Monday, August 05, 2013

evangelhos da revolta




Esse tempo de MPL, black bocks e congêneres traz à tona, com nova atualidade na esfera coletiva e nacional, uma questão que me encanta e me instiga há anos: a revolta, que até meu doutorado eu pensei e engendrei como fruto de pesquisa no jardim da minha solidão, buscando estímulos e dados para meu cultivo de conceitos entre os recessos de minha consciência turbulenta e as imagens abstratas de exemplos de outrora: da França de 1789 a 1968, ou da Rússia de Dostoiévski a Stálin. Nossos jovens trouxeram tudo isso pra mais perto, não necessariamente com o beneplácito de meus pendores conservadores, que são, de novo, mais existenciais e morais do que político-econômicos. Dentro de mim há um forte anseio de segurança, de proteção que, em sua neofobia (medo do novo), se digladia com um não menos intenso impulso de ruptura e quebrantamento geral.  O vândalo que há em nós, como o "anjo azul" dos cabarés barbarizando o coração de pedra do "Herr Professor" da intelectualização excessiva. Canto com o grande poeta:

 Sofro, Lídia, do Medo do Destino  
-Ricardo Reis-
Sofro, Lídia, do medo do destino.
A leve pedra que um momento ergue
As lisas rodas do meu carro, aterra
             Meu coração.

Tudo quanto me ameace de mudar-me

Para melhor que seja, odeio e fujo.
Deixem-me os deuses minha vida sempre
             Sem renovar

Meus dias, mas que um passe e outro passe

Ficando eu sempre quase o mesmo, indo
Para a velhice como um dia entra
             No anoitecer.



Mas o paradoxo me salva de estagnar nessa ou naquela posição, prefiro encarar todas as tendências como pequenos filósofos em germe, fragmentos de identidade que, ora um, ora outro, deixo se estender pelos caminhos e me conduzindo por seduções. As ideias mais distintas me apetecem como as solares sereias de mágico sotaque de uma praia do Nordeste ou do Rio de Janeiro, ou as Alejandras soturnas da Buenos Aires que Ernesto Sabato comprovou-me haver em mim. A ideia da morte, e o filósofo em germe que aí se agita, tomaram-me as atenções nos tempos de depressão e desvalia de viver. Soterraram a revolta. Que agora renasce, em retorno de espiral, tomando a palavra e despertando outro filósofo potencial, como quem se desiludiu o suficiente para lidar com sentimentos perigosos, senão mesmo tóxicos, como as utopias e as esperanças. Sem ser por elas devorado. Compreendendo-as como antropólogo filosófico, íntimo e distante de um tempo, a modernidade, que se rege pelo espírito de revolta, seu catecismo luciferino, de Blake a Breton, de Rousseau a Marx e Nietzsche (não esquecer as conotações também luminosas de Lúcifer, a estrela da manhã com a qual o próprio Cristo se identificou no Apocalipse). Meu doutorado, de que se segue o resumo logo abaixo, se chamou "Evangelhos da Revolta", problema filosófico e político a que estou voltando agora no pós-doc, deixando um pouco de lado, acadêmica, não pessoalmente, a "filosofia da morte" que me punha na companhia mais de contemplativos como Schopenhauer do que de homens de ação como Sartre e Camus. 
O mito da revolta. A revolta como pulsão de vida, de morte também, de re-torno, de re-volta aos princípios, à pureza que nenhum representante consegue ainda representar. Falsidade dos partidos, sindicatos, congresso, e toda parafernália tagarela da sobrevida de posers que levamos sem parar de mentir.
 A morte, todavia, incorporada à revolta. Porque se sabe também  mortal, finito, envolto em trevas do absurdo e do Mal, o homem protesta, ainda que o foco aparente seja esse ou aquele "fora cabral" . E a finitude que poderia nos afundar na angústia infinita, paralisante, por outro lado nos compele a fazer mil coisas, a fazer, não apenas ser ou pensar o ser. Fazer amor, fazer política, se ligar na vida, se religar aos outros. Daí à religiosidade é um passo. É um respirar. Pois, como diz a epígrafe de minha tese, que quero converter em livro:
"Mas nada pode desencorajar o apetite pela divindade no
coração do homem".
ALBERT CAMUS
O Homem Revoltado

-Unzuhause-

 Evangelhos da Revolta- Camus, Sartre e a Remitologização Moderna

tese de doutorado / FFLCH-USP
2010 
RESUMO
O presente trabalho é uma análise das obras de Albert Camus e de Jean-Paul
Sartre sob o ângulo do que o crítico russo E. M. Mielietínski designou, em sua A
Poética do Mito, de remitologização moderna, fenômeno de revalorização do mito,
forma de discurso e de pensamento supostamente arcaica, mas que, em pleno século XX
–era que deveria marcar o auge da dessacralização e autonomização racional do
homem–, ressurge como representação poderosa de explicitação da condição humana e
do tempo presente.
Um ressurgimento mais patente na literatura –com as obras de Joyce, Kafka e
Thomas Mann, entre outros–, crítica literária e ciências humanas (especialmente a
psicologia freudiana e junguiana e a etnologia), mas que também intervém de maneira
significativa na filosofia ocidental, em bases que nos propomos a abordar em suas
figurações particulares em Albert Camus e Jean-Paul Sartre.
A célebre querela entre os dois, por conta da publicação por Camus de O

Homem Revoltado, em 1951, oferece o contexto objetivo para uma investigação que,
contudo, vai além de tal episódio, e mesmo das diferenças exclusivamente ideológicas e
filosófico-doutrinais ali em questão. Tomando por eixo privilegiado de análise
justamente O Homem Revoltado, pretendemos estudar os principais aspectos da
armação mitopoética da obra, à luz de suas ressonâncias em outras obras do autor, para
depois lançar pistas para um cotejo deste específico "mitologismo moderno" – que
também propomos desvendar enquanto fenômeno de "camuflagem do sagrado",
segundo Mircea Eliade– com o que Sartre apresenta especialmente na peça As Moscas,
em suas concepções dramatúrgicas em geral e também em textos como "Erostrato" e o
"Prefácio" de Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, no que nos propomos chamar
de a antropo(a)gonia mítica sartriana, calcada no valor simbólico da violência para a
gênese do humano, em contraste com a "nostalgia participativa" que, em Camus, une os
homens entre si e com a Natureza.
PALAVRAS-CHAVE: CAMUS – SARTRE – MITO – RELIGIÃO – REVOLTA