Tuesday, July 30, 2013

creio na minha história, creio na minha dor


É impreciso chamar Hegel de filósofo na medida em que ele, místico da Dialética do Espírito Absoluto, pretendeu com essa chave-mestra racional ter acessado o Saber, não estar do lado de fora como "amigo"do Saber, segundo a etimologia da palavra. Mas vá lá: como a coruja de Minerva da "filosofia"hegeliana, meu espírito soturno gosta de chegar meio que atrasado aos grandes eventos festivos. 
Alguma desconfiança congênita, que já de criancinha me fizera dizer, do banco de trás de nosso fusquinha branco,  para meus pais, cheios de planos sobre nem sei mais o quê: "Não façam planos demais, pode não acontecer como a gente quer". Não sei se foram exatamente essas as palavras, mas me lembro, isso sim, desse pathos de prudência, que muitas vezes se deixa degradar no maior de meus pecados, o medo. Pois tenho medo do sucesso, medo da alegria, medo da generosidade, medo de que tudo o que é sólido se desmanche no ar, agora mesmo. 
Me seria impossível, creio, seguir a cartilha "otimista" de um livro como este que acabei de topar na Fnac, Curai Enfermos, Expulsai Demônios. Considerado um clássico do movimento evangélico neopentecostal, muito citado por R. R. Soares, talvez o mais gabaritado, teologicamente, de nossos ministros evangélicos da TV. O livro aliás está sendo republicado pela Graça editorial, que é de Soares e de sua Igreja Internacional da Graça de Deus. Um livro que embasa muito do que os pastores, bispos, "apóstolos" evangélicos preconizam sobre cura divina de tantas anomalias do corpo e da alma - base teológica da famigerada "cura gay". A doença como coisa do diabo, pois Cristo pagou na cruz por todas as nossas misérias, só fica ou permanece doente quem quiser, ou melhor, que náo tiver a fé suficiente para "repreender" as artimanhas do Tinhoso.
Na mesma compra, trouxe comigo livros sobre papa Francisco. É a propósito dele que eu comecei o texto falando de minha procrastinação da felicidade. Evito escancarar para mim mesmo meu amor por essa figura, guiado pela minha prudência ou temor crônicos, por essa desconfiança que me torna pessimista demais para o tipo de poderes que o evangélico considera acessíveis ao homem de fé. Evito "investir" intelecto e paixão na construção, para mim mesmo, do pleno significado existencial, para mim, do fracasso de Ratzinger e ascensão deste jesuíta de alma franciscana, exatamente o que eu esperava para curar minhas feridas de católico exilado e triste com as desventuras que corroíam as vestes da Santa Madre. 
Quase nada quis ler ou ver na grande imprensa nos dias da Jornada, preferindo me recolher à alegria íntima de oração e sintonia com Francisco. O retumbante sucesso do evento, o efetivo "início" do novo pontificado, nada disso é o bastante para, como dizia no post anterior, eu cair em idolatria, pior dos vícios que os evangélicos apontam nos católicos -tomar a imagem pelo Imaginado, a parte pelo Todo, o homem por Deus. Imagens, partes e homens, tudo o que é temporal está sujeito ao implacável "panta rei" (tudo passa) do filósofo grego Heráclito. Esse pecado é sim possível, não só para os católicos, mas para nós em especial, dada a nossa intimidade com a Imagem, com a Vida Simbólica, ponto que Jung aliás dizia nos tornar psiquicamente mais saudáveis do que os protestantes (ele era de família luterana). Os imbecis da Marcha das Vadias agrediram náo só as imagens, mas o imaginário de um povo, mas nem por isso nossa reação deve ser inclemente e idolátrica, como se tivessem atingido os mistérios de nossa fé. Assim também o avesso desse gesto grotesco, o sorriso doce, fala firme e simbolismo da pobreza e da simplicidade, em Francisco, não irão me desviar da ascese rigorosa, do irmanamento à Igreja desde meu deserto, no meu cotidiano, nas minhas lutas, onde Francisco, o de Assis como o de Roma, é spiritus rector inspirador. Seguem entáo algumas falas que colhi rapidamente no estudo de Saverui Gaeta, Papa Francisco - A Vida e os Desafios (ed. Paulus). Entre suas maravilhas, o aceno ao "amor fati"(amor ao destino) da dor, especificamente católico, antes de nietzschiano:  irmã Morte, a irmã Dor, não excluídas do banquete fraterno a que Francisco de Assis já nos convidava com os homens, mulheres, com o Sol, com a Lua.
-Unzuhause-



"Foi o estupor de um encontro com alguém que está à tua espera"
*em 1953, perto de completar  17 anos; assim resumiu o impacto da descoberta da vocação sacerdotal,  após se confessar com um certo padre Duarte, que nunca vira antes, e que lhe impactou, disse, pela forte espiritualidade.

"Você está imitando Jesus"
*irmã Dolores (nome adequadíssimo ao contexto), religiosa que lhe assistiu durante gravíssima crise de pneumonia, aos vinte anos de idade, num período entre a certeza e a vocaçáo e a resolução de entrar para o seminário. Precisou extrair a parte superior do pulmão direito, além de passar por dolorosas terapias para se curar. A irmã se referia ao sofrimento do jovem Mario Jorge, e comentaria depois com as coirmãs, em deliciosamente simples redundância verbal: "Ele subirá muito ao alto".

"Desejo crer em Deus Pai, que me ama como um filho, e em Jesus, o Senhor, que infundiu o seu Espírito na minha vida para fazer-me sorrir e conduzir-me assim ao reino eterno de vida. Creio na minha história, que foi penetrada pelo olhar de amor de Deus, o qual, no dia da primavera, 21 de setembro, veio ao meu encontro para convidar-me a segui-lo. Creio na minha dor, estéril por causa do egoísmo, no qual me refugio. Creio na mesquinhez da minha alma, que procura sugar sem dar… sem dar. Creio na vida religiosa. Creio que quero amar muito. Creio na morte cotidiana, ardente, da qual fujo, mas que me sorri convidando-me a aceitá-la. Creio na paciência de Deus, acolhedora, boa como uma noite de verão. Creio que papai [Mario] esá no céu junto do Senhor. Creio que também padre Duarte está lá e intercede pelo meu sacerdócio. Creio em Maria, minha mãe [nome, na verdade, de suas duas mães, a Virgem de Cristo,Grande Mãe de todo cristão,  e sua mamá pessoal, Regina María], que me ama e que nunca me deixará sozinho. E espero a surpresa de cada dia, na qual se manifestará o amor, a força, a traição e o pecado, que me acompanharão até o encontro definitivo com esse semblante maravilhoso que não sei como seja, do qual continuamente fujo, mas que quero conhecer e amar. Amém".
*Oração que proferiu em dias de intensa agitação espiritual, às vésperas de se ordenar sacerdote e que, quando se tornou cardeal, quis tornar conhecida, afirmando que estaria disposto a assiná-la novamente.

"Sou Jorge Bergoglio, padre. Gosto de ser sacerdote"
em 2010, no livro entrevista "El Jesuita", respondendo à pergunta acerca de como se apresentaria diante de um grupo de desconhecidos

"Tenham vida longa e feliz. Mas se algum dia a dor, a doença ou a perda de uma pessoa amada os preencherem de desconforto, lembrem-se que um suspiro diante do Tabernáculo , onde se encontra o mártir maior e augusto, e uma olhada a Maria que se encontra aos pés da cruz, poderá fazer cair uma gota de bálsamo sobre as feridas mais profundas e dolorosas".
Carta que a vó lhe entregou no dia da ordenação, deixando seus votos para os netos