Friday, July 26, 2013

onde está o Wally?


"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita, é uma cidade superpovoada em um país deserto, uma cidade em que se erguem milhares e milhares e milhares e milhares de edifícios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto, existe um muito baixo, ao lado de um racionalista, um irracional, ao lado de um de estilo francês há outro sem estilo algum. Provavelmente estas irregularidades nos refletem perfeitamente, irregularidades estéticas e éticas.

Estes edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram uma total falta de planejamento. Exatamente igual à nossa vida, vamos vivendo sem ter a mínima idéia de como queremos ser. Vivemos como se estivéssemos de passagem por Buenos Aires. Somos os inventores da cultura do inquilino. Os edifícios são cada vez menores, para dar lugar a novos edifícios, menores ainda. Os apartamentos se dividem em ambientes, e vão desde os excepcionais 5 ambientes com varanda, sala de jogos, dependência de empregados, depósito, até a quitinete, ou caixa de sapatos.

Os edifícios, como quase todas as coisas pensadas pelo homem são feitos para nos diferenciar uns dos outros. Existe uma fachada frontal e posterior, e os pavimentos baixos e os altos. Os privilegiados são identificados com a letra A, excepcionalmente a B, quanto mais progride o alfabeto menos categoria tem o apartamento. As vistas e a luminosidade são promessas que raramente condizem com a realidade. O que se pode esperar de uma cidade que vira as costas para o seu Rio?

Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais de cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a abulia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a insegurança, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção. Desses males, exceto o suicídio, eu padeço de todos. " 
***
Bastavam as imagens e o discurso do início do filme para que eu largasse as coisas na cadeira do cinema, saísse e pagasse de novo pelo privilégio de ali estar. "Medianeras",  mais uma florada da magnífica primavera por que passa o cinema argentino há anos, é dentre todos os filmes desse período, o que mais me cativou. Por mais que educado com os antropólogos a valorizar o particular, o específico de cada cultura, minha "Seele" (alma) de romantismo alemão pede, exige o encontro do universal e do que sobretudo, me inclui, fale pra mim, mais ainda, fale de mim. "Medianeras" é assim. 
Fala de tantas coisas, fala em primeiro plano da Buenos Aires concreta (e de concreto, cimento e vazio) destes anos de crise econômico-social, de perda de perspectivas humanas, em especial para os jovens. Buenos Aires que, vemos na reflexão de Martin, tanto se assemelha a São Paulo nos pequenos e grandes desastres urbanísticos que abriga, na desorganização, crescimento descontrolado, patíbulo de multidões que arrastam suas solidões dia após dia em espaços exíguos, claustrofóbicos e estressantes, seja nos corpos engarrafados em carros nas ruas,  seja nas águas que deveriam ajudar a relaxar de uma academia de natação. Mas como não se identificar com a história de Martin e Mariana, dois jovens que, vizinhos, se esbarram sem saber pelas ruas portenhas, perdidos cada qual em suas angústias, fobias, solidão, errantes em busca do amor.. 
Como este blog tem uma marca confessional, de diário (místico e niilista), o enfoque em primeira pessoa é inevitável. E a Argentina me remete a um sem-número de emoções. Com o perdão da redundância, porque números, lembra Jorge Forbes falando do perfil do novo líder em tempos globais, não emocionam, não cativam, são inumanos como o discurso relatorial de governos falando de PIB ou de merreca de redução de taxa de homicídios no último trimestre e blablabla.
Deixarei de lado, nestas breves ruminações portenhas pelas quais minha fantasia gosta de zanzar, as referências esportivas e culturais mais óbvias. Falo da Argentina da linda professora de espanhol que me resgatou do inferno inestético pelo poder  da sua magia que me fez, deslumbrado por esta Anima encarnada e vinda de um romance de Sabato,  propor-lhe o psicomago Alejandro Jodorowsky como eixo de nossos "trabajos" a dois.
Argentina de Papa Francisco, que com sua sabedoria, humildade e carisma decretou o término do meu exílio da minha Igreja, me chamando de volta para o seio da Santa Madre, revigorado e comissionado por Cristo para a luta pela "nova evangelização" deste mundo sedento como um deserto.
E Argentina, agora, de "Medianeras", filme que, brincando à vera com referências como "Onde está Wally", fala ao meu coração existencialmente cravado de medos, barreiras e solidão, ansioso por um novo patamar de amor, carnal, sim, mas mais profundo que isso, anseio de "relacionamento", de conexão profunda, cumplicidade que não precisa ser careta para ter responsabilidade.

Me identifiquei com as dificuldades e ironias do destino que se impõem pelo caminho, des-encontros do afeto que chegam a dar vontade de parar o filme e gritar para o diretor sádico que mude esse script sacana!). Dei com o queixo no chão ante a beleza, inteligência e melancolia de Mariana, vivida por uma Pilar Lopez de Ayala que, madrilenha, me remete com justeza à imagem de mulher argentina que me assedia e irrita o espírito -incomoda no sentido que o crente usa ao falar que "Deus me incomodou a fazer tal coisa" . Daimon (cristianizado depois na figura sinistra do demônio, mas que para os gregos era o gênio de cada um) que compele, ânsia a saciar, enigma que devora e põe em movimento.
O diretor do filme, Gustavo Taretto, diz que a solidão que quis abordar não é "dramática, mas uma "solidão a que já estamos acostumados. De todos os dias. Solidão urbana. A solidão que sentimos quando estamos rodeados de desconhecidos".
Solidão que a interconexão de todos com todos na era virtual veio acirrar, até com ares de crueldade ao esfregar na cara do solitários insulados a suposta redenção como estando próxima, a mensagem libertadora na garrafa encontrada na beira da ilha, ao alcance de um clique na página certa do Facebook. 
A solidão pode sim ser um estado magnífico para a criatividade e o desenvolvimento pessoal. Mas, por mais que nos queiram massa de anônimos sonâmbulos consumidores,  por mais que, atemorizados e em fuga de nós mesmos, nos petrifiquemos, somos seres em aberto, porosos (reparem como nossos buracos são protagonistas nos atos de amor), seres em relação, o amar é tão valioso, senão mais, quanto o respirar e o comer para este corpo de desejos e de sonhos combustíveis que a alma fagocita e pilota como carruagem.  
Mais não direi, senão lhes convidar: vejam, revejam, se vejam neste simples, profundo, angustiante e empoderador "Medianeras". Nunca mais procurarão da mesma forma os "Wallys" secretos de vossos corações insatisfeitos.
-Unzuhause-