segunda-feira, julho 15, 2013

Evangelho do dia - o Uno e os Doze


Evangelho segundo S. Mateus 10,34-42.11,1.
[Meus comentários em negrito e entre colchetes]
Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada [Jesus não descarta a violência, mas lhe dá sentido íntimo novo, apesar de sua missão exotericamente pacifista, do "manso e humilde de coração", frustrar o tipo do messias esperado pelos judeus, sobretudo os da seita zelote, a 'extrema-esquerda' da qual o traidor Judas teria participado]
Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra [artigo hoje do professor Pondé na Folha aponta, assim como Françoise Dolto,  o Evangelho como protótipo da psicalálise. Vemos aqui um exemplo da fecundidade dessa hipótese, na medida em que Cristo desafia o estereótipo "cristão" do familismo opressivo, convoca homens e mulheres à autonomia, à solidão, em suma, ao drama da liberdade]
de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares [não vejo aqui respaldo para as cenas bisonhas de ruptura familiar quando, por exemplo, de batalhas por herança, ou em expulsão de casa da "ovelha negra da família" etc. A inimizade no caso é mais arquetípica, denota a potencialidade dos vínculos os mais amorosos se tornarem opressivos, se não souberem evoluir e, sobretudo, abrir espaço para a real destinação da pessoa individual, sempre a sós com a existência e com o Criador]
Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim [assim como o Pai Iahweh, Cristo é um deus "ciumento", exigente, não admite dividir a alma humana com outros deuses, isto é, ídolos, ainda que encarnados em pai e mãe, imagos mais fundamentais do frágil infante humano que somos a vida inteira, vide a repetitividade incestuosa desses afetos na escolha e na perda de nossos parceiros conjugais]
Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim [ao contrário de certa teologia da prosperidade, ou de um cristianismo "new age", que diabolizam o "culto" medieval do sofrimento; vide o lindo comentário de Jean Tauler logo adiante
Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la.» [de novo Cristo afirma o caráter "unificante" e totalizante pretendido por sua intervenção na História, e na alma do discípulo: é por Ele ou contra Ele, é tomar ou largar, é tudo ou nada, é a cidade de Deus e não a dos homens; a história, e nossa consciência "cristã" de todo dia mostra que as acomodações não desaparecem por decreto ou pela mera vontade de obedecermos ao "gabarito" crístico das provas da existência. Continuamos os mesmos hipócritas de sempre, mas as "soluções" hipócritas perdem legitimidade moral e, sobretudo, põem em perigo a salvação, sobretudo se não tratadas como problemas, e sim, como eu disse, soluções 
«Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou.
Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá recompensa de profeta; e quem recebe um justo, por ele ser justo, receberá recompensa de justo [como diria Santo Tomás, aquele que ama o que conhece se assemelha ao que é amado e conhecido]. 
E quem der de beber a um destes pequeninos, ainda que seja somente um copo de água fresca [pra narcisistas crônicos como eu, que alívio, que "copo d' água" no deserto, saber que posso avançar na minha evolução ainda que faça o simples, o imediato, o mínimo concreto, já melhor que o "todo" de mentirinha dos amigos socialistas da Humanidade que não olham na cara do porteiro do condomínio fechado]  por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa [o amor é sua própria recompensa].» 
Quando Jesus acabou de dar estas instruções aos doze discípulos [doze tribos de Israel, doze portas da Jerusalém celeste, doze signos do zodíaco, doze meses do ano; a complexidade esotérica desses ensinamentos se coaduna com o caráter restrito do público-alvo, diferentemente das parábolas, deliciosas iscas para o homem da multidão, chamado pelo Deus pessoa a ser pessoa em vias de divinização, partiu dali, a fim de ir ensinar e pregar nas suas cidades
Comentário do dia: 

Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano de Estrasburgo 
Sermão 59, 4º para a Exaltação da Santa Cruz 
«Aquele que conservar a vida para si há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de Mim há-de salvá-la.»

Reflictamos sobre estas palavras do Senhor: Ele quer «atrair a Si todas as coisas» (Jo 12,32 Vulg). Aquele que quer atrair todas as coisas começa por reuni-las, para depois as atrair; e o mesmo faz o Senhor: começa por chamar o homem das suas divagações e das suas dispersões, fazendo-o recolher os sentidos, as faculdades, as palavras, as obras e, dentro de si, os pensamentos, as intenções, a imaginação, os desejos, as inclinações, a inteligência, a vontade e o amor. Depois de tudo isto bem recolhido, Deus atrai o homem a Si; porque é necessário que Ele comece por te separar de todos os bens, exteriores ou interiores, a que estás agarrado, tendo neles a tua plena satisfação. Este desprendimento é uma cruz penosa, e tanto mais penosa quanto mais forte e firmemente estiveres agarrado a eles. […]Porque foi que Deus permitiu que raros sejam os dias e as noites que se assemelham aos anteriores? Porque será que aquilo que te ajudou à devoção hoje será inútil amanhã? Porque tens dentro de ti tão grande confusão de imagens e pensamentos que a nada levam? Meu menino, aceita a cruz que Deus te envia, que será para ti uma cruz amável se fores capaz de oferecer estas provações a Deus, de as aceitar dele com verdadeiro abandono e de Lhas agradecer: «A minha alma engrandece o Senhor» (Lc 1,46). Quer Deus tome, quer dê, o Filho do Homem tem de ser elevado à cruz. […] Meu menino, deixa tudo isso e aplica-te ao verdadeiro abandono […], esforçando-te por aceitar a cruz da tentação em vez de procurares a flor da suavidade espiritual. […] Nosso Senhor disse: «Se alguém quer vir após Mim, tome a sua cruz e siga-Me» (Lc 9,23).