solar ao sombrio panorama distópico dessa fantástica graphic novel. V. I.S.H.N.U. é uma espécie de inteligência artificial autônoma, que se rebela contra seus pretensos controladores e remete ao conceito junguiano de "Self", de inspiração indiana. O que para Jung é individuação equivaleria a uma variante da revolução da consciência que V.I.S.H.N.U dissemina numa música de efeitos neohippies sobre a população, num futuro "distante" do nosso, amordaçada por uma elite obscurantista que tentará de tudo para impedir esta "ameaça" de paz.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO


CINE BIJOU

Quem, como os leitores desta Folha, é testemunha há décadas do talento de Marcelo Coelho pode até estranhar. Mas ele já teve inseguranças sobre si. Isto é, já foi adolescente. Dos maiores críticos que temos, ele também padeceu do fardo de ser um grande auto-crítico, o que provavelmente segue sendo (afinal, ser autocrítico é uma preciosa virtude dos inteligentes).

E o cinema teve um papel essencial para o tenso "happy end" desse drama de menino: ver filmes inteligentes era o que o fazia se descobrir inteligente. É dessa gratidão, além de ironia, pimentas eróticas e "cositas" mais, que se faz o enredo delicioso de "Cine Bijou". O livro resgata a memória afetiva e autobiográfica de um adolescente dos anos 70 e sua "formação" num dos espaços de singular resistência cultural, em pleno centro de São Paulo nos anos de chumbo da ditadura. Lá se conseguiam frestas de escape do ambiente de censura contra a política, contra a sexualidade, contra a grande arte, contra a vida. As ilustrações de Caco Galhardo acrescentam charme, evocando cartazes de clássicos como "Laranja Mecânica", "O Último Tango em Paris" e "Morte em Veneza".
AVALIAÇÃO –ÓTIMO


O GATO XADREZ

"Era uma vez um gato xadrez". A conhecida rima foi o mote desta saborosa historinha infanto-juvenil de Isa Mara Lando, com ilustrações vibrantes de Tatiana Paiva. Isa se pôs a imaginar as peripécias de um gato "se fosse realmente xadrez...depois listrado... e de vários jeitos, até encontrar o próprio estilo". Ele vai pulando de um lado para outro, tomando sustos, se perguntando sobre seu próprio corpo, buscando soluções intermediárias, radicalizando no branco, voltando atrás de novo. Vai assim se experimentando, se pondo nas provas e dor de adolescer , entre os muitos ruídos em que, para nos achar, nos perdemos, até descobrirmos os trajes e acordes imprecisos da música de se tornar quem se é.

AVALIAÇÃO – BOM

O HOMEM DE ÁGUA E SUA FONTE

Ser diferente causa repulsa, escandaliza, dá vontade (por vezes na própria vítima de um auto-bullying) de chamar alguém para prender ou "consertar". Polícia, balde ou encanador. Eis-nos assim mergulhando na fábula lírica do italiano Ivo Rosati. A historinha infanto-juvenil, com belas ilustrações de Gabriel Pacheco, conta a trajetória de um "homem feito de água" (todos nós o somos, geográfica e biologicamente). Além de alto, ele é "transparente e cristalino" (isso nem todo mundo, ou não o tempo todo, tem o privilégio de poder dizer que é). E sofre porque a gente de bem, de carne e osso, quiçá de pedra, o via como um estorvo ou ameaça. Ele porém "deixava-se lamber pelos cães, enchia as garrafas vazias dos notívagos e sedentos". A metáfora de Jesus como fonte de água viva vai-se insinuando até um ponto de explicitação ("Senhor, por favor, dê-me de beber"), até que um novo contratempo –um chamado das origens- vem transtornar de novo o provisório apaziguamento.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO


SÃO PAULO DE TODAS AS SOMBRAS

Afinal, existe amor em São Paulo? A pergunta definitivamente "pegou", não importa a resposta que cada um proponha. E pegou por razões que este belíssimo livro ajuda a entender. Com fotos de Lucia Guanaes e Marc Dumas, e pequenos contos de Diógenes Moura, "São Paulo de Todas as Sombras" é uma imersão original no que a metrópole tem de mais aparentemente banal: sua gente, os passantes nas ruas lotadas de poluição e solidão.

Publicado também em Paris –onde vivem os dois fotógrafos-, o livro nos convida a caminhar com sua câmera pelos arredores do centro, do marco zero de São Paulo – ou mais simbolicamente, de seu grau zero, sua escritura viva despida da correria esfuziante e barulhenta. O olhar devolvido ao "que acontece quando nada acontece, fora o passar do tempo, das pessoas, carros e nuvens, como dizia o escritor francês Georges Perec". Mais que denúncia social da pobreza ou opressão, a proposta parece mais a de contemplação de nós mesmos nos apuros do desejo, do conforto e do medo com que vamos duelando com o monstro-metrópole a cada dia, estejamos na Praça da Sé, Largo Santa Ifigênia ou Vila Madalena: perna feminina provocante, sociabilidade dos bares, homens sozinhos e sérios ao lado de estátuas ou cartazes eleitorais sorridentes, mendigos, drogas.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

Friday, February 22, 2013

chuva e chupa e uva e lua da flexibilidade


‎"Na sua boca eu viro fruta
Chupa que é de uva"
Descobri essa música, na voz doce e suingada e sexy de Lua Reis, num pocket show hoje à noite na Fnac.. quem disse que a monstrinha das 4 (chuvas de verão dos meios de tarde em SP, pros íntimos rs) não tem seus prêmios para "mentes de principiante", no sentido dos mestres zen: gente que cultive a "felixibilidade" suficiente pra desaprender as velhas insistências, condicionamentos mentais, pra se guiar pela novidade que brota do vazio e da falha do planejado, pra aceitar a borrasca, mudar de ideia, parar na Fnac ao invés de se encharcar da vontade de chegar à Livraria Cultura, em suma, se deixar surpreender? Ainda mais por uma sereia maviosa com nome de Lua, a Mestra da Impermanência, não a Monstra do Caos, que é no fundo nossas próprias mentes turvas e impermeáveis como o duro asfalto?
-Unzuhause-

˜Los ojos de Julia˜




Eles se conheceram numa excursão ao deserto do Saara. À noite, ante o esplendor das estrelas, ela confessou que nunca seus olhos lhe haviam propiciado regalo tão exuberante. Deram-se as mãos, mas ela notou que ele não olhava mais para o céu, senão para ela. Ela perguntou por quê. Ele disse que já não precisava olhar para o céu, pois olhando para os seus olhos, estava vendo todo o universo.
Esse é um dos respiros de poesia entre os temores e terrores com que nos subjuga este excelente suspense "Ojos de Julia". A eterna dialética de luz e sombra paira e estrutura texto e imagem, até pelo fato de o filme contar um drama de cegueira, efeito de doença degenerativa que ataca duas irmãs gêmeas; nos induz, ao acabar de vê-lo, a ansiedade e pressa de não desperdiçar o frágil e fugaz piscar de olhos que nos dá e toma de volta a beleza e a vida.

-Unzuhause-

Wednesday, February 20, 2013

gratidão


Queridos e queridas, meus abraços com alegria e gratidão a todos e cada um de vocês, por tanto carinho comigo nesse aniversário. Nas minhas viagens à roda de meu quarto, ando às voltas com um delicioso livro chamado "Pequeno Tratado de Vida Interior", de Frédéric Lenoir, ed. Objetiva. E lá colho uma citação do filósofo estoico Epiteto, no espírito da qual ofereço em prece, por mim e por todos nós, este "ano novo" que se me inicia, com mãos abertas para o céu e dedos entrelaçados com vocês:
"Ergue os olhos para as faculdades que possuis e, tendo-as contemplado, diz: 'Dá-me agora, Zeus, as circunstâncias que quiseres. Tenho o equipamento que me forneceste e os recursos para me orientar através do que acontecer'".
-Unzuhause-

Monday, February 11, 2013

sobre "Django Livre"


Basta pensar nos dois pares antagônicos de "Django Livre", o herói negro com seu libertador branco, de um lado, contra o sinhô branco com o capataz negro, de outro, pra vermos que o corte "ético", no belíssimo filme de Quentin Tarantino, não é simploriamente étnico, passa longe de um maniqueísmo politicamente correto.
Porém é claro -se é que os chatos do politicamente correto não  vão me cobrar que mude essa expressão, de "clara" conotação caucasiana- que há um forte pathos político na remontagem do mito ariano (idolatrado por Hitler) de Siegfried e Brunhilde em pele afro-americana num conflito pré-Guerra da Secessão.
Nesse sentido seria interessante a comparação com o "Orfeu Negro" de Sartre, introdução de 1948 a uma antologia de poetas negros de então. Sartre, bem ao estilo de "Os Condenados da Terra" e outras de suas obras-primas de revolta e solidariedade com etnias, classes e povos subjugados, começa o ensaio dessa maneira explosiva, que vem à mente vendo o Siegfried negro de Tarantino:
"O que esperáveis que acontecesse, quando tirastes a mordaça que tapava estas bocas negras? Que vos entoariam louvores? Estas cabeças que nossos pais haviam dobrado pela força até o chão, pensáveis, quando se reerguessem, que leríeis a adoração em seus olhos? Ei-los de pé, homens que nos olham e faço votos para que sintais como eu a comoção de ser visto". Vale lembrar que em Sartre a dialética de ver e ser visto é uma das dimensões, metafóricas mas não só, do jogo de poder entre os homens: quem vê exerce poder sobre quem é visto, e os negros, de "objeto" visto, passam a sujeitos de sua própria visão, o que para o branco agora "visto" tende a ser uma experiência angustiante, mas não para o intelectual engajado à la Sartre, que é um indivíduo de ética não movida a caridade, sequer à "bondade", mas a justiça, com o que este imperativo  exige de auto-descentramento.
Que magnífico, em Tarantino, ver essa operação numa linguagem estética tão poderosa, não só na apropriação violenta pelo oprimido de um mito opressor, mas no experimento de tempo feito pelo espectador. Eu, sociólogo meio de saco cheio de filmes por demais "sociais", eu, que do Glauber prefiro o jeito como fala e o que pensa, mais do que o que fez, eu, que amo é encontrar o meu eu na arte, eu, que o encontrei e gozei com isto no filme de Tarantino, eu temia em "Django" me arrastar por seis horas internas de tédio, nas três objetivas que a sinopse anunciava. Mas o que vivi foi o tempo literalmente em chamas -horas transmutadas em sequência fulgurante de instantâneos ágeis, versão cinematográfica, política e por que não, erótica (até no tesão que pode haver em vermos a morte de um "injusto"), do kairós, o tempo propício, não-linear, o tempo da ação, do fim do bunda-molismo, tempo do desejo, da luta, do herói, tempo de Siegfried e Orfeu, tempo do mito, tempo de Django.
-Unzuhause-

a renúncia de Bento XVI


Passei boa parte do pontificado de Bento XVI em estado de choque como católico de raízes boffianas. Afinal, pra qualquer fã de Leonardo Boff era muito chocante a cena do "inimigo número 1" da Teologia da Libertação surgindo ao fundo na hora do "habemus papam". Parecia uma crueldade quase desnecessária, de tão frontal. Tapa na cara mesmo. Embora meu analista me recuse esse diagnóstico clínico, sempre considerei, antes mesmo de ter em mãos este rótulo, que minha alma é bipolar; sou fascinado pelos opostos, e não me agradam exclusões brutais, tipo, gosto de Freud "portanto" odeio behaviorismo. Por isso me entristecia o ânimo beligerante sangrando de ideologias inconciliáveis a Igreja, sacramento de salvação e de reecontro das ovelhas perdidas, isto é, da Unidade mística esgarçada pela multiplicidade do real.
Com o tempo, perdi a teima contra Bento. E com o amadurecimento (se é que há algum, para este "puer aeternus" quase irredimível que vos fala), deixo de sentir qualquer prazer revanchista, agora que se noticia a renúncia do papa. Minhas crises com a fé estão mais radicadas na tragédia de Santa Maria do que na política da Santa Sé.  E meu amor por Jesus Cristo também vai além desta ou daquela liderança ou slogan de ocasião .
 Sou católico como sou corintiano e pisciano: identidades fundamentais que estruturam a vida e que vão conosco para o túmulo porque nos sobreviverão, porque nos definiram como sujeito  como a bandeira de time que se costuma colocar sobre o caixão do torcedor. Gostar da Teologia da Libertação é como me orgulhar da "Democracia Corinthiana" dos anos 80, aliás fenômenos contemporâneos, até certo ponto.  Ambos são um "plus" de orgulho, mas não razão sine qua non de amor (e há razão no amor?) para nós aficcionados do Todo-Poderoso (alcunha de Deus e também do Timão rs).
Significantes são o que articulam um sujeito a outros significantes e sujeitos. Pouco importa para o mundo a maneira pessoal como subjetivamos nossos significantes.
E no fundo minhas opiniões sobre muitas coisas (por exemplo, sobre a necessidade de mais seriedade no trato com assuntos como o sexo e o direito à vida) não distam tanto assim das de Bento e da Madre Igreja. Teologia da Libertação? Excelente mitologia moderna, aquece meu coração, mas já não o preenche de sentido, e isso me parece um avanço.
-Unzuhause-

Thursday, February 07, 2013

sobre "O Lado Bom da Vida" (II)


Retomo o fio do fluxo de consciência suscitado por "O Lado Bom da Vida". Como no início do texto anterior, meu ponto de partida será a continuidade do argumento de Verena Kast sobre a força psicológica dos contos de fada, que proponho ser análoga à do cinema. "(...) o conto nos diz que sempre existem caminhos de desenvolvimento, que precisam ser percorridos, para que a necessidade seja transferida, para que o tema oculto da vida possa ser mais ou menos realizado. Porém, essas indicações são formuladas na linguagem do conto, e não numa clara linguagem aconselhadora; no entanto, é exatamente isto que estimula nossa fantasia e faz com que nós encontremos a nós mesmos e que nosso mundo interior possa se expressar".
Por excesso de romantismo, talvez, me sinto encharcado de um senso de que "all you need is love". Amor carnal, amor pelos entes queridos, pelo trabalho, pela vida. E em tudo isso, o amor pelo amor, o amor divino, por (e de) um divino que cada vez mais pressinto numa chave imanente à criação, preservação e destruição cíclicas de todas as coisas, como quer a mitologia hindu. Por isso não concebo que o "tema oculto da vida" seja dissociado da ampliação e concretização da capacidade de amar. Como trilhar essa selva escura, recheada de monstros da paixão triste, e sem beatrizes senão as atrizes e forças motrizes fantasmáticas de meu desejo infinto?
O filme, sem "aconselhar" –mas qual o problema se o fizesse?- indica o caminho: a estratégia! Esse é o termo usado pelo terapeuta de Pat, que certamente não é psicanalista dos tradicionais.. Ele percebe que, para Pat sair do inferno do trauma –sem necessariamente a "cura", mas o convívio construtivo, com seu transtorno-, ele precisa de outra coisa que não falar e falar e falar, às cegas, sobre o que vier à sua mente transtornada. Isso seria meio que tentarmos nos livrar da areia movediça puxando o nosso próprio cabelo. Não, Pat precisa de provas, tarefas, e sobretudo uma estratégia para assimilar o efeito destruidor que a música do casamento (e da traição) tem sobre sua psique, a cada vez que ele a escuta em rádios sádicos de fora ou de dentro da sua própria cabeça. Talvez a própria música ter tocado no chuveiro no dia do chifre já seja um delírio, mas o delírio não se desfaz com conversa fiada, e sim com ação.
E a "estratégia", o terapeuta logo percebe, foi trazida pela sorte grande: Pat conhece a mulher que vai mudar sua vida para sempre, Tiffany. A chamada "complicada e perfeitinha", gostosa, inteligente, mas deprimida desde a morte do marido. Uma "vadia fiel ao marido morto", como a ataca Pat, pois tomou fama de mulher fácil ao descarregar em sexo promíscuo o desamor e desamparo radicais de um casamento que ela continua a carregar consigo no anel de aliança.
Não será por caminhos óbvios, e sim tortuosos como o de toda boa história de amor, que veremos a dança de acasalamento espiritual e físico dos dois "transtornados". Tiffany percebe que precisará, ela própria, de uma "estratégia". Ela sentiu e sentiu que ele sentiu também – o tesão um pelo outro. Mas seu afeto por ele vai além de tesão, e para conquistar seu homem, obcecado também por uma "morte" amorosa não aceita – a do casamento, que ele quer de todo modo refazer, apesar da restrição legal a qualquer abordagem da assustada ex-esposa- não basta oferecer sexo fácil. Será preciso entrar em sua loucura, o que para essa maluquete nata não será exatamente um fardo, mas um jogo com método, em que a quimera de Pat –reconquistar Nikki- será usada como isca para a sedução, termo que expressa a ideia de desvio. Que amor não nos desvia? Somente o chato.
Mas para ser desviado, você precisa estar numa rota anterior, de preferência com força, convicção, com o "lixo" convertido em adereço na corrida para entrar em forma, e com uma mulher em vista, nem que a mulher que nos povoa a todos, como "anima" (Jung), não subjugada ao complexo materno que vige nos grandes transtornos e regressões da alma. Uma mãe pilar de casa, como a de Pat, é particularmente "sedutora" num sentido de não se querer sair nunca de casa. Mas se não é pela vontade, é pela doença, é pelo sofrimento de uma alma que não se expande, que trava, que não lê, não corre, não dança, essas coisas todas que fazem de Pat alvo da deliciosa Tiffany. Ela não é em nenhum momento "prêmio de consolação", ao contrário: o fascínio por ela parece reforçar em Pat o medo de perder definitivamente Natti, que cá pra nós não chega à sola do sapatinho de dançarina de Tiffany, além de ter se comportado, ela sim, como uma vadia, na minha humilde (e machucada, em episódio análogo mas mais "virtual") opinião masculina.
Jennifer Lawrence atua em estado de graça (aliás concorre ao Oscar, como Cooper, como o próprio filme): nos faz rir e nos encanta com sua personalidade forte, as reentrâncias de sua alma complexa, na qual o lado puta não é renegado, embora não mais expresse o que Tiffany quer de si mesma depois que reencontrou o amor. Que não é correspondido quase até o finalizinho, o que me deixava com vontade de pular na cadeira, de indignação com Pat e de vontade de "ser" Pat. Ter aquele pai maluco, também ele: tem rituais de um fanático devoto do TOC (toda doença psíquica é uma devoção mal resolvida) e do seu time de coração. Ter um "terapeuta" daqueles, nem que fora do consultório, diluído nas amizades cotidianas, mas que apontasse com aquela perícia e amor aconselhador os caminhos concretos para "trocar de disco" e ouvir uma outra música que não a dos traumas e automatismos e comportamentos repetitivos. E sobretudo ter uma Tiffany, espevitada, "dançarina", beeem gostosa, com vestes negras de bruxinha de noite do Halloween (como retratado no filme) ou brancas como na noite gloriosa da apresentação, pra trocar tapas e beijos e amassos e dança e cooper e aventura de viver.
-Unzuhause-

Wednesday, February 06, 2013

sobre "O Lado Bom da Vida" (I)


"Nos contos de fadas nós podemos encontrar representados não apenas temas importantes da vida humana, como também desejos inconscientes e, ainda, inspiração sobre os passos de desenvolvimento que poderiam ser necessários para a realização desses temas da vida".
Essa afirmativa tipicamente junguiana de Verena Kast, em seu O Amor nos Contos de Fadas - o Anseio pelo Outro, me ocorreu ontem na saída do cinema, ao pensar no choro da moça sentada ao meu lado, no final de "O Lado Bom da Vida", de David Russell, com os excelentes Bradley Cooper, Jennifer Lawrence e, sempre hors concours, Robert de Niro.
Não se deve, num "jantar inteligente", como diria o filósofo Luiz Felipe Pondé, em que se esteja numa roda de cinéfilos, exagerar nos elogios a essa entidade meio abstrata que chamamos de "cinema americano". A comédia romântica, então, vade retro! Por isso a mocinha ao meu lado, embora eu não a esteja inventando, funciona como válvula de escape para eu burlar qualquer auto-censura "inteligente" e tentar verbalizar as razões de minha atração por esse filme.
A questão é que Hollywood não teria o poder que tem se, para além do poderio industrial, não soubesse mexer em nossos empedernidos corações e mentes. Os roteiristas são leitores ávidos de Freud, Jung, Sartre, pelo menos de bons resumos dessas obras. E, com a força das imagens hipnóticas potencializadas pela escuridão, silêncio e tecnologia do cinema, as historinhas, aparentemente bobas, acabam mesmo calando fundo em nossas psiques, traduzindo e excitando medos e desejos essenciais.
"O Lado Bom da Vida" já no título expressa obviamente um desses desejos: num mundo suficientemente conhecido e sofrido por todos em sua crueldade cotidiana, o que queremos do entretenimento é o direito a um respiro de algo positivo, a um sopro, ao espírito: queremos que o sentido e o afeto, que a alegria, não sejam mera elocubração solitária nossa, mas sim algo "objetivo", "real", algo na tela do mundo, não só nos olhos da alma.
E o filme retrata isso através do drama pessoal de um professor na casa dos 30, Pat Solitano (Bradley Cooper), diagnosticado como portador de distúrbio bipolar. De saída de um sanatório psiquiátrico, ele tenta, à base de uma "filosofia positiva" pessoal, calcada no lema "excelsior!" (para cima!), reconstruir a vida, recuperar o emprego, a casa, Nikki, a mulher, que o trai com um um outro professor, no chuveiro de casa, ao som da música do casamento; o adultério foi a causa do surto que levou à internação de Pat.
Já aqui pressinto o muxoxo do amigo cinéfilo, do tipo ranzinza devoto desses de esperar horas na fila "da Mostra" por um filme iraniano de legenda em chinês. Como, que babaquice, "filosofia positiva"!? Talvez me despeje citações de Lacan para explicar como "os americanos" deturparam a obra de Freud, de como análise não é terapia e de que a Verdade do Homem é a Angústia e a Infelicidade e blablablá. Eles são melhores do que nós porque não querem se ajustar, querem curtir a fossa inteligente. Uma escritora jovem e atraente, mal a abordei outro dia, já veio falando de sua tentativa de suicídio não fazia um mês, e de seu diagnóstico bipolar e etc e tals. Confesso que achei um tesão tudo aquilo na madrugada do primeiro papo, mas no dia seguinte eu já estava de volta a meu Jung, Espinosa, Nietzsche, à turma que acha que a alegria é possível e veraz. Confessei pra ela o quanto acredito que até Schopenhauer esteja a favor de um "eudaimonismo" (estudo e busca da vida feliz, por mais que metafisicamente trágica), e confessei o crime de que é isso que estou buscando, e não me demorar (já gozei demais tudo isso, com razões ou não) no papel de "o inteligente triste". "Um filósofo triste é uma contradição nos termos: se ele é triste é porque não pratica a filosofia ou não compreendeu o que é a sabedoria, logo, não entendeu a verdadeira filosofia. Não está animado pelo amor razoável do bem sensato. Não é, pois, um autêntico filósofo, mas um intelectual sem fé nem alegria, como o são muitas vezes os intelectuais, cortados da sua afectividade e privados da seiva da vida" (Bruno Giuliani, O Amor da Sabedoria - Iniciação à Filosofia).
Logo o papo com a escritora acabou, a atração também, e o vínculo no facebook também.
Primeiro ponto de enorme empatia com Pat, pois, foi este da busca da "filosofia positiva". Um segundo está na devoção aos exercícios físicos como expressão concreta do desejo de reabilitação. Pat, para reaver a esposa. Eu, para conquistar a minha. Se busco o positivo é por sentir o quanto de negativo me assombra, e isso me exige medidas profiláticas, como a de estar o mais bonito de que for capaz a cada idade e circunstância. Pat é muito elogiado no filme pela perda de peso -o que não convence muito se pensarmos que Cooper, esportista até no nome, é um dos mais belos e atléticos astros de Hollywood. Isso por si só gera identificação em mim ou na gordinha que chorou ao meu lado. Estejamos no grau que for na escala da (im)perfeição, seremos sempre incomparáveis aos astros do cinema, e isso nos apaixona por eles, os torna "modelos", alívios da impotência ou, no caso de minha impaciente autocrítica, espinhos na carne me cobrando correr mais, suar mais, fazer até do meu "lixo" adereço da luta pela transformação -Pat corre com saco plástico de lixo sobre o corpo, para maior transpiração e perda mais rápida de quilos. Entre Sócrates infeliz e porco feliz, prefiro ser o Unzuhause magro, qualidade que, graças a Deus, tenho a facilidade de buscar tanto quanto a de perder.
O texto está longo, nem entrei no encontro de Pat com a fantástica Tiffany, então proponho uma pausa no conto de fadas e a retomada quando der.
-Unzuhause-

Tuesday, February 05, 2013

heart contact e o anjo de Zuckerberg


Todo mundo que lida com mundo corporativo, coaching, desenvolvimento pessoal etc já esbarrou alguma vez com o conceito de "eye contact", ou contato visual. Basicamente, se trata de uma das dimensões essenciais da comunicação humana, e portanto do sucesso ou fracasso da pessoa desde os flertes no barzinho até a entrevista de emprego.
Uma linda amiga do Rio de Janeiro -sim, folks, além de linda, ela é carioca, o que já extasiava Tom Jobim..-, em conversa outro dia, contra-atacou com uma expressão brilhante, quando eu mencionei o eye contact , que aliás não apliquei com ela (ainda) porque nossa comunicação é basicamente virtual, ou melhor, espiritual, ela é pra mim um anjo que o demiurgo Mark Zuckerberg deixou que me visitasse no meu purgatório real, um anjo como outros tantos desses disfarçados entre nós com aparência de gente, de sereia, de mel. 
E ela respondeu ao meu eye contact em conceito (ainda não em ato) um certeiro conceito alternativo, de heart contact. Contato do coração, via coração. À minha estética da vida capitalista -que tem no marketing e no coaching os rebentos mais recentes na minha pletora de desejos intelectuais-, o anjo zuckerberguiano trouxe uma outra dimensão, bem mais profunda, por isso mesmo em falta no mercado da atualidade. Heart contact. Que nos deve ser tão congênito quanto o poder do olhar, mas que certamente fica em segundo plano numa civilização cada vez mais (re) calcada em imagens, voyeurismo, exibicionismo, simulacro.
Pensadores do início da história do cinema viam na sétima arte o motor e sintoma de uma nova hegemonia da cultura visual, após séculos de predomínio da palavra escrita. Falavam quase que de uma nova figura antropológica, o "homem visível". Se o invento então precário dos irmãos Lumière (que nome adequado para batizar o império da visibilidade!) teve tamanho poder, que dizer então de nossa situação antropológica na era dos Bill Gates e Zuckerberg?
O coração, afora as figurinhas bobas que o próprio facebook nos dá pra brincar, fica cada vez menos visível na era do totem  totivisível. O amor perde consistência, solidez, é amor líquido, senão mesmo evaporado, no burburinho de eyes e contacts sem coração mas estratégia, barateamento do sexo e da violência, banalização no inumano. E quem não se ajusta a essa ditadura fica condenado à existência fantasmagórica -mas de fantasmas sem glamour, fantasmas de rosto sisudo, marginalizados pelos outros  fantasmas, os de gente sorridente; depois do sorriso doriana das famílias felizes na propaganda de margarina, inventamos a felicidade mentirosa versão 2.0, o sorriso facebook.
Mas o anjo que me falou em heart contact é, ele próprio, comprovação de seu conceito. Nunca te vi, sempre te amei, com coração de irmãos de fé em vontade, no meu caso, e em certeza, no teu, irmãos  de signo e mística de peixes, irmãos que se velam com olhos vendados de luz.
-Unzuhause-

criatura e Criador

Maria Josephina Facciolla Rubino Pedro Donati assim comentou o post q ta bombando no face de mestre Janine Ribeiro, sobre Deus e o Mal. achei de uma sabedoria incrivel.. cada vez mais o anarquismo me seduzindo.
-Unzuhause- 
`meu avô anarquista. Figura fantástica. Ele dizia que o mundo apareceu em 6 dias, e quando o homem apareceu , e viu tudo pronto,sentou-se em uma pedra e disse, Deus, que maravilha! É a Perfeição! É a Beleza !É a Majestade! Mas, eis que uma abelha picou o rosto deste homem. A reação veio de imediato - Diabo de inseto! Coisa ruim! Só carrega dor! E assim o homem acabou por criar Deus e o Diabo no sétimo dia. rsrs`


dúvidas na certeza do amor


papai noel de pascoa e o avestruz

Respeito toda a teodiversidade da imagina'cao humana, o estudo das religioes me acompanha ha muito. minha simpatia tambem pelos evangelicos. como diria Pessoa, nao zombes da religiao, enquanto a criatura humana continua agonizante nas trevas. OK. mas um programa evangelico tentar, com ar serio, um debate sobre Santa Maria apenas pelo vies do "por que brasileiro nao se importa com segurança" (ate acontecer o horror) me soa muito a estrategia de avestruz. PORRA, ONDE ESTAVA DEUS!!!!!!!!!!! PQ SO NA BIBLIA ELE ABRE MAR VERMELHO PARA OS `JUSTOS`e afoga os injustos. e se tudo é culpa do diabo, Deus e no minimo um omisso, senao cumplice..Isso, claro, conversando na linguagem de quem nao simplesmente ri como se alguém aqui estivesse cobrando que o Papai Noel aparecesse na Páscoa.
-Unzuhause-

a solidão sociável


"Quem aqui entra, faz-me uma honra; quem não entra - um prazer".
-F. Nietzsche, A Gaia Ciência-
Dinâmica de solidão sociável altamente recomendável pra quem, como eu, tem dificuldades crônicas para relacionamentos íntimos. Por exemplo, a péssima inclinação a projetar no fulano da esquina modelos perfeitos de pessoa com quem seria bom estar e me livrar quiçá do fardo de, por maior que me queira para o mundo, ser sempre pequeno para mim. Quando o sonho arruína, a dor é tanto maior porque, não é o fulano da esquina que se escafedeu ou se revelou, foi meu ideal que "tragicamente" foi derrotado. Esse excesso de tragédia me irrita, por isso, creio, minha recente empatia com o Nietzsche dito positivista e moralista, da "alegre sabedoria" do meio-dia, ao invés do pesado metafísico do início e do fim.
A solidão sociável admite a abertura para os outros, não os idealizando, mas extrai alegria (aumento de potência e de sabedoria) tanto das afinidades, por um lado, quanto dos desinteresses e desligamentos, por outro, o entrar ou não entrar aqui. Mas não o aqui estático e petrificado. Não há sabedoria sem movimento. Isso é algo que Heráclito transformou na lição eterna (paradoxalmente "imutável") do "panta rei", tudo passa. Mas que está inscrito não só na natureza observada, mas na natureza do observador filosófico. A primeira referência segura à ideia de filosofia está no historiador Heródoto, no relato do encontro do rei de Lídia, Cresus, e Sólon, o legislador ateniense: "Disseram-nos que, porque tendes o gosto da sabedoria (philosopheôn), visitaste muitos países, dado o teu desejo de ver". O "aqui" do filósofo, em sentido geográfico, intelectual e existencial, não pode ser sedentário nem parasita de coisas dadas, autoridades sacrossantas, mentiras confortáveis.

Por isso, descendo dessas estratosferas -adoro esses movimentos bruscos- certifique-se de o "aqui" do seu Eu está tão rico quanto poderia ser, não necessariamente em voltas ao mundo magnatas, mas sim no inconformismo filosófico consigo mesmo, no impulso e ação de se aventurar, e assim se descobrir cosmicamente pequeno por mais que te considerem grande. Pequeno não em sua mediocridade, mas porque é vasto o mundo e a  Alma a que teu pouco corpo e ego pertencem. Assim como o ideal do outro "cai", já não lhe é imposto por nossa ansiedade, tornando possível conviver, sabendo que nunca será em simbiose completa. Melhor assim, em solidão sociável serena quanto a quem entra ou não num aqui que sabes do que é capaz, do que aquele jeito de se considerar "grande" quando te consideram pequeno que é pensar: ah, fulano ou sincrana não me mereciam mesmo..
-Unzuhause-

Sunday, February 03, 2013

se o barco tá afundando, não reze, dê o fora


leio Max Gunther, autor de "Os Axiomas de Zurique", entre muitas gargalhadas sobre minhas próprias estultices juvenis, do tempo em que acreditava que o mundo fazia algum sentido simbólico ou (me) faria alguma "justiça", nem que na vertente de um "inconsciente" freudiano , junguiano, lacaniano ou cacete a quatro. hoje no metrô fui às lágrimas de rir dos exemplos de Gunther sobre os fracassados da cultura da tagarelice, esse fetiche de falar que ele, beeem conservador, recrimina em Freud e na cultura liberal pós-anos 60, pai e mãe de nosso fetiche em "discutir a relação" quando o que tá faltando é tesão. falar compulsivo de nossa ansiedade gera mesmo outra coisa senão mais ansiedade? e da raiva, e do ódio, e da infelicidade? ainda mais quando do lado de lá tá um cara que nos assiste com uma invisível câmera sádica e silenciosa nos ombros . não co-atua, não é solidário. viaja a cada feriado e nos deixa a ver navios. porque o nosso tá afundado. já ouvi de um analista que ser bom analista é garantir que o paciente volte na semana que vem. ah, me poupem. como dos bons esquerdistas, de quem minha espécie de anarco-capitalismo vai me afastando mais e mais, peço perdão dos bons analistas (são muitos), inclusive entre meus amigos.. quem me conhece sabe que discordar de uma pessoa ou ideia é um dos jeitos mais intensos que tenho de me interessar por elas..
-Unzuhause-


http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Axiomas_de_Zurique
Os Axiomas de Zurique é um livro escrito por Max Gunther.
O livro é constituído de 12 axiomas principais mais 16 secundários, que pretendem dar resposta às dúvidas com as quais o especulador pode se deparar. O título refere-se às táticas usadas pelos banqueiros suíços para obter êxito no mundo dos negócios.
Após a Segunda Guerra Mundial, um grupo de banqueiros e empresários suíços resolveram ganhar dinheiro investindo em várias frentes, de ações a imóveis, de mercadorias a moeda.
Eles ganharam muito e se tornaram um dos povos mais ricos do planeta. Neste livro estão as regras infalí­veis que estabeleceram para diminuir os riscos enquanto aumentavam cada vez mais os lucros.
A expressão axioma tem dois significados possíveis, segundo o livro. O filosófico, que define o termo como a premissa imediatamente evidente que se admite como verdadeira sem exigência de demonstração, e o lógico, que define axioma como a proposição que se toma como verdadeira porque dela se podem deduzir as proposições de uma teoria ou de um sistema lógico ou matemático.
As indicações do livro funcionam como o segundo tipo, como dogmas que devem ser seguidos à risca por quem pretende acumular rentabilidade. Neles, o leitor encontrará a chave para investir com sucesso - À moda suiça.
Primeiro Axioma:
 Risco
Preocupação não é doença, mas sinal de saúde. Se você não está preocupado, não está arriscando o bastante.
Primeiro Axioma menor: Só aposte o que valer a pena.
Segundo Axioma menor: Resista à tentação das diversificações.
Conclusão: Não tenha medo de arriscar um pouco. Alto risco significa alto retorno.

 Segundo Axioma: GanânciaRealize o lucro sempre cedo demais.
Terceiro axioma menor: Entre no negócio sabendo quanto quer ganhar. Quando chegar lá, caia fora.
Conclusão: Não teste a sua sorte. Estabeleça uma meta e, ao atingi-la, realize seus lucros.

Terceiro Axioma: EsperançaQuando o barco começar a afundar, não reze. Abandone-o.
Quarto axioma menor: Aceite as pequenas perdas com um sorriso, como fatos da vida. Conte incorrer em várias, enquanto espera um grande ganho.
Conclusão: Se suas especulações andam mal, saia e parta para outra. Saber perder é uma das virtudes de um bom especulador.

Quarto Axioma: PrevisõesO comportamento do ser humano não é previsível. Desconfie de quem afirmar que conhece uma nesga que seja do futuro.
Conclusão: Não baseie suas especulações em previsões e sim no que você vê acontecendo à sua frente.
[editar] Quinto Axioma: PadrõesAté começar a parecer ordem, o caos não é perigoso.
Quinto axioma menor: Cuidado com a armadilha do historiador.

Sexto axioma menor: Cuidado com a ilusão do grafista.
Sétimo axioma menor: Cuidado com a ilusão de correlação e a ilusão de causalidade.
Oitavo axioma menor: Cuidado com a falácia do jogador.
Conclusão: Não se deixe levar pela ilusão de ordem. Não existe um fórmula exata que vá lhe proporcionar sempre ganhos.
Sexto Axioma: MobilidadeEvite lançar raízes. Elas tolhem seus movimentos.

Nono axioma menor: Numa operação que não deu certo, não se deixe apanhar por sentimentos como lealdade ou saudade.
Décimo axioma menor: Jamais hesite em sair de um negócio se algo mais atraente aparecer à sua frente.

Conclusão: Não se deixe prender a sentimentos em suas especulações. Se perceber uma oportunidade melhor, corte suas raízes e siga em frente.

 Sétimo Axioma: Intuição
Só se pode confiar num palpite que possa ser explicado.
Décimo primeiro axioma menor: Jamais confunda palpite com esperança.
Conclusão: Só confie em um palpite se você for capaz de identificar algo que consiga explicá-lo.

Oitavo Axioma: Religião e Ocultismo
É improvável que entre os desígnios de Deus para o Universo se inclua o de fazer você ficar rico.
Décimo segundo axioma menor: Se a astrologia funcionasse, todos os astrólogos seriam ricos.
Décimo terceiro axioma menor: Não é necessário exorcizar uma superstição. Podemos curti-la, desde que ela conheça o seu lugar.
Conclusão: Mantenha o sobrenatural longe de suas especulações. Confie em você e no seu potencial.

Nono Axioma: Otimismo e PessimismoOtimismo significa esperar o melhor, mas confiança significa saber como se lidará com o pior. Jamais faça uma jogada por otimismo apenas.
Conclusão: Um bom especulador possui confiança, não otimismo. A confiança nasce do uso construtivo do pessimismo.
Décimo Axioma: ConsensoFuja da opinião da maioria. Provavelmente está errada.
Décimo quarto axioma menor: Jamais embarque nas especulações da moda. Com freqüência, a melhor hora de se comprar alguma coisa é quando ninguém a quer.
Conclusão: Antes de arriscar seu dinheiro seguindo a opinião da maioria, pondere e avalie por si mesmo se a decisão é acertada ou não.

 Décimo Primeiro Axioma: TeimosiaSe não deu certo da primeira vez, esqueça.
Décimo quinto axioma menor: Jamais tente salvar um mau investimento fazendo "preço médio".
Conclusão: Se sua especulação não está dando o retorno desejado, não seja teimoso, desista. Outras boas oportunidades podem estar a sua volta sem ser notadas..
Décimo Segundo Axioma: PlanejamentoPlanejamentos a longo prazo geram a perigosa crença de que o futuro está sob controle. É importante jamais levar muito a sério os seus planos a longo prazo, nem os de quem quer que seja.
Décimo sexto axioma menor: Fuja de investimentos de longo prazo.
Conclusão: Não planeje investimentos a longo prazo. O mundo dos negócios se modifica a cada dia. O único plano a longo prazo que um especulador precisa ter é o de ficar rico.
[editar] Opiniões sobre o livroDe acordo com o investidor Patrick Blackman, o livro "Axiomas de Zurique" serve como um batismo dos que começam a operar em bolsa. “Sempre que surge um iniciante, todos são unânimes em recomendar a leitura dos axiomas”, afirma.
A recomendação não é a toa. “No meu caso, aprendi a utilizá-los da forma mais dolorosa, sobretudo o axioma da Esperança. Perdi quase 60% do valor de uma operação porque tinha a esperança de que o papel ia voltar ao preço que tinha pago. Até que resolvi liquidar, mas aí já era tarde”, explica Blackman. Desde então, o investidor tem utilizado a regra de forma quase religiosa. “Não tenho mais pena de saltar de uma operação quando percebo que o barco está fazendo água”.
Este axioma prega que “Quando o barco começa a afundar, não reze. "Abandone-o”. Patrick Blackman não é o único a adotar a regra como filosofia na hora de decidir se vale a pena ou não sair de uma aplicação.
O economista Stênio Campos também utiliza a máxima. “Por várias vezes utilizei o axioma da esperança. Não adianta remar contra a maré ou tentar se enganar acreditando que as coisas melhorarão. Isto é ainda mais verdadeiro quando falamos em opções”, reconhece.
Para o analista da consultoria Lopes Filho e Associados, Gustavo Freitas, o livro oferece boas dicas para o investidor de perfil bastante arrojado. “Quando o autor recomenda, por exemplo, que o investidor fuja da diversificação, a aposta é de que o investidor tenha feito um estudo sobre o ativo em questão, que indica forte possibilidade de alta. Nem todo mundo deve deixar de lado a ideia de apostar em diferentes ações para minimizar o risco”, defende.
No entanto, o analista ressalta como pontos positivos do livro a disciplina e a delineação de metas para cada investidor. “Se você acredita que a possibilidade de alta é de 20%, esta é a sua base, o limite ao qual os preços podem ir. Ao chegar lá, é hora de realizar o lucro”, diz.
Considerado uma boa fonte de consulta, o livro é contra-indicado para quem sofre de aversão a riscos altos. Nem por isso, o conservador está condenado a uma existência de penúria.
Gustavo Freitas lembra que em 2003, os conservadores não tiveram do que reclamar. “Estes investidores ganharam muito com dividendos de ações mais tradicionais”, afirma.


Saturday, February 02, 2013

Friday, February 01, 2013

Emmanuelle Riva e os dois tempos do "amour"

Emmanuelle Riva, de assombroso e digno de Oscar desempenho no trágico "Amor", de Haneke, era a jovem "mulher livre", como diz na entrevista a seguir, do lindo e sensualíssimo "Hiroshima Mon Amour", de Resnais, um dos grandes nomes da nouvelle vague. Bobagem insistir num lamento clichê contra o tempo e o que ele cruelmente nos rouba -nesse arco tão dramaticamente figurado pelos dois tempos de "amour" na vida de seus personagens, que poderíamos imaginar serem um só. O tórrido romance de tintas libertinas no primeiro "Amour", no "berço da angústia", sob a sombra da barbárie atômica, e o casamento burguês barbarizado pela doença, no derradeiro "Amour". Melhor que ser triste é ser alegre, é celebrar o gênio humano, o gênio da Arte, doadores da graça que faz Emmanuelle atravessar tão bem esses 54 anos e nos legar imagens imortais da nossa condição sublime e trágica de seres devorados pela paixão e pela morte.


-Unzuhause-

bom dia, fevereiro

Cena final de "Sociedade dos Poetas Mortos"

"Carpe diem" (colhe o dia), o lema clássico sobre o imperativo de viver a vida com intensidade, não importa com quanta extensão, ou quantos fevereiros como este novinho em folha ainda tenhamos pela frente. Quem não se lembra dos meninos subindo nas carteiras do sisudo colégio, em sinal de solidariedade ao demitido professor (Robin Williams) que os iniciara na lição trágica e sublime de que tudo o que nos resta é este instante? Menos crédulos no tempo, fugaz e ilusório como as bolhas de sonho, podemos despertar para a atenção firme e viril ao que a vida nos está dizendo e pedindo e ofertando a cada nova escolha a fazer, a cada novo amor e experiência a que se jogar no cultivo e colheita de cada dia.

A origem da expressão "carpe diem" está nesta ode do poeta romano Horácio:

"Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti

que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,

quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo

poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada

a hora: COLHE O DIA, minimamente crédula no porvir".
-Unzuhause-