Monday, August 12, 2013

amores divinos


Prosseguindo a canibalização do livro Ego e Arquétipo, de Edward Edinger, o novo pedaço por mim degustado se refere ao Livro de Jó, relido por ele numa perspectiva junguiana. Assim como os melhores lacanianos não macaqueiam o hermetismo de Lacan, o grande junguiano que é Edinger se distingue do mestre, e assim faz jus a ele, justamente pela clareza didática da exposição. Jung é gnóstico não só nas ideias que retoma e atualiza das seitas heréticas dos primórdios cristãos. Seu escrever é ungido e urdido, ele próprio, de uma espírito de obscuridade, de uma arte labiríntica, alusiva, paradoxal que me faz desconfiar se não é mesmo um matusalém que nos escondeu a idade milenar que realmente tem, ele é como o daimon de Raul, "nasceu há dez mil anos atrás".
Edinger portanto não imita os modos gnósticos do livro Resposta a Jó, pelo qual Jung certamente teria ido parar em alguma fogueira poucas centenas de anos antes. Mas retoma a ideia central, de que Jó, longe do boboca "paciente" em meio aos horrores (perda dos filhos, das posses, da saúde), é homem "gnóstico" no sentido propriamente judaico do termo: homem da sabedoria que nasce na luta.
No contexto hebreu, dádiva alguma dispensa o componente agônico, isto é, da luta. Assim se dá com o próprio nome Israel:

Cláudia Andréa Prata Ferreira, Professora Doutora do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) do Instituto de História da UFRJ, esclarece:

Na palavra hebraica Israel temos as iniciais dos nomes dos patriarcas e das matriarcas, a família original que dá origem a Israel. Na passagem de Gênesis 32, 29, a etimologia sugere o significado de Israel: "E disse: Não, Jacob não será mais teu nome, senão Israel, pois lutaste com (o anjo de) Deus e com homens e venceste" (TORÁ, Gn 32, 29 p.95.). Temos literalmente sara "ele lutou"– ki saríta ím Elohim "porque lutaste com Deus" e el "Deus". O verbo sara tem o sentido de "lutar", "combater" e pede o uso das preposições el "para", et "indicativo de objeto direto definido – sem equivalência na língua portuguesa" e im "com". A maior parte dos dicionários prefere indicar como significado e etimologia incertos e fornecem apenas o sentido de nome masculino e gentílico. Na palavra Israel encontramos o semen, a semente do significado para a realização de um pacto entre Deus e Israel, que manterá a memória e identidade de um grupo através dos tempos e definirá as regras de sua relação com o divino.
http://gospelbrasil.topicboard.net/t4439-etimologia-do-nome-israel

 Vejamos no Eclesiástico como a ideia judaica de sabedoria não tem nada de um "pensador" de Rodin sentado em  introspecção sedentária, de museu. A Sabedoria é amor e batalha, com e contra a própria Sabedoria:
"A Sabedoria eleva os seus filhos
e cuida dos que a procuram.
Os que a amam, amam a vida,
os que a procuram desde a manhã ficarão cheios de alegria.
Aquele que se apega a ela herdará a glória;
para onde for, o Senhor o abençoa.
Aqueles que a servem prestam um culto ao Santo,,
e o Senhor ama os que a ama.
Aquele que a ouve julgará as nações,
o que a ela se aplica habitará em segurança.
(...)
[MAS...]
primeiro, [a Sabedoria] caminhará com ele
em sentido inteiramente contrário
e lhe incutirá temor e tremor,
o provará com sua disciplina até que confie nela 
e ela o tente com suas exigências,
depois, voltará a ele em linha reta, o alegrará
e lhe desvendará seus segredos"
(Eclo 4, 11s)
Como não reconhecer essa mesma dinâmica de tentação, queda e redenção na gnose de Jó: ele deixa pra trás a relação superficial com Deus, o mero conhecer por "ouvir dizer", ele agora vê com os próprios olhos (Jó 42, 5-6). E vê um Deus que não lhe deve satisfações nem retribuições segundo nossos parâmetros humanos, é um deus de luz e de treva, criador das golfinhos que nos sorriem e dos tubarões que fazem pedaços de nós. Assim Jó se faz eticamente "superior" a Deus, ou melhor, participante e continuador da obra da Criação, do sentido, de justiça, como arte e artifício humanos, não dados de natureza. A "resposta a Jó" a que Jung se refere será a encarnação de Jesus Cristo como forma de Deus se pôr à altura do homem, isto é, das aspirações humanas por um hterônimo das Pessoas divinas que vá além da sabedoria bélica, que faça amor e não a guerra.
Que a guerra, contudo, não desaparece no éon cristão, é óbvio. E nem poderia, pois Cristo não veio abolir a Lei, e sim lhe dar plena significação; e a Lei no mundo terreno é de guerra, mesmo no amor. Vide as lindas palavras de um mestre moderno da filosofia de Eros, outro dos heterônimos da Sabedoria, e por que não do próprio Deus. É trecho do admirável livro Erotismo, de Georges Bataille, que acaba de ser lançado no Brasil:
"Em essência, o domínio do erotismo é o da violência, da violação. (...) Toda a questão do erotismo se resume em golpear o cerne mais íntimo do ser vivo, para que o coração pare. (...) Toda a questão do erotismo se resume em destruir o caráter retraído dos participantes como eles são em suas vidas normais. (...) Não devemos jamais esquecer que, apesar da felicidade que o amor promete, seu primeiro efeito é de um turbilhão e tristeza. A própria paixão satisfeita provoca uma agitação tão violenta que a felicidade envolvida, antes de ser uma felicidade a ser gozada, é tão grande a ponto de se parecer com o seu oposto, o sofrimento. (...) A semelhança com o sofrimento é ainda maior porque só ele revela a total importância do objeto amado"
-Unzuhause-