Tuesday, August 06, 2013

sobre o anarquismo de direita

http://legio-victrix.blogspot.com.br/2011/05/anarquismo-de-direita.html

O "anarquismo de direita" (vide texto abaixo) era um atrativo tão ou mais poderoso que o comunismo para o jovem Sartre. O tema me vem à baila ao ler sobre os temores esquerdistas de "fascistização" do ímpeto arruaceiro dos jovens que estão nas ruas desde junho. Os temores não são de todo infundados. O conservadorismo pode mesmo ter relação ambígua, paradoxal, com a jovialidade quebra-quebra.  O amor à Tradição transmutado em destrutividade festiva, dedo médio de destruição que se levanta contra os que a querem destruir.

 Crítico das quimeras abstratas da filosofia academicista de seu tempo, Sartre como seus camaradas de geração, se sentiam seduzidos por propostas de radicalização que valiam mais por si mesmas do que por esse ou aquele desaguadouro ideológico. As soluções extremas pareciam mostrar que republiquetas como a de Weimar tinham representantes que não mais representavam ninguém, políticos cujo interesse de melhorar o mundo era apenas o de engordar seus bolsos, instituições falidas. Alguma semelhança com nosso Brasil de hoje?  O fascínio da negatividade. A liberdade como  transtorno atmosférico que irrompe no céu de brigadeiro da mediocridade dos safados ("salauds"). O Príncipe de Maquiavel, arquétipo do político moderno, não do político como profissão entre outras, do homem em si como político, gestor, soldado de si mesmo. O Eu de Stirner como Anarquia primordial dos elementos e Autogestão a se construir ego-centradamente na escolha de si mesmo como sua própria causa. O Príncipe, figurado pelo Sartre de esquerda, depois da guerra, nos sonhos engajados e violentos da revolução bolchevique.  Mas que no Sartre dos anos 30, o Sartre nietzschiano de "A Náusea" -obra dele que mais amo, junto com "As Moscas" e "O Ser e o Nada"-, era encarnado no teatro de si mesmo, nos jogos cênicos com o amigo Paul Nizan -depois também comunista fervoroso-  estrelados pelo personagem de Übermensch,  aristocrata do espírito. Anarquista de direita.

 -Unzuhause-

Anarquismo de direita
-por Karlheinz Weißman-

O conceito de anarquismo de direita parece paradoxal, e verdadeiramente um oxímoro, partindo-se da suposição de que todos os pontos-de-vista "direitistas" incluem uma valoração particularmente elevada do princípio da ordem... Em verdade o anarquismo de direita ocorre apenas em circunstâncias excepcionais, quando a até então velada afinidade entre anarquismo e conservadorismo pode tornar-se aparente.

Ernst Jünger caracterizou essa conexão peculiar em seu livro Der Weltstaat (1960): "O anarquista em sua forma mais pura é aquele, cuja memória recua o mais longe: até tempos pré-históricos, até mesmo pré-míticos; e que acredita, que o homem àquele tempo preenchia seu verdadeiro propósito... Nesse sentido o anarquista é conservador-primitivo, que traça a saúde e a doença da sociedade até suas raízes." Jünger posteriormente chamou esse tipo de "prussiano"... ou "conservador anarquista", o "Anarca" e referiu sua própria desenvoltura como consistente com isso: um distanciamento extremo, que nutre a si mesmo e arrisca a si mesmo em situações limítrofes, mas que encontra-se apenas em uma relação de observação frente ao mundo, na medida em que todas as instâncias de ordem autêntica estão dissolvendo-se e uma "construção orgânica" ainda não é, ou não mais é, possível.

Ainda que o próprio Jünger tenha sido imediatamente influenciado pela leitura de Max Stirner, a afinidade de tal padrão de pensamento com o dandyismo é particularmente clara. No dandy, a cultura de decadência do fim do século XIX expressa um caráter, que por um lado era niilista e entediado, e por outro lado oferecia o culto do heróico e do vitalismo como uma alternativa aos ideais progressivos.

A recusa das hierarquicas éticas atuais, e prontidão de ser "inadequado, no sentido mais profundo da palavra, de viver" (Flaubert), revela os pontos comuns do dandy com o anarquismo; sua frieza emocional estudada, seu orgulho, e sua apreciação pela boa moda e boas maneiras, bem como sua afirmação de constituir "um novo tipo de aristocracia" (Charles Baudelaire), representam a proximidade do dandy com a direita política. A isso adicione-se a tendência dos dandys politicamente inclinados a declararem parcialidade em relação à Revolução Conservadora ou seus predecessores, como por exemplo Maurice Barrès na França, Gabrielle D'Annunzio na Itália, Stefan George ou Arthur Moeller van den Bruck na Alemanha. O autor japonês Yukio Mishima pertence as seguidores tardios dessa tendência.
Além dessa tradição de anarquismo de direita, existiu outra tendência mais velha e completamente independente, conectada com circunstâncias especificamente francesas. Aqui, ao fim do século XVIII, nos estágios posteriores do Ancien Régime, formou-se um anarchisme de droite, cujos protagonistas clamavam para si mesmos uma posição "além do bem e do mal", uma vontade de viver "como os deuses", e que não reconheciam nenhum valor moral além da honra pessoal e a coragem. A visão-de-mundo desses libertinos estava intimamente ligada com um ateísmo agressivo e uma filosofia pessimista da história. Homens como Brantôme, Montluc, Béroalde de Verville, e Vauquelin de La Fresnaye tinha o absolutismo como uma mercadoria que infelizmente opunha-se aos princípios do velho sistema feudal, e que apenas servia aos desejos do povo por assistencialismo. Atitudes, que no século XIX seriam novamente encontradas com Arthur de Gobineau e Léon Bloy, e também no século XX com Georges Bernanos, Henry de Montherlant e Louis-Ferdinand Céline. Essa posição também apareceu em uma versão especificamente "tradicionalista" com Julius Evola, cujo pensamento girava ao redor do "indivíduo absoluto".

Em qualquer forma que o anarquismo de direita apareça, ele é sempre impulsionado por um sentimento de decadência, por um desgosto frente a era das massas e frente ao conformismo intelectual. A relação com a política não é uniforme; porém, não raro o distanciamento transforma-se em ativismo. Qualquer unidade mais próxima é negada de pronto pelo individualismo altamente desejado pelos anarquistas de direita. Nota bene, o termo é às vezes usados por homens - por exemplo George Orwell (anarquista Tory) ou Philippe Ariès - que não exibem sinais relevantes de uma ideologia anarquista de direita; enquanto outros, que objetivamente exibem esses critérios - por exemplo Nicolás Gómez Dávila ou Günter Maschke - não fazem uso desse conceito.