Monday, July 22, 2013

Evangelho do dia - noli me tangere



A pessoa cheia de "não me toques" era, no meu tempo de colégio, geralmente a menina fresca que reagia com histeria a alguém que sequer pensasse em brincar nas montanhas, florestas e cavernas da cândida paisagem dos afetos infanto-juvenis. Bem mais tarde, eu, como  vaidoso paciente de um grande analista e psiquiatra deste país, resolvi definir meu próprio "case" sob o título pomposo e latino de "noli me tangere", de extração bíblica. A frase é tema do Evangelho do dia, no calendário mundial da Igreja, num dia muito especial, de chegada ao Brasil do nosso líder maior. Os iconoclastas superficiais ligariam os pontos de uma coisa e outra e diriam, satisfeitos de sua própria sagacidade: "tá vendo, vem do cristianismo, literalmente, o 'não me toque' da histérica". Só me ocorre diante disto a reação do Olavo de Carvalho, na página do face, contra as groselhas dos comunas: "Cala a boca, burro!".
Primeiro que a presença de elementos patogênicos na religião e num indivíduo não implicam nexo causal da religião na direção do indivíduio, ou vice versa. Depois que tais elementos nem sempre são os mesmos, os meios ambientes individual e coletivo têm entre si gradientes de refração, as luzes e energias não valem o mesmo em ambos, pois muitas das neuroses e psicoses individuais seriam matéria-prima de experiências simbólicas extremamente salutares, que poderiam inclusive poupar o crente de não fingir que é dor a dor que deveras sente, ou seja, de submergir na sarjeta da alma depauperada das fontes nutrizes de proteção, cura e transformação que vêm da alma coletiva profunda.Assim tambem elementos de nociva irracionalidade nas maos da massa pode, devidade `recuperados` e mediatizados e, serenidade pelo individuo forte, se converter em simbolos potentes de auto aprimoramento e equilibrio no eixo ego/Self, ou seja, nas dimensoes individuais e coletivas em que patinamos, mergulhamos, escalamos nossos destinos.
Como São Bernardo mostra com maestria, o "noli me tangere" de Cristo após a Ressurreição é uma densa alegoria pedagógica: Cristo ensinando que a ressurreição divina implica para Seus discípulos a ressurreição ainda em vida, antes da "morte" do corpo: elevação de patamar de qualidade da vida, via radicalização do desapego das coisas sensíveis e espiritualização. Daí a reprovação de Cristo ao ceticismo pragmático de Tomé, que precisava ver para crer. Ora, crer se basta. Nos permite até andar sobre as águas,  mover montanhas, entre outras ricas figuras de linguagem do texto bíblico. Ressurreição como projeção da vitória da fé (das potencialidades supremas do espírito humano, reflexo do divino) sobre a lógica mundano-sensorial, vitória da águia sobre o mamífero, para brincar com uma conversa com uma amiga semana passada. Socióloga sofisticada, ela dizia de nosso lado "mamífero" que parece presidir arcaicas necessidades como dividir a mesma cama e pasta de dentes com alguém pra se chamar de "seu". Eu repliquei com duas observações do abade (por supuesto!) Galiani: "Os filósofos não são feitos para se amarem mutuamente"; e ainda: "As águias não voam em bando".. Citações muito caras e usadas por Nietzsche.
E quanto a mim, entre a histérica fresca e a epopeia metafísica da fé? Eu acorri à frase latina, ao me apresentar ao meu analista como "paper" vivo ainda em formulação, sete anos depois e ao receber dele sensacionais perspectivas de me classificar no campo das angústias lacanianas e seus respectivos tipos clínicos estruturais, em especial o da fobia. Fobia de sangue, fobia de morte, fobia de vida. Que nada me atinja, que nada me toque, é o que peço não eu, mas essa estrutura -ou, com Jung, esse "complexo"- em mim. Complexo da intangibilidade, da comunicação à distância, do amor virtual, não por acaso minha vasta  carreira de romances epistolares. Se eu estou satisfeito com isso? "Eu não está", ou seja, certos outros eus não o estão, porém não ainda com a força motivacional o suficiente para quebrar as barreiras, levantar as censuras de angústia impostas pelo complexo fóbico, que vive lado a lado, dentro de mim com as taras não da histérica do colégio, mas dos coleguinhas que a assediam.
-Unzuhause-


Evangelho segundo S. João 20,1-2.11-18.
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. 
Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.»
Maria estava junto ao túmulo, da parte de fora, a chorar. Sem parar de chorar, debruçou-se para dentro do túmulo,
e contemplou dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha estado o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés.
Perguntaram-lhe: «Mulher, porque choras?» E ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.»
Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus, de pé, mas não se dava conta que era Ele.
E Jesus disse-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que era o encarregado do horto, disse-lhe: «Senhor, se foste tu que o tiraste, diz-me onde o puseste, que eu vou buscá-lo.»
Disse-lhe Jesus: «Maria!» Ela, aproximando-se, exclamou em hebraico: «Rabbuni!» que quer dizer: «Mestre!»
Jesus disse-lhe: «Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: 'Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus.'»
Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Vi o Senhor!» E contou o que Ele lhe tinha dito. 


Comentário do dia 
São Bernardo (1091-1153), monge cisterciense, doutor da Igreja 
Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, n º 28, 9

«Quem procuras?»
Só o sentido da audição pode alcançar a verdade, porque só ele ouve a palavra. […] «Não Me toques», diz o Senhor, isto é, perde o hábito de confiar nos teus sentidos enganosos, apoia-te nas minhas palavras, acostuma-te à fé. A fé não se pode enganar, compreende as coisas invisíveis e não sofre da pobreza dos sentidos. A fé ultrapassa os limites da razão humana, os usos da natureza, os limites da experiência. Porque queres aprender com os olhos o que eles não podem saber? E porque se esforça a tua mão por sondar o que nunca atingirá? É tão pouco o que uns e outra dão a conhecer de Mim! É a fé que compete pronunciar-se a meu respeito sem diminuir a minha majestade; aprende a acreditar com mais certeza e a seguir com mais confiança o que ela te diz.


«Não Me toques, pois ainda não subi para o Pai.» Como se devesse ou pudesse deixar-Se tocar quando fosse elevado; sim, sem dúvida que poderá ser tocado, mas só pelo coração e não pelas mãos, pelo desejo e não com os olhos, pela fé e não pelos sentidos. «Porque procuras tocar-Me agora [...]? Não te lembras de que, quando Eu ainda era mortal, os olhos dos meus discípulos não puderam aguentar a glória do meu corpo transfigurado, que ainda tinha de morrer? Faço-te ainda o favor de te mostrar a minha condição de servo (Fil 2,7), mas doravante a minha glória afasta-Me de ti. […] Suspende pois o teu julgamento […], reserva à fé o esclarecimento de tão grande mistério. […] Para seres digna de Me tocar, tens de Me contemplar sentado à direita de meu Pai (Mc 16,19; Sl 109,1), não mais na minha condição de abaixamento, mas no meu estado glorificado. Trata-se do mesmo corpo, mas sob outro aspecto. Porque queres tocar-Me na minha fealdade? Espera pelo momento em que poderás fazê-lo na minha beleza.»