Tuesday, August 27, 2013

iniciação à Magia -os níveis da mente


Vamos prosseguir nossos estudos de iniciação à Magia, em conexão com a Psicologia. Nossa base aqui é o livro já mencionado de Ernest Butler, Magia - Ritual, Poder e Propósito, uma das melhores leituras que já fiz neste campo, e que retomei por conta dos ciclos de História das Religiões que, a começar do budismo e do papa Francisco, venho compartilhando no blog este ano.
Butler nos leva pela mão desde os primeiros passos: vimos o iceberg como metáfora da personalidade humana. Ele prossegue relembrando o conceito psicanalítico de libido, e claramente se alinha à leitura junguiana do termo: não reduz libido a instinto (ou pulsão, como gostam os franceses) sexual, pois se trata de uma "energia psíquica" múltipla, que deságua no desejo sexual mas também na vontade de autoconservação, no impulso gregário bem como no impulso da transcendência: o instinto religioso, tão legítimo e "natural" -se bem que articulado em termos culturais diversos- ao homem quanto os demais instintos. 
No reconhecimento da função religiosa da psique, segundo Butler, está uma das grandes contribuições de Carl Gustav Jung para a psicologia do inconsciente. Se para Freud o inconsciente é o Id cercado e contido, "de fora para dentro", por assim dizer, pelos ditames moralizantes e espiritualizantes da religião, para Jung o religioso está imerso no inconsciente, como energia e imagética primordiais e indomesticadas. Religião não é pois mera invenção cultural, está nos nossos genes e na história evolucionária da espécie. Jung não se faz de rogado para transbordar os limites culturalistas que as ciências sociais tendem a impor à imagem do humano que elas mesmas forjam: uma página em branco que as contingências e arbitrariedades das história preencheriam de conteúdo. No seu reconhecimento do universalismo natural da linguagem simbólica, Jung está para a linguística de Noam Chomsky assim como Lacan e seu simbolismo arbitrário, convencional e particular de cada cultura estão para a linguística de Saussure. 
A cada nível de profundidade em que se adentra no espírito humano, menor vai ficando o grau de diferença e de particularismo, e mais e mais o humano é dissolvido na generalidade dos comandos naturais. Se a consciência é o ápice do que temos de "eu" -embora todos digam sempre o mesmo "eu"-, todo o espectro da in-consciência marca um alargamento do nós: os complexos do inconsciente pessoal nos põem em crescente amálgama com os "outros" significativos de nossa vida, familiares, amigos e assim por diante, e tais conexões perdem mais e mais contornos, mas não a intensidade do magma, conforme nos descobrimos produtos e co-criadores do processo mental de toda a humanidade e misturados aos níveis de consciência do reino animal e vegetal. "Isso nos leva a crer que, assim como nossos corpos têm dentro da sua própria estrutura as marcas do seu desenvolvimento evolutivo oriundo dos reinos mais inferiores da natureza, nossa mente mostra linha similar de evolução", diz Butler, que cita aqui palavras do próprio Jung:
"Quem fala por imagens primordiais, fala com mil línguas: agarra e sobrepuja e, ao mesmo tempo, eleva o que tira do individual e do transitório pessoa à esfera do eterno, exalta o quinhão pessoal à dimensão do homem e, assim, libera em nós todas aquelas forças úteis que desde sempre vêm capacitando a humanidade a se auto-resgatar de qualquer desastre e a sobreviver à mais longa das noites". 
Outro propósito não tem a magia, que, "com suas origens no passado imemorial, faz exatamente isso, fala ao subconsciente (sic) do homem por meio de imagens arcaicas de seus símbolos e rituais, e então produz 'mudanças de consciência' que o mago tanto busca [Butler alude aqui à definição básica que dá para a magia: arte de causar mudanças na consciência pelo poder da vontade.]. Assim foi também como o Senhor Jesus que: 'Sem a parábola, não se dirigia a eles' (Marcos 4, 34)".
Para o objetivo do mago, que não é, como reza o clichê, pacto com diabo, feitiço de amarração e quejandos, mas sim a  transformação da consciência pelo poder da vontade, é de máxima importância compreender nossa multiplicidade interior, e o quão pouco dela, a cada momento, é abrangido pelo radar egoico da consciência, seja "para baixo", rumo aos instintos biológicos que nos revelam matéria indiferenciada de toda a Criação, seja "para cima", no que nos redescobrimos imagem e semelhança do espírito do Criador: ocultistas se queixaram de que Jung tratava como "inconsciente", com todo estigma de neurose e delírio que o termo carrega, o que para a Tradição ancestral é o patrimônio espiritual e sapiencial da Humanidade. Talvez tendo isso em vista, Butler faz uma distinção terminológica que Jung talvez não achasse necessária, entre o inconsciente coletivo e a chamada "supraconsciência" ou, como se diz hoje, "mente transpessoal". Mas o importante não é a a escolástica dos termos, mas a mística da experiência:
 "Ter a capacidade de se tornar consciente das correntes ocultas e dirigi-las na tarefa de conduzir a vida pelos caminhos da sabedoria e da paz é o desejo ardente de qualquer mago ao olhar as profundezas de seu ser; e, ao vislumbrar a centelha da luz eterna que é o seu verdadeiro centro, ele exclama em nome e pelo poder dessa centelha: 'Eu tenho a onipotência ao meu comando e a eternidade à minha disposição".
-Unzuhause-