Thursday, July 11, 2013

come chocolates, pequena

"(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates,
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)".
As dificuldades de acessar meu blog neste pc, hoje, e dizer meu poema via Fernando para a Fernanda, alegorizam pra mim o confronto entre censura e liberdade, mecanismos e finalismo, cerceamento e fluxo, culpa e criatividade, como Fernanda em tão pouco tempo leu tão bem em mim. E eu que leio Fernando como os monges apartados da vida que somos, me vou abrindo pra Fernanda, e vou querendo me deixar levar pelo seu sorriso maroto de pequenina que veio me lambuzar dos chocolates do prazer impensado, quando eu achava que tudo tinha que ser a espera, de maleta nas mãos, pela chegada do trem das sete para me levar embora deste mundo de merda, mundo de sindicalistas que hoje repetem o lema criativo das passeatas de junho, "me fazer notar pelo teu saco torrar". A metafísica de que abro mão em troca dos chocolates da minha pequena não é a da religião, essa nem eu, nem Fernando seríamos tolos de desprezar. O que Fernando previa, e Fernanda realiza e encarna, é a alegria de suspensão, alegria de parênteses de ruptura possíveis até num poema triste como Tabacaria, poema de revolta metafísica, desespero trágico, renúncia ascética, descoberta da realidade insalubre, da inanidade dos sonhos, e da urgência do gozo da "mera" natureza, da física para além do que se supunha estar além da física (além da física: meta-física, em grego). Terapêutica pagã, não mais pré-, mas pós-cristã, também receitada por Caeiro, mestre de Álvaro de Campos.
Come e me lambuza de seus chocolates, come e me lambuza de sua alma doce e coração imenso, pequena Fernanda, a pequena profetizada pelo Fernando para mim.
-Unzuhause-