domingo, julho 21, 2013

Evangelho do dia- rezar, agir, beber


Acabo de desligar o telefone após a enésima "confissão" pessoal junto à minha mãe, dizendo-lhe de meus temores e remorsos por tudo o que, na esfera da minha "vida ativa", deixa a desejar, marcado que sou pelas propensões contemplativas que foram motor e autorrecompensa em toda minha trajetória de estudante e estudioso, distante do mundo, avesso às azáfamas, aos burburinhos, à gente medíocre e interesses ignóbeis que em geral sustentam bons ibopes pessoais na vida social. 
Numa praça de alimentação que costumo frequentar, observei outro dia gigantesco "copo" de cerveja que um homem e uma mulher compartilhavam em seus respectivos copos de proporções mais normais. Noutra ocasião, quatro pessoas, aparentando ser um grupo familiar, e o homem mais velho puxando conversa com o garoto (mais entretido em suas garfadas no próprio prato) sobre o "Pânico na TV" do domingo retrasado. 
Me lembro da vez que tentei impressionar uma garota que eu simplesmente idolatrava; não sabendo consumar em ato meu desejo nos níveis platônicos em que ele nascera, me conformara em buscar a companhia da menina numa das tantas bebedeiras de fim de noite típicas de estudantes de faculdade. Noite alegre, de piadas e tiradas inteligentes e eu com eles (o insólito trio tinha eu de um lado da mesa, o solitário platônico, mais minha musa devidamente acompanhada do namorado, no lado de lá ), trio bebendo todas e mais algumas, mas eu voltei pra casa e para a companhia só do vômito na privada do meu banheiro, na longa madrugada de arrependimentos do mau bebedor que sempre fui. Atestado triste e exemplar de que, pelo menos como a encarei até aqui, a vida lúdica pouco tem a oferecer como válvula de escape e lubrificante para suportar o "trauma do nascimento" de cada dia, a quebra das bolhas autísticas em que o Espírito leva vida de pedra, e pedra de Sísifo, ardendo no inferno eterno.  
Na sociedade complexa e multifacetada de hoje, sem gabaritos prévios do bom comportamento, e deuses em isonômica disputa fora e dentro de nós, a contemplação com Maria, aos pés do Senhor, se complementa cada vez mais -falando aqui a partir da gramática "regional" dos mitos cristãos- no espírito de cada indivíduo com a postura atuante e servidora de Marta, bem como com a alegria das bodas de Caná da transformação da água da necessidade em vinho do desejo e da alegria. Multiplicidade não quer dizer anarquia banal, mas uma hierarquia sutil que brota em liberdade nos vaivens da vida cotidiana, nas diferentes ocasiões e oportunidades, sem concessão à mediocridade do mundo, à cachaça conjugal de hoje que prepara a família insossa de amanhã, amanhãs dependentes de pânicos na tv pra que reste algum assunto de "impacto" a nos arrancar de nosso vazio de intimidade uns com os outros. 
-Unzuhause-


Evangelho segundo S. Lucas 10,38-42.
Naquele tempo, Jesus entrou numa aldeia. E uma mulher, de nome Marta, recebeu-O em sua casa. 
Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra
Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços; e, aproximando-se, disse: «Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.» 
O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.» 

Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Comentário ao Evangelho de São Lucas, 7, 85-86; SC 52 

Juntas, Marta e Maria acolhem a Sabedoria de Deus (1Co 1,24)


A virtude não tem apenas um rosto. O exemplo de Marta e de Maria mostram-nos a devoção activa nas obras de uma, e a atenção religiosa do coração à palavra de Deus na outra. Se a tal atenção estiver unida uma fé profunda, ela é preferível às obras: «Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada». Esforcemo-nos portanto, também nós, por possuir aquilo que ninguém nos poderá tirar, escutando com ouvido atento e não distraído; porque por vezes acontece que o grão da palavra vinda do céu é tirado, se for semeado à beira do caminho (Lc 8, 5.12). 
Anima-te pois pelo desejo de sabedoria, como Maria: essa é uma obra maior, mais perfeita. Que as preocupações com o serviço não te impeçam de acolher a palavra vinda do céu. Não critiques nem tenhas por ociosos os que vires ocupados em adquirir a sabedoria, pois Salomão, esse homem de paz, convidou-a para sua casa para que ficasse com ele (Sb 9,10). Não se trata, porém, de reprovar a Marta os seus bons serviços: Maria tem preferência porque escolheu uma parte melhor. Jesus tem múltiplas riquezas, e distribui-as com prodigalidade; a mulher mais sábia reconheceu e escolheu o que é mais importante
Também os apóstolos entenderam que era preferível não abandonar a palavra de Deus para servir às mesas (Act 6,2). Mas ambas as coisas são obras de sabedoria: Estêvão foi escolhido como servo, como diácono, e estava cheio de sabedoria (Act 6,5.8). […]. Com efeito, o corpo da Igreja é um, e se os seus membros são diversos, têm necessidade uns dos outros: «Não pode o olho dizer à mão: «não tenho necessidade de ti», nem tão-pouco a cabeça dizer aos pés: «não tenho necessidade de vós» (1Cor 12,21). […] Se alguns membros são mais importantes, os outros são todavia necessários. A sabedoria reside na cabeça; a actividade, nas mãos.