Sunday, August 25, 2013

iniciação à Magia - a jumenta e o iceberg


E. W. Butler, um sábio bruxo que eu aprecio, comenta que, embora as fisicas quântica e da relatividade apenas redigam, noutros termos, o que a magia ancestral sempre afirmara acerca do Universo, é mesmo na psicologia moderna, sobretudo com Jung, que os magos encontram o principal veio de tradução dos insights esotéricos em termos palatáveis à moderna mentalidade científica. Verificaremos isso com mais detalhes ao longo dos posts que prevejo para minha releitura do delicioso livro de Butler Magia: Ritual, Poder e Propósito
Por ora gostaria de registrar um dos primeiros níveis em que a energia do Mago é necessária à vida cotidiana: para trazer renovo  para as palavras, alquimizando o chumbo inútil dos clichês  no ouro de significações que tornem a encantar. Butler realiza isso quase a cada linha do que tem a dizer, e o faz sem alarde, por exemplo ao empregar a batida expressão "ponta do iceberg". Ele fala, a determinada altura do livro, que as descobertas da psicologia sobre a mente inconsciente muito deveram a explorações do profundo psíquico pelos hipnotizadores, os médiuns e demais ins-pirados insatisfeitos, na segunda metade do século XIX, com o retrato racionalista do espírito humano então tido como certeza científica inabalável pela psicologia acadêmica. O que resultou na revolução que constatou ser a mente da vigília apenas a tal "ponta do inceberg". 
Mas vejam como ressoam noutra vibe, em diapasão de magia -isto é, em conexão consciente com os níveis profundos da energia cósmica-, as palavras como que Butler retoma essa metáfora, excelente, segundo ele, "uma vez que o comportamento dessas montanhas de gelo muito se aproxima do comportamento da própria mente. Acontece frequentemente de o iceberg, embora o vento possa estar soprando sobre uma de suas extremidades, se mover na direção contrária, uma vez que seu gigantesco corpo submerso sofre muito mais os efeitos das correntes marítimas bem abaixo da superfície. Assim se dá com a mente humana".
De fato, quantas vezes nossa intenção é uma, mas tudo parece conspirar no sentido contrário? É possível a cada situação pontual, sincrônica (de momento), você apontar fatores aleatórios, casuais, que ajudaram no impedimento de que seu propósito desse certo. Mas um espectro de sentido distinto desponta a um olhar mais distanciado, diacrônico (ao longo do tempo), revelando contornos de uma contra-intenção (ou finalidade inconsciente) operando para frustar cada nova tentativa que fazemos na direção da intenção consciente e equivocada. Diferença radical entre a brisa na ponta do iceberg e as correntes do mar profundo, um dos mais antigos símbolos do inconsciente coletivo.
Falando em símbolos, colho na Bíblia hebraica uma passagem célebre, tão "fabulosa" que faz uma jumentinha se botar a falar com o heroi humano, Balaão, cansada das porradas que ele lhe dá por ela estar empacada - por vontade do Anjo do Senhor, quiçá equivalente ao que os bruxos chamam de nosso Anjo Guardião. 

A jumenta de Balaão 

Números 22, 21ss

21 Balaão levantou-se pela manhã, pôs a sela sobre a sua jumenta e foi com os líderes de Moabe.
22 Mas acendeu-se a ira de Deus quando ele foi, e o Anjo do Senhor pôs-se no caminho para impedi-lo de prosseguir. Balaão ia montado em sua jumenta, e seus dois servos o acompanhavam.
23 Quando a jumenta viu o Anjo do Senhor parado no caminho, empunhando uma espada, saiu do caminho e prosseguiu pelo campo. Balaão bateu nela para fazê-la voltar ao caminho.
24 Então o Anjo do Senhor se pôs num caminho estreito entre duas vinhas, com muros dos dois lados.
25 Quando a jumenta viu o Anjo do Senhor, encostou-se no muro, apertando o pé de Balaão contra ele. Por isso ele bateu nela de novo.
26 O Anjo do Senhor foi adiante e se colocou num lugar estreito, onde não havia espaço para desviar-se, nem para a direita nem para a esquerda.
27 Quando a jumenta viu o Anjo do Senhor, deitou-se debaixo de Balaão. Acendeu-se a ira de Balaão, que bateu nela com uma vara.
28 Então o Senhor abriu a boca da jumenta, e ela disse a Balaão: "Que foi que eu fiz a você, para você bater em mim três vezes?"
29 Balaão respondeu à jumenta: "Você me fez de tolo! Quem dera eu tivesse uma espada na mão; eu a mataria agora mesmo".
30 Mas a jumenta disse a Balaão: "Não sou sua jumenta, que você sempre montou até o dia de hoje? Tenho eu o costume de fazer isso com você?" "Não", disse ele.
31 Então o Senhor abriu os olhos de Balaão, e ele viu o Anjo do Senhor parado no caminho, empunhando a sua espada. Então Balaão inclinou-se e prostrou-se com o rosto em terra.
32 E o Anjo do Senhor lhe perguntou: "Por que você bateu três vezes em sua jumenta? Eu vim aqui para impedi-lo de prosseguir porque o seu caminho me desagrada.
33 A jumenta me viu e se afastou de mim por três vezes. Se ela não se afastasse, certamente eu já o teria matado; mas a jumenta eu teria poupado".
34 Balaão disse ao Anjo do Senhor: "Pequei. Não percebi que estavas parado no caminho para me impedires de prosseguir. Agora, se o que estou fazendo te desagrada, eu voltarei".
35 Então o Anjo do Senhor disse a Balaão: "Vá com os homens, mas fale apenas o que eu disser a você". Assim Balaão foi com os príncipes de Balaque.
36 Quando Balaque soube que Balaão estava chegando, foi ao seu encontro na cidade moabita da fronteira do Arnom, no limite do seu território.
37 E Balaque disse a Balaão: "Não mandei chamá-lo urgentemente? Por que não veio? Acaso não tenho condições de recompensá-lo?"
38 "Aqui estou!", respondeu Balaão. "Mas seria eu capaz de dizer alguma coisa? Direi somente o que Deus puser em minha boca".
39 Então Balaão foi com Balaque até Quiriate-Huzote.
40 Balaque sacrificou bois e ovelhas, e deu parte da carne a Balaão e aos líderes que com ele estavam.
41 Na manhã seguinte Balaque levou Balaão até o alto de Bamote-Baal, de onde viu uma parte do povo.


A jumenta, o homem e o anjo, tríade de níveis de consciência que o homem deve alinhar, em busca de harmonia e expansão de seu poder e prazer de viver: o animal (instintivo), o humano (ético) e o divino (místico). Se, distraídos ou ansiosos, não temos olhos para o Anjo a um palmo de nosso nariz, se não escutamos a voz de Deus no silêncio atento da consciência concentrada, suas verdades e vontades para nós se voltam contra nós na forma das irracionalidades teimosas, insistências "burras" e feridas tatuadas no corpo do destino. 
-Unzuhause-