Sunday, August 04, 2013

Heidegger em Jerusalém


http://marcelocoelho.blogfolha.uol.com.br/2013/08/04/filmes-hannah-arendt/
http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2013/07/estreia-hannah-arendt-focaliza-polemicas-da-pensadora-alema1.html

Os links acima trazem, um em reportagem do Globo, e outro em análise profunda no blog de Marcelo Coelho, excelentes subsídios para quem viu ou pretende ver o filme "Hannah Arendt", da diretora Margareth von Trotta. O filme conta os bastidores e repercussão das reportagens que, como correspondente da New Yorker, Arendt fez a propósito do julgamento de Adolf Eichmann, ex-funcionário nazista capturado pelas forças israelenses na Argentina. Os textos depois se converteram no livro Eichmann em Jerusalém, um dos mais conhecidos de Hannah Arendt.
Não vou repetir nem um nem outro desses trabalhos de informação e de opinião, queria apenas tomar o filme como gatilho para trazer alguns dados sobre o relacionamento de Arendt com Martin Heidegger. Esse episódio aparece, no filme, por alusões de intelectuais do círculo de Arendt já no exílio norte-americano, em especial o enciumado e "cricri" Hans Jonas. Mas aparece sobretudo em flashbacks da protagonista (vivida com extrema categoria e vigor pela atriz Barbara Sukowa), muitos dos quais permeados pelo mesmo leitmotiv sinistro que acompanha as imagens históricas, mostradas no filme, do julgamento do carrasco nazista.
Qual carrasco? Eichmann  ou, subjetivamente, para Hannah, seria também o seu ex-amante? 
É com essa dúvida que saí do cinema, evidentemente não reduzindo por psicologismos um constructo filosófico impressionante como o da "banalidade do mal" - que foi Eichmann que lhe inspirou, naqueles dias de julgamento, com as mostras que ele deu de sua mediocridade intelectual e postura de servidor burocrático, cumpridor de ordens do Estado assassino. Muito longe, pois, de clichês como o de um monstro ou demônio. Para a intensa corrente de opinião judaica dos EUA, essa caracterização do carrasco, juntamente com as acusações de Arendt acerca da cumplicidade de líderes judaicos com o Holocausto, bastou para uma pesada campanha de linchamento moral contra a filósofa, embora ela também de origem judaica e prisioneira dos nazistas por curto período.
A insinuação do cricri Hans Jonas, a dado momento do filme, é que Arend invertera tudo, vitimizando o culpado e culpabilizando as vítimas, movida de algum modo pelo antigo affair. Evidente que não fez nada disso. Mas o filme sugere, na superposição da trilha sonora de Eichmann e de Heidegger no espírito de Hannah, que, sim, um elo oculto unia essas duas "imagos" subjetivas. O mal, ao meu ver, nunca é banal. E no caso de Hannah e Heidegger, mostra seus paradoxais vínculos com o desejo. Hannah comenta no filme que o marido, que sem dúvida amava, era muito bom com ela, "bom até demais", por vezes. Eram mesmo almas gêmeas e ele, um anjo da guarda de ternura e afinidade. Mas o diabo tem seduções incomparáveis.
Conheceram-se em, 1924, no ano em que Arendt, uma judia alemã de 18 anos, se inscreveu na Universidade de Marburg e assistiu às aulas de Filosofia de Heidegger.
A relação durou meio século, e teve diversas fases, a começar do romance tórrido até a amizade retomada no pós-guerra, mesmo com tudo o que começava a vir a público acerca do profundo envolvimento de Heidegger com o nazismo.
Arendt confessaria a Heidegger, numa nota não enviada, que ele era o homem "a quem permaneci fiel e infiel, sempre com amor". Ela então tinha 54 anos e ele passava dos 70.
De 1925 a 1930, foram amantes; dos primeiros anos da década de 30 (Heidegger se filia ao Partido Nazi em 33) até 1950, a interrupção no bojo dos grandes acontecimentos mundiais; de 1950 a 1975, quando reataram por iniciativa de Hannah Arendt a antiga relação, ou antes criaram uma nova, que durou até a morte de Arendt. Heidegger por sua vez via na reaproximação mais de um benefício. Num nível sentimental, ela lhe traria, como da primeira vez, a lufada de alegria e autoconfiança, asseguramento da validez de seus princípios morais. Mas o prestígio internacional, e especifamente na América, que cercava Arendt lhe propiciava também a chance de uma espécie de "lavagem" de sua imagem desgastada de intelectual nazi. 
Não é a primeira vez que afeto genuíno se mesclava de cálculo pragmático na atitude deste homem de quem se pode afirmar o gênio de filósofo, mas não a hombridade dos homens de bem.  Heinrich Blüchner, ex-comunista alemão que conheceu no exílio, e que se tornou seu segundo marido, alma gêmea e porto seguro, era admirador da obra mas não do caráter de Heidegger. E concordou com as motivações pessoais de Hannah em retomar a amizade. Era para ela uma conexão por demais preciosa com a própria identidade e origens. Nas cartas do período, admitia ao ex-mestre que não teria chegado tão longe "sem tudo o que aprendi contigo na minha juventude". E tentou muitas vezes atenuar junto ao público mais amplo o "erro" passageiro de Heidegger, motivado pela suposta inocência de um filósofo que se deixara seduzir por quimeras ideológicas e que nem sequer havia lido Mein Kampf (o que ela provavelmente sabia não ser verdade).
Heidegger facilmente a convenceu de que as acusações não passavam de difamação: ela afinal via se confirmar exatamente o que mais ansiava escutar dele, uma "inocência" suficiente para que pudesse dar novo alento a esta que foi provavelmente a relação mais forte e decisiva de sua vida.
Arendt, adolescente, precisava de amor, proteção e orientação. Quando tinha 7 anos, perdera o pai pela sífilis, pouco depois de o avô, outro importante referencial para ela,  também ter morrido; a mãe, objeto de sua veneração, viajava muito, além de que se casou pela segunda vez, golpe que devastou a menina Hannah -que não se sentia próxima do padrasto e odiava as duas meias-irmãs mais velhas, que a mãe todavia cobria de carinhos.
A origem judaica também foi para ela fator de dificuldades imensas de ajustamento ao mundo ao redor; sentia-se, em suma, frágil, perdida, desamparada, ainda que sempre se mostrasse corajosa, atitude que marcou sua imagem pública de intelectual ao longo de toda a vida: mulher forte, segura de si no limite da arrogância. Mas nunca se fez ver assim para Heidegger, que a seduziu por essas frestas afetivas e que nela encontrou o prazer sensual e o reconhecimento sempre tentadores das lolitas impetuosas, a aventura extra-conjugal que punha em risco a família e a própria carreira, naquela Alemanha de cultura acadêmica fortemente hierarquizada e moralismo rígido. Heidegger tinha então 35 anos, era casado com uma matrona germânica típica, zelosa nazista desde os anos 20; era pai de dois filhos e estava concluindo o manuscrito de Ser e Tempo (1927). Apaixonou-se logo nos primeiros encontros em sala de aula. Homem severo, rígido e trabalhador, filho de um casal de camponeses e católicos fervorosos. A melhor pedida para dimensionar as opressões de um "Herr Professor" na Alemanha da época é sem dúvida correr à locadora para pegar o clássico "Anjo Azul", estrelado por Marlene Dietrich e suas pernas também demoniais, fatídicas, no filme, para sua coleção de vítimas, entre elas um pobre professor sexualmente reprimido.
Em agosto de 33, quatro meses depois da nomeação de Heidegger como reitor da Universidade Albert Ludwig de Friburg, da sua filiação ao partido e do famigerado discurso de posse, onde manifestou seu apoio entusiástico ao partido, Hannah abandonou a Alemanha. Certamente cogitava o exílio antes, mas a adesão pública de Heidegger a Hitler bem pode ter precipitado sua decisão. Não deixou de acusar desde então os intelectuais alemães, entre eles Heidegger, por este gesto cego e covarde de traição à civilização ocidental. Mesmo assim não o punha na vala comum dos "monstros" ignóbeis. Quem sabe o enxergasse, neste aspecto, mais próximo dos idiotas ideológicos à la Eichmann, jeito de isolar como inocência política a faceta mostruosa do ex-amante,  homem que o iniciou à filosofia e ao amor, tão vinculados - filosofia é o amor ao saber, e a tese de doutorado de Hannah foi sobre o conceito de amor, tão carregado entre sublime e pecador, angelical e demonial, em Santo Agostinho. 
-Unzuhause-