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Saturday, July 27, 2013

Resenhas para a Folha





Folha de S. Paulo
Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
*Caio Liudvik
O ÚLTIMO COPO
Um bom ponto de partida para provar da "filosofia do álcool" de Daniel Lins é correr ao youtube ver o que Gilles Deleuze, no "B de bebida"  do "Abecedário", relata de seu próprio vício alcoólico, de como o abandonou, e do álcool como forma sacrificial, senão mesmo estúpida, ao arruinar a saúde, que o homem ao longo das eras buscou para lidar com o que há de demasiado intenso e ingovernável na potência da vida.
Lins parte deste e de outros textos de Deleuze, bem como de notas e gravações das aulas do autor de "O Anti-Édipo" a que assistiu em Paris VIII. Evita condenações moralistas do alcoolismo, tampouco recai no clichê oposto, da exaltação "dionisíaca" ingênua, mas medita a dimensão filosófica desta "solução" particular para o drama universal de nos havermos com as "multiplicidades embriagadas, embriagadoras", dos turbilhões do cosmos, ou melhor, do "caosmos", esse outro exemplo das palavras de estranho poder de fascinar com que Lins se irmana ao mestre, mais do que repeti-lo no que seria um sóbrio (e por vezes chato) trabalho típico de compilador acadêmico de ideias alheias.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

OPUS DEI
Não, Giorgio Agamben não resolveu surfar –senão na ressonância provocativa desse título- na onda de Dan Brown e do fascínio atual em torno de "sociedades secretas" como a prelazia católica Opus Dei. O que ele procura sim é o que há de secreto em nossa própria sociedade, a civilização ocidental dita laica, mas repleta de vivas heranças de seu passado teocêntrico e clerical. 
"Opus Dei", obra de Deus,  equivale nesse contexto ao ofício litúrgico, que é aqui analisado na sua dimensão de práxis terrena.  Responsável pela edição italiana da obra de Walter Benjamin,  um dos grandes nomes do pensamento de esquerda contemporâneo, Agamben escava as camadas semânticas e históricas do conceito de liturgia, desde os tempos gregos em que denotava a prestação de "obra pública", isto é, a obrigação que a cidade impunha aos cidadãos de uma certa renda de prover uma série de prestações de interesse comum, da aquisição de cereais e óleos à organização de ginásios e envolvimento nas guerras e jogos olímpicos.
Mas, no espírito arqueológico que remonta a Foucault, não se trata de mera curiosidade erudita pelo passado em si, mas pelo esclarecimento que dali se projeta acerca dos conflitos e estruturas do presente.  Para o autor de "Homo Sacer", o conceito antigo e religioso de ofício foi decisivo para a definição de nossas categorias do ser e do agir, que segundo Agamben, aluno de Heidegger, respondem por asfixias da sociedade tecnocrática que precisam ser superadas se ainda se trata de lutar para além de bravatas voluntaristas pela emancipação do gênero humano.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


NIETZSCHE E O PROBLEMA DA CIVILIZAÇÃO
Comentador e tradutor de Nietzsche, Patrick Wotling é um do expoentes da mais recente forma de recepção do filósofo das marteladas no território intelectual francês (e portanto brasileiro). Passou o tempo dos eufóricos "retornos" irreverentes, à procura do espírito mais que da letra nietzschiana, as "interpretações" auto-projetivas de Deleuze, Foucault e Lyotard. 
Mais que pensar a atualidade (o tempo presente) "no" texto de Nietzsche, cumpre escavar a atualidade "do" texto, a força de sua lógica interna, do que efetivamente quis dizer. Na pena sofisticada de Wotling (como, entre nós, de Scarlett Marton, que assina a apresentação), esta é uma abordagem que se revela instigante, profunda e frutífera. 
A segunda parte do título assinala algo de crucial no projeto nietzschiano: a substituição do problema da verdade, obsessão da tradição filosófica, pelo problema da "civilização" ou "cultura", isto é, pelo complexo de pulsões, valores e interpretações da vida, e seus respectivos tipos ascendentes ou decadentes,  que os homens fabricam entre si para dar sentido e poder ao seu navegar  impreciso.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


A CANÇÃO DE AQUILES
Bela, erudita e talentosa: difícil não começar por suspiros pela autora qualquer comentário sobre a obra de Madeline Miller, jovem professora de latim e grego e especialista em adaptação de textos clássicos para o público moderno. "A Canção de Aquiles",  premiado no circuito internacional, transpõe para um gênero literário eminentemente profano  –o romance- a epopeia arcaica, que mais que forma de entretenimento, condensava a visão de um tempo em que deuses e heróis se misturavam aos mortais. 
É esse efeito de proximidade e verossimilhança que, paradoxalmente, a transformação formal da "Ilíada" –respeitada no nível da trama e de seu contexto histórico- torna possível no romance de Miller. O relato da ira de Aquiles ante o assassinato do amigo Pátroclo ganha  contornos mais dramáticos, humanizados, do que nos arquétipos de Homero: adentramos, por exemplo, a psicologia tumultuada de Pátroclo (que aqui é o narrador), cujos pendores homossexuais e dificuldade de ajustamento ao mundo nos parecem tão "modernos". O esplendor selvagem da natureza feminina é lindamente figurado no personagem da mãe de Aquiles, a deusa Tétis.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO

MEIERHOLD
Um teatrólogo já dizia de Meierhold, em 1923, ser este inclassificável, se por classificação entendermos aprisionamentos estáticos impostos a uma obra inquieta, fluida, em constante criação destrutiva no diálogo com suas próprias inspirações e referências, como o legado de Stanislávski (com quem Meierhold trabalhou no início do Teatro de Arte de Moscou), o simbolismo e a ideia wagneriana de obra de arte total. 
Tais esclarecimentos são da professora Béatrice Picon-Vallin neste magnífico estudo –acompanhado de impagáveis recursos iconográficos, como a imagem do teatrólogo russo vestido de Pierrô para uma de suas montagens. 
A ênfase do livro é nas encenações meierholdianas no período de 1905 a 1926, mas não sem abrir perspectivas gerais sobre um projeto teatral que, tendo como grande eixo a estética grotesca (de vasta afinidade com a paixão carnavalesca), se move na tensa união entre anseios revolucionários tanto políticos (Meierhold vestido de trajes do Exército Vermelho, anos antes de ser fuzilado pelas forças stalinistas) quanto imaginativos – a vontade de fazer do teatro espaço para a revolta simbólico-onírica contra a banalidade da vida cotidiana.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO