Thursday, July 25, 2013

lendo a vida na diarreia


Seis horas de espera para ser atendido, na terça-feira. Não, não foi em algum cafundó do Brasil profundo. Foi no respeitado Hospital Santa Catarina. Fui parar lá por uma diarreia que me acometia desde a noite de sexta. Experiência  desagradabilíssima, claro, mas que em sua passagem deixa um rastro de sementes para aprendizado. 
O mais imediato e bizarro foi do livro que li até quase a metade, nos dias e no palco da agonia, a minha privada: o Narcisismo- Negação do Verdadeiro Self, do grande psiquiatra Alexander Lowen, expoente da bioenergética que, na senda de Reich, resgata a dimensão do corpo numa cultura psicoterapêutica tão verbosa ou devoradora (sem bem digerir, como meu pobre estômago) de imagens e símbolos universais e desconectados do corpo que sofre em primeira pessoa. Para Lowen, não há narcisismo saudável, nem mesmo o narcisismo primário aventado por Freud: todo narcisismo seria um desvio, uma deturpação do ego encapsulado em sua auto-imagem e amedrontado por sua verdadeira essência, que analistas como Winnicott e Jung também chamam de Self.
Mas, afora o consolo dos livros, "li" outras coisas. Os horrores da saúde pública do Brasil deixam de ser uma abstração mental ameaçadora mas distante - e olha que insisti em não ir para o também excelente Hospital da USP justamente pelo pavor de lá experimentar a "eternidade" , não bem do jeito como meu lado místico a cultiva, e sim na fila do povo, entre acessos de crise gástrica.
Toda vez que pago por meus 6 bilhetes de metrô e a conta cabe na minha nota de 20 reais, sorrio de agradecimento aos jovens que lutaram por isso contra inclusive meu mau-humor e ceticismo. Pois esses jovens em protesto voltaram ao meu espírito ao pensar, enquanto os desconfortos do corpo deixavam, na indignidade que são os serviços públicos de um modo geral neste país. Não me identifico com os delírios anarco-imbecis de "destruição criadora", e sim com as demandas, no fundo bem racionais e social-democratas, de maior eficiência de um Estado hoje paralisado, degradado a feira pública de "democracia" do grito, da inépcia e da bandalheira. 
No nível pessoal, o contato com minha humana fragilidade, a solidão na solidariedade amorosa da mamãe, deusa cátara no hospital que homenageia uma das santas mais belas e filosoficamente atraentes - vide as virtudes lógicas e retóricas com que Catarina, jovenzinha e virgem, destroçava os sofismas dos sábios que o rei chamou para reconvertê-la ao paganismo.  Conta a legenda áurea que Catarina, prestes a ser decapitada, ergueu os olhos ao céu e orou: "Ó Jesus, Ó bom rei, esperança e salvação dos crentes, honra e glória das virgens, eu imploro que qualquer um que em memória de meu martírio me invoque em sua hora final, ou em qualquer outra necessidade, encontre sua ajuda  e obtenha o que pede!".
Não estive bem em minha hora final - se bem que toda hora, na névoa do não-saber e na "resolução" (Heidegger) do ser-para-a-morte, seja sim a ou à última-, mas a linda imagem de Catarina no hospital, com o não menos lindo abraço de mamãe, foram tudo o que eu precisava para que minha miséria se transmutasse em experiência íntima da miseri-cordia. Não como auto-piedade do hipoconcríaco à la Woody Allen que sou. A própria hipocondria, na "hora final" de uma doença ou indisposição efetivas, se revela a vaidade de quem não suporta, e por isso caricatura, o risco real de tudo o que vive: padecer e morrer. 
Catarina, no ardor ao Rei imortal, desprezou impiedosamente o rei que queria dela uma mera "lolita" , e pagou o preço que pagou. É essa coragem, e esse ardor da alma virgem por Jesus Cristo, que precisamos sempre mais, no aprendizado do desapego que, ao contrário de nos distanciar, deve sim nos incutir gratidão e luta (política, inclusive) por mais qualidade na vida enquanto a temos, ou melhor, enquanto nela somos hóspedes. 
Ah, a diarreia passou. Mas guardo minha pulseira do hospital de Catarina como minha fitinha do senhor do bonfim.
-Unzuhause-