quarta-feira, agosto 14, 2013

a pérola


"Quando eu era criança e morava no reino da casa de meu Pai e me deliciava com a riqueza e o esplendor daqueles que me criavam, meus pais m enviaram do Oriente, nossa terra natal, com provisões, para uma viagem... Eles me despiram do manto de glória que, com seu amor, haviam feito para mim, e da minha capa, feita sob medida para ajustar-se exatamente a meu corpo, e fizeram comigo um acordo. Eles o escreveram em meu coração para que eu não esquecesse: 'Quando desceres ao Egito e pegares a Pérola que está no meio do mar, cercada pela serpente resfolegante, porás outra vez teu manto de glória e tua capa e, com teu irmão, que nos segue na hierarquia, serás herdeiro de nosso reino'.
Deixei o Oriente e segui meu caminho, acompanhado de dois emissários reais, pois o caminho era perigoso e árduo e eu era jovem para fazer uma viagem dessas... Desci ao Egito e meus acompanhantes se apartaram de mim. Fui direto à serpente, aproximei-me bastante de sua morada e esperei que ela adormecesse para poder tomar-lhe a Pérola... Eu era um estranho para meus vizinhos... Vesti-me com suas roupas, para que não suspeitassem que eu viera de fora pegar a Pérola e alertassem a serpente contra mim. Mas, por alguma razão, eles perceberam que eu não era dali, e se insinuaram até conquistar minha confiança e -com sua astúcia- me fizeram beber e provar sua comida; esqueci que era filho do rei e servi ao rei deles. Esqueci a Pérola que meus pais me haviam mandado pegar. Com o peso do alimento que me deram, caí em sono profundo. Meus pais perceberam tudo isso que me ocorreu e ficaram preocupados comigo... Escreveram-me uma carta, e cada um dos grandes apôs seu nome a ela. 'De teu pai, o Rei dos Reis, e de tua mãe, senhora do Oriente, e de teu irmão, que nos segue na hierarquia, para ti, nosso filho, no Egito, nossas saudações. Desperta e sai de teu sono, e observa as palavras de nossa carta. Lembra-te que és filho de rei; contempla aqueles a quem serves em estado de escravidão. Lembra-te da Pérola, razão pela qual fostes enviado ao Egito. Lembra-te do teu manto de glória, lembra-te de tua esplêndida capa; lembra-te que os podes vestir e adornares-te com eles; lembra-te que podes ter teu nome inscrito no livro dos heróis e que te podes tornar, junto com teu irmão, nosso representante, herdeiro de nosso reino'.
A carta era como um mensageiro... Ela se elevou sob a forma de águia, rainha de todos os animais alados, e voou até pousar a meu lado, e então transformou-se em pura fala. E com sua voz e com o som que fazia, acordei e saí do sono em que estava, tomei da carta, beijei-a, abri-a e a li. A carta continha as mesmas palavras que me haviam sido inscritas no coração. Lembrei-me que era filho de rei, e que minha alma, que nascera livre, desejava encontrar seus iguais. Lembrei-me da Pérola em cuja busca havia sido enviado ao Egito e comecei a encantar a serpente terrível e resfolegante. Levei-a a dormir invocando o nome de meu Pai, o nome do que nos segue na hierarquia, e o nome da minha mãe, a Rainha do Oriente. Apanhei a Pérola e pus-me a caminho, a fim de voltar para meu Pai. Tirei as vestes impuras e sujas que me foram dadas pelo povo do mar e deixei-as em sua terra. Dirigi-me para o caminho que me levaria à luz de nossa terra natal, o Oriente.
A carta que me fora enviada e que me havia despertado precedia-me no caminho e, assim como me havia despertado com sua voz, guiou-me com sua luz, que brilhava diante de mim -e, com sua voz, ela me livrou do temor; com seu amor, me fez prosseguir... (Então, quando ele estava próximo da sua terra, seus pais lhe enviaram seu manto de glória e sua capa.). E eu segui em sua direção, tomei-os e me adornei com a beleza de suas cores. E cobri com o meu manto real todo o meu corpo. Vestido assim, elevei-me ao portão da saudação e da adoração. Curvei-me e adorei o esplendor de meu Pai, que o enviara para mim, cujas ordens eu havia cumprido, assim como ele cumprira o que prometera... Ele me recebeu com alegria e eu fioquei com ele em seu reino....
HINO DA PÉROLA

A história acima é atribuída a um poeta gnóstico do século II d. C., Berdesanes, e nos soa familiar por pelo menos dois motivos: um, mais cultural, está no evidente paralelismo com a história bíblica do filho pródigo que toma de sua herança e a dissipa na farra, tornando-se escravo, comendo com os porcos, trabalhando na sarjeta, e se arrependendo e voltando pra casa do Pai. 
Outro eco, de índole mais psicológica, me parece apontar para a sensação universal de que somos filhos adotivos. A inadequação que nos momentos depressivos pode tomar formas agudas, como a sensação de que nossa verdadeira vida não é esta que estamos levando, ou de que se tivéssemos outros pais, outros amigos, se fôssemos de outro país, tudo seria diferente. 
A história fala de um sentimento de grandeza pessoal sufocada, estrangeira, no exílio. Megalomania, poderão dizer. Mas, assim como delírios de grandeza, há delírios de "pequeneza". Assim como inflações do ego (momentos em que ele se arroga privilégios dos deuses, isto é, dos poderes suprapessoais), há também "deflações", quando ele se vê artificialmente desenraizado de suas matrizes mais profundas, onde lateja latente como dor o chamado (=vocação) de nos tornarmos quem somos. Despertarmos, cumprirmos nossa missão, revermos a pérola -isto é, o tesouro do Reino- da qual e para cujo resgate somos missionários (enviados). 
Como diz Edward Edinger, em Ego e Arquétipo, este conto encantador nos fala dos processos de transformação da alma nos quais a "vida simbólica" ressurge. Saímos da letargia escrava  (o blablablá cotidiano), reencontramos uma linguagem que já não se faz de signos arbitrários, interesseiros e simplórios. No escombro desses signos se resgata a carta para os símbolos, essas ressonâncias profundas de sentido da vida singular e irrepetível de cada criatura.

 O "arrependimento" do filho pródigo, vemos nesta réplica gnóstica da parábola de Cristo, vai bem além de uma tara por culpas e remorsos, de que se acusa a Igreja. É o que os gregos chamavam de metanóia, dar-se, obrigado ou de boa vontade, o tempo da conversão radical da personalidade, processo que segundo Jung é típico das grandes crises existenciais. Seja nos choques traumáticos pro bem ou pro mal (deveria haver uma palavra para traumas do bem), ou no guinada para a segunda metade da vida, por volta dos 35 anos. Momentos de solidão radical, quando nem pai, nem mãe, nem nada que parecia tão íntimo na vida natural é suficiente para aplacar a dor e compreender seu chamado, sobrenatural, extraordinário, que quebranta a concha do "delírio da pequeneza" para dar luz à perola preciosa que sempre fomos e desperdiçávamos.
-Unzuhause-