Monday, July 29, 2013

as ressonâncias de Mara


"Moisés fez partir os israelitas do mar Vermelho e os dirigiu para o deserto do Sur. Caminharam três dias no deserto, sem encontrar água. Chegaram a Mara, onde não puderam beber de sua água, porque era amarga, de onde o nome de Mara que deram a esse lugar; Então o povo murmurou contra Moisés: 'Que havemos de beber?' Moisés clamou ao Senhor, e o Senhor indicou-lhe um madeiro que ele jogou na água. E esta tornou-se doce. Foi nesse lugar que o Senhor deu ao povo preceitos e leis, e ali o provou. Disse-lhe: 'Se ouvires a voz do Senhor, teu Deus, e fizeres o que é reto aos seus olhos, se inclinares os ouvidos às suas leis e observares todas as suas leis, não mandarei sobre ti nenhum dos males com que acabrunhei o Egito, porque eu sou o Senhor que te cura" (Ex 15, 22-27)

Mara: amargo, amargura; em hebraico: mar. Curiosamente, Mara é nome de um personagem mitológico tão crucial para o Oriente quanto Satanás para o Ocidente. Vejamos o que nos diz uma nota erudita da edição brasileira da Palas Athena do Dhammapada - a Senda da Virtude, clássico budista:

"Literalmente, ' O Matador; às vezes traduzido por 'O Tentador', 'O Mau'. Ele é tido como um ser demoníaco que é o arquiinimigo de todos quantos procuram viver a vida santa. De acordo com a tradição budista, ele tentou impedir o Buda de alcançar a Iluminação. O Mara aparece de quando em quando ao longo da vida de Buda, por vezes assumindo as formas humana ou animal como disfarce; mas sempre com a mesma completa inabilidade de efetuar qualquer mau propósito contra Buda, que sempre reconhece seu disfarce. Mara é representado como sempre procurando perturbar especialmente os bikshus e bikshunis budistas quando estão empenhados em meditação, geralmente quando estão prestes a atingir um dos estágios meditativos e seu fruto; isso pode acontecer também a um praticante leigo. (...) Nas religiões indianas este conceito de 'o Mau' é peculiar ao Budismo. Mara é um ser cuja natureza combina aquelas forças que militam contra a vida religiosa, especialmente as qualidades moralmente insalutares de avidez, ódio e delusão. Ele é tido como dominando o mais inferior dos três níveis de existência: o mundo sensual. Num estágio de entendimento mais avançado e sofisticado, a figura de Mara é vista como sendo um nome para tudo o que é impermanente, insatisfatório e impessoal. O papel da crença em Mara, na história do Budismo, parece ter sido o de prover uma transição das noções populares de maus demônios desencarnados, à análise mais abstrata da situação humana em termos psicológico-morais, e um meio proveitoso de entender a resistência à vida santificada que um homem pudesse experimentar, resistência essa que pode ser superada pelo seguimento do caminho budista".
Curioso que a nota conclua por um termo que me ocorrera quando comecei a transcrição dela: resistência. Pensei-a no contexto da psicanálise, mais célebre de nossos modernos processos terapêuticos (os mais refinados recusarão esse adjetivo para a invenção freudiana em sua radicalização lacaniana: análise não é terapia!) que tenho experimentado nos últimos anos. Psicanálise que, terapêutica sim, também mostra que, como o Mara budista, a resistência interna tende a ser tanto mais aguda nos momentos mais iminentes de iluminação, modernamente designada por termos como abreação e insight.
Que há mais terapias entre o céu e a terra do que sonham os freudianos, isso vemos em qualquer prateleira de auto-ajuda, de toque quântico, terapia do disco voador, de grito primal, de "Fora Cabral" na Avenida Paulista (!) e tantas mais. 
Mas não me interessa a horizontalidade das alternativas proliferantes, e sim a verticalidade que aponta para o alto e para o profundo, lá onde está a imorredoura religiosidade do espírito humano. Tão similar nos quatro quadrantes da Terra quanto a palavra que designa o "mal" na passagem bíblica e no conceito budista acima evocados. 
Como não ver na água amarga, insalubre, inútil para a sede do homem, um correlato concreto da noção budista da inimizade interna que ameaça o caminho ascensional dos budas, tão inumeráveis quanto os grãos de areia do rio Ganges. Poética religiosidade que, em expressões tão distintas como a judaica e a budista, calca nas pedras e areias do mar e do deserto meditações e incomparáveis insights sobre as agonias da Alma na História. E para nós amigos do gnosticismo, sempre se abre a possibilidade de pensar Israel e Egito como tipos antagônicos que estão dentro de nós, como o im-passe (não passarás!) da individualidade supraegoica, "coletiva", entre luz e trevas, liberdade e cativeiro. 
Água amarga que se apresenta como, literalmente, primeira provação imposta pelo  Senhor após a euforia da libertação do Egito. Respondemos, muito humanamente, com murmurações e queixas, queremos fugir de nossas responsabilidades apelando para algum bode expiatório, bezerro de ouro, fora cabral (o do Rio e quiça o de Portugal, que começou a merda toda vindo pra cá).
O madeiro lançado por Moisés: "figura", como diria Pascal, veterotestamentária para o madeiro da cruz que viria a dulcificar o vale de lágrimas da existência, tornando o que era antes condenação estéril uma "feliz culpa" que nos traz tão sublime redenção pela encarnação do próprio Deus.
Buda, no Oriente, é celebrado como o médico das almas que Iahweh mostra ser também: "eu sou o Senhor que te cura". Se soubermos ouvir Sua palavra (a fé vem pelo ouvir, e o o ouvir vem palavra) e colocá-la em prática, as águas amargas e imprestáveis para a nossa sede se transmutam em Fonte de Água Viva que, mais que qualquer "bolsa-esmola", não bota calmantes ideológicos na sede, antes a acirra e a elucida como sede de vida, sede de ser, sede de luz, sede de Deus.
-Unzuhause-