Wednesday, August 28, 2013

Francisco, Inácio e Leonardo



"Com frequência o víamos examinando coisas pequenas para elevar sua mente até Deus, que é grande mesmo nas mínimas coisas. Ao ver uma planta, uma folha, uma flor, qualquer tipo de fruta, ao considerar um pequeno inseto ou qualquer outro animal, ele se elevava aos céus e mergulhava nos mais profundos pensamentos, e de cada pequena coisa extraía sabedoria e os conselhos mais úteis para o aprendizado da vida espiritual".
Essas palavras poderiam se referir a Leonardo Boff, um de nossos maiores teólogos, que tem se mostrado de uma alegria contagiante sempre que se refere ao jesuíta de alma franciscana que foi chamado pelo Espírito Santo para, como o santo de Assis, reconstruir uma Igreja "em ruínas", após anos de vexames morais, perda de relevância sociológica e fiasco teológico-pastoral. Quando "pediu pra sair", Ratzinger enfim se redimiu do mal que seu projeto intelectual -ou sua intolerância em dialogar com a realidade múltipla dentro e fora da Igreja- representara para a Igreja, e hoje o reverencio por isso em meu altar pessoal. Sem necessariamente embarcar nos excessos marxistas da Teologia da Libertação, podemos fazer jus por dentro da Tradição cristã ao apelo ético e espiritual de Justiça e solidariedade, de que Marx, cristão inconsciente, se fez profeta profano.
Mas não é de Boff, o Galileu de Ratzinger, que estamos falando. Trata-se de um depoimento de um dos primeiros jesuítas, Pedro Ribadaneira, a respeito do próprio Inácio de Loyola, seu amigo e fundador da Companhia de Jesus em 1534. Vemos assim que a conexão franciscano-jesuítica não é um gesto arbitrário do papa Francisco, deita raiz numa espiritualidade comum que, não desconsiderando as imperfeições da natureza e pecados do ser humano, ainda assim se acasala em um amplexo cósmico com tudo o que existe, vê em tudo o que existe "provas" do Criador. Prova no sentido tanto de evidências quanto no de provações, ou melhor, "exercícios espirituais" de uma escola, a escola da vida, pela qual vamos em trânsito, do berçário ao pós-doutorado, e de lá para o trabalho concreto, ao longo de múltiplas "vidas", ainda que numa mesma e única existência. 
Para complementar, um dos momentos em que Boff celebra o nosso novo Pastor universal, que pelo nome adotou também um projeto, o do gênio de Assis que se fez pobre como Deus prefere os pobres, homem da paz com abundância de amor pela Vida que pulsa em cada criatura.
-Unzuhause-



"Enquanto Ratzinger viver, não é bom que Francisco me receba em Roma", diz Leonardo Boff

El PaísFrancho Barón
No Rio de Janeiro
·                                 15.jun.2012 - Júlio César Guimarães/UOL

O teólogo da Libertação Leonardo Boff discursa na Cúpula dos Povos, um dos maiores eventos paralelos da Rio+20, em 2012
Genézio Darci Boff, ou Leonardo Boff (nascido em Santa Catarina em 1938), irrompe na sala com ares de druida travesso, o sorriso travesso e as mãos que descrevem elipses no ar, como quem tenta pegar o vazio.
Boff, teólogo da Libertação, foi condenado ao ostracismo por Joseph Ratzinger em 1985, depois da publicação de seu livro "Igreja, Carisma e Poder", um torpedo contra o "establishment" do Vaticano nos últimos dois papados. Ele volta à cena para anunciar a chegada da igreja do terceiro milênio, liderada por Francisco. Segundo Boff, uma instituição "com cheiro de ovelhas, e não flores de altar".
El País: O que o mundo pode esperar do papa Francisco?
Leonardo Boff: Vem um papa cujo nome, Francisco, não é um nome, mas um projeto de igreja. Uma igreja pobre, humilde, despojada do poder, que dialoga com o povo. Temos muita esperança de que ele inaugure a igreja do terceiro milênio. Também creio que se criará uma dinastia de papas do Terceiro Mundo.
El País: O senhor foi uma grande voz dissidente na Igreja Católica e um dos mais críticos com os dois papas anteriores. O que o faz ser tão otimista quando fala do novo pontífice?
Boff: Creio que é muito corajoso. Situou-se ao lado dos pobres e contra a injustiça. Temos uma igreja que tem hábitos palacianos e principescos. Este papa mandou sinais de que quer outro estilo de igreja, dos pobres para os pobres, e essa é a grande herança da Teologia da Libertação. Vai pôr em xeque os hábitos tradicionais de cardeais e bispos.
El País: A igreja brasileira sofre uma sangria de fiéis há anos. O senhor pensa que a chegada de Francisco ao Brasil poderá ser crucial para reverter essa tendência?
Boff: Certamente, muitos protestantes vão participar dos atos desta Jornada Mundial da Juventude. Por outro lado, não considero uma desgraça que haja muitas igrejas cristãs. Em grande parte é culpa da Igreja Católica, porque, de fato, para o número de católicos que temos no Brasil, deveríamos ter 120 mil sacerdotes e temos somente 17 mil. Em nível institucional, a igreja fracassou.
El País: O senhor considera a possibilidade de voltar à Igreja Católica com este novo papa?
Boff: Sempre me considerei um teólogo católico que nunca abandonou a igreja. Sempre disse que mudei de trincheira, mas não de batalha. Portanto, meu trabalho eclesiástico continua, mas com uma diferença: casei-me. Se o papa acabasse com o celibato obrigatório, voltaria ao caminho comum da igreja.
El País: O senhor acredita que Bergoglio poderia abolir o celibato obrigatório?
Boff: Creio que existe essa possibilidade, porque Francisco traz a experiência do Terceiro Mundo, onde o celibato nunca foi uma virtude especial. Vejo que pode dar dois passos: primeiro, reconhecer que há 100 mil sacerdotes casados na igreja e permitir que voltem a seu trabalho. Segundo, que se institua o celibato opcional. Todas as igrejas já fizeram isso e a única que resiste é a católica. E com isso se causa muito dano.
El País: O senhor pretende se encontrar com Bergoglio?
Boff: Não quero forçar essa situação. Ele já disse que gostaria de me receber em Roma, mas antes tem que reformar a Cúria. E, enquanto Bento 16 viver, não seria bom para Francisco que eu, que tive um confronto doutrinário com ele [Ratzinger], seja recebido em Roma. Mas ele está aberto a me receber, inclusive trocamos correspondência.
El País: Esse encontro poderia ocorrer no Brasil, aproveitando a viagem do papa?
Boff: Eu gostaria disso. Escrevi um livro intitulado "Francisco de Assis, Francisco de Roma", e gostaria de entregá-lo a ele pessoalmente. Mas, como lhe disse, não quero forçar uma situação que poderia ser mal interpretada pela imprensa e criar um problema pessoal para o papa. A velha Cúria poderia interpretar como algo estranho, quase ofensivo.
El País: O senhor pensa que a Teologia da Libertação pode viver um novo apogeu a partir de agora?
Boff: Creio que sim. A Teologia da Libertação nasceu como uma tentativa de escutar o grito do oprimido. A maneira de atuar do novo papa favorece essa doutrina. E seria melhor que nem a mencionasse, porque poderia criar polêmica.
El País: Como o senhor vê o futuro do catolicismo na América Latina?
Boff: Creio que o futuro da América Latina não será um futuro de cristianismo. Será uma religião nova, na qual haverá muitos elementos cristãos, especialmente os santos, a missa, os ritos como o batismo, a eucaristia e o matrimônio, mas também com elementos da tradição indígena e das religiões afro-americanas.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves