sábado, julho 20, 2013

massa hedionda do ódio


Mariana Zamarbide, MassMan


Sair de uma (graças a Deus, rara) experiência de pegar ônibus me faz correr de amores arrependidos fazer serenata para o meu amado metrô de todos os dias. Metrô que pelo menos permite a tensão entre a respiração e o desprazer, o suficiente para que o desprazer não se confunda com a própria respiração, e a vida fique tão mísera quanto os farelos de humanidade que restam de nós ao subirmos num ônibus na maior metrópole da América Latina. A tensão, o gradiente de energia entre sentido e absurdo, pulsão de vida e de morte, tesão e medo: recurso indispensável para que a escrita não recue face ao horror, ao contrário, o atravesse e nessa travessia nos renove e nos transforme, diferentemente da escrita relatorial, ou a de conversa fiada, em que nos gastamos em palavras gratuitas, não, pior, caríssimas, pois uma palavra pensada ou falada em vão é como um dente que cai e se despede para sempre de nossas faces então condenadas à decrepitude banguela do espírito. 
Por isso nem chego a lembrar ao certo de imagens sobre ontem. Imagem: esta outra potência da alma que ainda se distingue do que a oprime, não é com o opressor uma coisa fundida (não se esqueça o "n") e cega como o estado cósmico poetizado pelo conceito de Vontade em Schopenhauer.
O que me ocorre do pesadelo quase sem imagens é, na meia hora de espera na rua Augusta, a menina tentando atravessar a rua, perto de mim, ao lado de uma amiga, ambas acossadas por transeuntes vindo parece que de todos os lados, para angústia (mitigada, talvez, do sorriso que a boa companhia na hora má por vezes permite) da menina, que desabafa: ahh odeio São Paulo, é gente demais, é gente demais!
Eu, por algum obscuro sadomasoquismo, não chegaria a esse decreto de odiar a cidade que me sustenta de pão, tesão e liberdade. Mas entendi o desabafo, e o articulo a manifestações como a que voltamos a ver no Rio de Janeiro esta semana. Leblon destruído pela estupidez cega, cegueira celebrada pela platéia dos chacrinhas da fé anarquista na destruição criadora. Eles também odeiam a terra de que dependem. Eles criam slogans sob medida não para suas quimeras poético-revolucionárias, mas para sua pretensão de serem distintos da massa,  de bem agredir e xingar como se assim comprassem seus tíquetes de superioridade, de identidade qualquer no rebanho de que são parte e a parte pior.
-Unzuhause-