Thursday, July 11, 2013

diário místico-niilista de Caio Liudvik



Entre a PUC e meu analista, poucos metros, alguns minutos e uma Igreja no meio do caminho. E minha disposição para entrar. Eu entro. Quero desencalhar no plano espiritual, chega de orar apenas sozinho, chega de buscá-lo tão-somente no escuro e silêncio do quarto, apesar de prática expressamente recomendada por Jesus Cristo.
Primeiro impacto é a falta que sinto do madeiro imponente que a cruz de Cristo tem na Salette, minha paróquia original. O escultural corpo renascentista que aguardava Ressurreição preso ao madeiro do martírio. Na capela da PUC, a identificação narcísica vem de outro estímulo, uma imagem da Madona com o Menino, em remetendo ao paraíso da minha própria infância no colo da Mãe Perfeita e Dolorosa, esplendor e dor se misturam no peito de mulheres fortes que não encontraram parceiros à altura. Maria encontrou: o Espírito Santo, pra conceber, e José, pra conviver.
Enquanto me aprumo para meditar, na primeira fileira, escuto uma senhora no fundo. Ela fala ao telefone, fala não, tagarela, o que me irrita porque me devolve para a urbe de onde eu fugira levado pelas asas do sentimento religioso. Pressinto na cena um símbolo da vida moderna tagarela. A Igreja faria bem se nos (re) compensasse a alma ensinando o Silêncio.
A senhora se cala, e eu mergulho em mim, ou melhor, em Ti, ou na centelha que nos une ante tanta escuridão que nos separa. Mas a introspecção logo será interrompida de novo, dessa vez uma voz alterada, parece um deficiente mental. Mental e , vejo logo, físico também. Levado por duas muletas, vem ao meu encontro pedir esmola. Não dou. Mas saio com a nítida sensação de ter deixado escapar, senão  todo, ao menos grande parteo do encontro com Cristo que em criança eu buscava no lindo corpo morto, em adulto enclausurei em livros, refúgio ante o precipício, mas que talvez seja presença e ausência plenas é na cidade tagarela da gente frágil mendigando em muletas.
(Texto para celebrar o novo batismo do blog com o subtítulo de Diário Místico de Caio Liudvik)
-Unzuhause-