Friday, July 12, 2013

Kierkegaard e as pulgas do templo


"A desgraça do homem jamais provém do fato de não ser dono absoluto das condições externas; este domínio, pelo contrário, é o que lhe faria completamente desgraçado"
-Kierkegaard-
Um dilema maior na tradição filosófica, e que repercute até hoje na nossa vida cotidiana, é a suposta dicotomia entre sujeito e objeto e seus corolários, como "interioridade" e "exterioridade". Na psicologia analítica, temos por exemplo a classificação das pessoas em "introvertidas" e "extrovertidas", termos junguianos que caíram nas graças do senso comum, porque de algum modo provieram dele: temos mesmo, e a experiência parece confirmar, a sensação de haver pessoas mais "pra dentro" e outras mais "pra fora", tímidas ou expansivas etc. 
A questão, ao meu ver, é que assim como os signos astrológicos, os rótulos da psicologia e da psiquiatria muitas vezes se degradam a muletas e amuletos de auto-explicação superficial. Não pensamos, os rótulos pensam por nós e através de nós. As palavras viram piloto automático de viagens em comboio dos sonâmbulos tagarelas. Ao invés de singularidades sutis, ambíguas e de penumbra, nos enxergamos demais, a uma luz clara de hospital, e tudo se encaixa maravilhosamente para dar sentido e reprodutibilidade técnica à nossa mediocridade tranquila.
Uma suposição tácita dos "introvertidos", por exemplo, seria a de que o real é um teclado à disposição dos dedos controladores do ego. Já o extrovertido acredita numa realidade igualmente reificada, pronta e acabada, que atrai e subjuga um ego que tende para fora de si. Nos dois casos, o que poderiam ser parceiros dinâmicos de uma dança viram milicos rígidos que brincam de gestos de se espelhar, como nos treinos que nós alunos fazíamos, dois a dois, cada um agente e paciente, alternadamente, na escola de teatro.
Dessa dança pressinto rudimentos vivos nas belas palavras que citei de Kierkegaard. Pai do existencialismo, o filósofo dinamarquês é muito associado a certa ideia de subjetivismo radical, avesso ao Espírito absoluto de Hegel, seu maior rival filosófico. Mas, podemos ver, a subjetividade kierkegaardiana, na qual se centra toda instância de sentido e de verdade, não é meramente a de um "introvertido" encapsulado em si mesmo, dono narcísico de sua própria casa, causa de si, ilusões de onipotência que Freud tão cruel e destemidamente destroçou. 
Tampouco o homem-massa, o indivíduo rendido das "passeatas" e tagarelas é o caminho.
O sujeito kierkegaardiano é autor e produto da paixão da angústia (único afeto que não mente, diria o nessa esfera "kierkegaardiano" Lacan). E a angústia, âmago da experiência unzuhause de que falaria o também kierkegaardiano Heidegger, antes de repropor o enraizamento étnico-telúrico (nazismo) é o júbilo do desterramento, é o desesperar no sentido do não-mais-esperar coisa alguma, inclusive não esperar para ser feliz. Como a vida for possível, para além de nossos controles obsessivo-compulsivos, toc ontológico que pesa como maldição auto-imunológica do indivíduo que não mais toca e não se toca.
Somos individualidades mediadas e transpassadas pelo mundo, egos em rede, interdependentes, internet dos corpos e mentes mundo afora e adentro. Feixes de relações, em que os egos internos são termos a mais, que só valem, como os signos, pela relação com os outros, ainda que no ultrapassamento desse valor e na experiência negativa do Nada (angústia) possam ascender a valor maior. O da graça que, teologicamente, se insinua na afirmação de Kierkegaard de que desgraça seria controlarmos o mundo externo: pela mesma porta que o homem arrogante chuta e entra, o espírito de Deus se dobra sobre si, como na mesura de uma despedida, evapora e sai, deixando o templo para o mercado de pulgas e vendilhões.
-Unzuhause-