sábado, junho 29, 2013

Resenhas para a Folha - 29/06/2013


Folha de São Paulo
Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
*Caio Liudvik*

CINCO SÉCULOS DE POESIA
A vida, segundo Boris Vian, como dente que se estraga de repente, que dói, e então você o sente, coisa doída que pra, ser resolvida, só sendo arrancada, a vida. A morte, para Poe, como o corvo sinistro que, no umbral da consciência, não faz senão repetir "nunca mais", decreto da finitude de todas as coisas. É de imagens assim fortes, e de versos clássicos, desde o século 16, que se faz esta coletânea de traduções de Alexei Bueno. Também ele grande poeta, qualidade que se nota nas recriações fluentes e fidedignas do monólogo de Hamlet sobre o ser ou não ser –novamente a tensão entre as agonias antagônicas do viver e do morrer-ou o périplo místico de São João da Cruz pela noite da alma. Ou ainda do "Sol negro da melancolia" de Gérard de Nerval, o nojo e tédio existenciais de Leopardi, e de um poema de juventude do colombiano José Asunción Silva, que ali esboça um protesto "otimista" contra o negrume de quem só vê em tudo sombra, luta e ferida -os mesmos motivos que viriam a falar mais alto no desfecho trágico do magistral poeta suicida.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO


UMA BREVE HISTÓRIA DA ETERNIDADE
"Não vos deixeis seduzir! /Regresso não pode haver./ O dia já fecha as portas, /Já sentis o frio da noite: /Não haverá amanhã." A sedução contra a qual Bertolt Brecht se insurge é, de certo modo, o que marcou toda a humanidade antes da era moderna: a ideia de vida eterna, o desejo de abolição do tempo cotidiano e imersão numa instância mais plena de significado, valor e duração.

Esse é o tema do historiador Carlos Eire no brilhante "Uma Breve História da Eternidade". O título alude à célebre "breve história do tempo" do físico Stephen Hawking, mas Eire trata do que vai além da física –senão da outra realidade, metafísica, ao menos das crenças humanas em sua existência, e de como esse imaginário (ao contrário da vulgata marxista, que reduz as ideias a mero epifenômeno da luta de classes) influencia os rumos concretos da vida.

Um fascinante percurso das Ideias de Platão à "eternidade transbordante" medieval, dos arroubos e cotidianos de místicos, monges à eucaristia do cristão como ritual cotidiano de comunhão física com o metafísico- culminando na secularização moderna. Na denúncia –que em Brecht encontra lapidar formulação- da eternidade como mero desejo, racionalização de nosso horror à finitude.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO


A MENTE ASSOMBRADA

"O real me dá asma", confessa Cioran, Talvez por isso nossa propensão a toda sorte de fugas da realidade. As alucinações estão entranhadas na estrutura e no funcionamento do cérebro, mostra o neurologista Oliver Sacks em "A Mente Assombrada". O livro traz os mesmos traços que já pontuam toda a sua vasta e fundamental obra: erudição científica, talento de contador de casos e sua notável capacidade de empatia com o sofrimento e aspectos bizarros da existência humana.

Sacks não se detém numa discussão específica da alucinação na loucura, revisitando as estranhas figuras e cores que podem nos assombrar em experiências como a enxaqueca, uma simples febre, o despertar e adormecer, a "doença sagrada" da epilepsia (destaque para o caso de Dostoievski), o estado de luto, com o desespero de reencontrar, ainda que em fantasmas, o ente querido que se foi.

Sua definição favorita de alucinação vem de William James: uma "forma estritamente sensacional de consciência, uma sensação tão boa e verdadeira quanto se estivesse ali um objeto verdadeiro. Acontece, simplesmente, que o objeto não está ali". Insinua-se aqui, no aspecto gozoso da imagem alucinada, a "razão" do prestígio da irrazão -vide o interesse universal em abrir as portas da percepção transcendental via drogas e vivências alucinógenas, ou pela crença em fadas e duendes, gnomos ou homens-deuses que caminham sobre as águas.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO

 


O AVESSO DO IMAGINÁRIO

A "fita de Moebius" é uma figura topológica com que Jacques Lacan sintetiza sua visão da imbricação e continuidade do que supomos "interno" e "externo" à realidade psíquica de cada sujeito individual, para além de quimeras como um "self" profundo e substancial. Em "O Avesso do Imaginário", Tania Rivera, evoca e faz deslizar esse conceito para pensar as relações entre a psicanálise e a arte contemporânea.

Com refinamento teórico e excelente capacidade de verbalização didática de ideias complexas, Rivera nos conduz em um debate denso mas prazeroso com obras de Louise Bourgeois, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Cildo Meireles, e do pensamento do crítico Mário Pedrosa. Sobressai desde o início a questão do sujeito "fora de si", descoberto pela psicanálise já desde Freud, e em suas "fitas de Moebius" lacanianas de entrançamento e colisão com um real que, mostra Lacan, é o infinitamente alheio, irrepresentável e quase sempre traumático em suas irrupções em nossas vidas. Um livro demonstra, por um viés "sui generis", o poder do pensamento e da clínica lacanianas como forma de abordagem da atualidade não apenas via interpretação de obras, mas com elas, ou mesmo como uma delas (a psicanálise como poética irredutível a cientificismos).
AVALIÇÃO – ÓTIMO


O RETRATO DE DORIAN GRAY

Vulgar, sujo, venenoso, infame, indecente, de um decadentismo leproso, uma impostura. Essas são apenas algumas das críticas pela imprensa britânica quando "O Retrato de Dorian Gray", foi lançado por Oscar Wilde inicialmente numa revista, em 1890 e, em forma de livro (muito modificado e auto-censurado, em resposta ao escândalo), no ano seguinte.

Jovem e belo filho da aristocracia, Dorian é uma espécie de Fausto e marco inaugural de nossos tempos de hipernarcisismo. Apaixonado pela imagem de sua beleza espetacular, segundo o retrato feito dele pelo pintor Basil Hallward, e seduzido pelo discurso mefistofélico de Lord Henry, ele faz um pacto com os poderes das trevas. Vende a alma em troca da juventude e beleza perpétuas. Não será Dorian que se degradará fisicamente, como todos os mortais, e sim seu retrato, cada vez mais maculado pelas rugas do tempo e pela podridão do modelo vivo.

A presente edição resgata –com magníficas notas críticas - a versão original do texto, em que são mais explícitas e cruas as referências homossexuais.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO


UM SONHO RUIM

Um "Dostoievski à francesa", nos seus embates entre culpa e pureza, ignomínia e sublimidade, esperança e agonia. Expoente do que Antoine Compagnon chama de tradição "antimoderna" que se digladia com a herança de anomia do processo revolucionário regicida e deicida de 1789.

Essas são aproximações possíveis a Bernanos (1888-1948). Em "Um Sonho Ruim", comparecem elementos marcantes de outras obras-primas, como "Sob o Sol de Satã" e "Diário de um Pároco de Aldeia". O tom de enfrentamento polemista, a dimensão "contracultural" de um cristianismo pós-cristandade, minoritário porém latente, ficam patentes na prospecção do "sonho ruim" que as guerras mundiais exasperam, tendo subjacente a moderna crise de identidade e dignidade:

"É horrível, essa gente toda se esforçando para desobedecer aos mandamentos de Deus. De um Deus em quem eles nem creem mais. Porque, por mais que tentem ser canalhas com naturalidade, se entupir de drogas, de remédios, parece que o vício exaspera, e não apazígua, o velho sangue cristão que corre em suas veias".

AVALIAÇÃO – ÓTIMO


INSÓLITA METRÓPOLE

"Ah, São Paulo de 1932, um só corpo e uma só alma!". "Trinta e dois não foi uma Revolução, foi uma Paixão! Vida, Paixão e Glória de Sâo Paulo". Assim vibra Paulo Bonfim recordando a euforia do movimento popular que lançou os paulistanos contra o governo de Getúlio Vargas e por uma nova constituição- um dos episódios mais marcantes da história da "insólita metrópole" que é tema dos itinerários de memória e de afeto neste livro do "Príncipe dos Poetas Brasileiros".

Da rua Augusta ao Mosteiro de São Bento, passando pelo relógio da Sé, passeamos com ele por esta "capital de todos os absurdos", palimpsesto em que diferentes eras e valores se entrechocam. As crônicas, tendo por fio condutor a trajetória falam também do convívio de Bonfim com Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Anita Malfatti. A excelente edição, pela historiadora Ana Luiza Martins, é enriquecida por fotografias de família e históricas, que deixam ainda mais evidente –ao estilo da imaginação sociológica tão bem ensinada pelo professor da USP José de Souza Martins, que assina o prefácio- a representatividade geral do singular, o histórico que vige no biográfico. Perpassando ambos está aquilo que resiste à cotidianidade repetitiva e alienada que convive com a grandeza e vigor de São Paulo, provinciana e cosmopolita, de um "inconsciente urbano" que se dá a ver em seu metrô, em suas ruas que conglomeram todos os vícios e virtudes.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO