sexta-feira, agosto 30, 2013

Iniciação à Magia : os testamentos de Deus


Nossas lições introdutórias sobre Magia e Psicologia prosseguem hoje sintetizando as principais teses do que se poderia chamar de "filosofia mágica", conforme entendida por Ernest Butler.
O ponto de partida aqui é a imagem da "web" cósmica: o Universo como uma Totalidade viva, una e inteligente, na qual nada se dissocia de nada, e tudo serve a um mesmo propósito, embora não possamos entender o suficiente, tampouco apreciar, se olhamos para experiências distintas como o nascimento de nosso filho ou um tsumani assassino.  "Tudo não passa de parte de um Todo estupendo", diz o poeta gnóstico, porém esse todo estupendo por vezes não nos livra do sofrimento particular pelo estúpido.
Um ritual mágico se vale das seguintes palavras em honra a Adão Kadmon, o Homem Primordial da Cabala, Anthropos: "No começo havia o Caos e as Trevas e os Portais da Terra da Noite. E o Caos clamou pela Unidade. Então, ergueu-se o Eterno. Diante do Brilho desse Semblante, as Trevas recuaram e as Sombras fugiram". Esse reflexo profundo do Supremo é Adão Kadmon, é o Filho do Homem, "o Logos por Quem todas as coisas foram feitas"
Estamos acostumados pela compreensão antropológica mais recente, em voga nas ciências sociais, a encarar a realidade humana como isolada, autárquica, meramente "cultural". Ora, paradoxalmente, na autocompreensão própria dos "nativos" (indígenas) que a antropologia usou para edificar sua visão culturalista, o que vemos é bem diferente: é a compreensão que os herméticos sempre tiveram de que o Homem é expressão microcósmica do Mundo, sempre segundo a mediação transcendental a que damos o nome dos Deuses, esses Ministros do Supremo Poder, para aludir à linguagem política com a qual brincamos de deuses, com nossas liturgias sagradas ou profanas. O Homem como pequeno Universo, o Universo como o Grande Homem. Homem brincalhão adulto ou brinquedo infantil de forças inconscientes, demônios que ele, em grau rudimentar de evolução moral e espiritual, deixa atravessá-lo. Deus, sem existir, caminha entre nós os existentes como o diretor do colégio vindo ao pátio na hora do recreio. "Eu sou criança na Terra, mas minha Raça veio das Estrelas dos Céus". Terra ou, por outra, Malkut, na Árvore da Vida cabalística. O nível da manifestação imediata dos demais atributos da Divindade. Lembra Jung em Mysterium Coniunctionis que um mesmo simbolismo, o da "viúva", é aplicado nos antigos escritos alquímicos para designar Malkut e a Igreja, viúvas do Marido que morreu e que por isso pode deixar herança - não por acaso chamamos a Bíblia de Testamentos, antigo ou novo. A Árvore da Vida já foi representada como a Cruz de Cristo.
Não há matéria "morta", por mais inerte que se nos apresentem as coisas; as encarnações no tempo e espaço são aparência material de "inúmeros centros de energia saindo dos planos dos mundos invisíveis para o centro vivo de tudo". Não há dicotomia matéria e espírito. Toda matéria manifesta é um modo, como diria Espinosa, da Substância única, Vida que tudo permeia.
Nada é vulgar ou sujo, tudo serve a um propósito e é expressão da vida do eterno. "Não existe parte minha que não seja dos Deuses", declara o Adepto no ritual. Apesar disso o mago, como o sábio, discerne a diferença entre o Ideal e o Real, mas não é cínico na recusa do Ideal como mera fantasia, ao contrário, o Real é o Ideal ainda não completamente autorrealizado, seja no mundo externo, seja no drama do Eu, ambos em estado de "Queda", por si mesma prova e campo de provas do retorno (prova como evidência e como provação, pois regressamos à Casa do Eterno mediante o sofrimento de miríades de vida - a salvação é pelo caminho do sacrifício. 
Sacrifício, para quem leu Símbolos da Transformação de Jung, é sabidamente a vivência crítica pela qual o homem morre para o velho ego e renasce para o Self eterno, o Homem Novo. Não há vitória da Verdade profunda de nosso Ser sem a mu-dança ou der-rota da personalidade, isto é, de nossa mascaralidade (persona é máscara, na Grécia antiga). 
Para além das quimeras da "personalidade", conhece-te a ti mesmo é imperativo que escutamos também vindo da Grécia: a percepção do verdadeiro Eu é a meta do mago. "Seguindo esse princípio e mirando seu interior, o mago contempla um mundo decaído. Ele vê que o plano primal sobre o qual o universo foi formado lá está, brilhando por todo o universo como a suprema harmonia e beleza e, através dessa luz, ele vê o ideal no qual seu verdadeiro eu está fundamentado e pelo qual é sustentado".
O velho axioma hermético "Solve et coagula": Dissolve e reforma, pelos ritos da Alta Magia; transmutação do ego pessoal, da personalidade, mascaralidade
"Somente o Senhor edifica a casa, o trabalhador trabalha em vão"; é preciso humildade para nos conectarmos com as hostes angélicas, níveis hierárquicos de Inteligência que nos conduzem ao Supremo
Trabalhos e encantamentos, rituais e círculos, espadas, vagas e fumigações, tudo não passa de meios para se trabalhar pelo triunfo da autorrealização existencial, a Individuação junguiana, ou "deificação", na linguagem mística.
-Unzuhause-