Tuesday, August 13, 2013

naufrágio e amizade


Topei de surpresa ontem na Livraria Cultura com um dos professores brasileiros que mais admiro, Mario Sergio Cortella, que entrava para uma mesa-redonda com a também filósofa Terezinha Azeredo Rios. Ambos estão lançando o livro Vivemos Mais. Vivemos Bem? Por uma Vida Plena. Foi o tema da conversa, aliás bem coloquial, despretensiosa, mas nem por isso menos repleta do sabor do saber. Uma roda de bate-papo inteligente e afável entre palestrantes, público e pensadores  e poetas convidados, como Epicuro, Simone de Beauvoir, Mário Quintana e Manoel de Barros.

 Passaram por questões como o aumento da expectativa de vida média, e desafios disso decorrentes, por exemplo o envelhecer sem emurchecer. O papel da memória como elemento fundamental da identidade pessoal, daí o dano profundo de doenças como Alzheimer, que se instala e leva embora de nós a pessoa, ainda que reste seu invólucro vivo.
A mãe de Cortella, de mais de 80 anos, "compareceu" pela deliciosa citação pelo filho sábio: "Filho, cuide bem do seu corpo, que assim ele dura a vida toda".
Achei bonita a imagem, colhida junto a Machado de Assis, da existência como um conjunto de erratas que vamos republicando, no caminho "editorial" de nossas vidas, que vai dar não no fim, mas nas origens, segundo Manoel de Barros.
Discutiu-se também, a partir de pergunta da plateia, a mudança de valores da nova geração, para a qual se impõe no íntimo um anseio de autorrealização pessoal que transcende sucesso, dinheiro e poder, envolvendo questões subjetivas, questionamentos sobre felicidade e significado da vida.
Livros como esse, cafés filosóficos, Flip, Casa do Saber e outros tantos exemplos mostram como o pensar profundo ganha prestígio nesse contexto em que -ao contrário do clichê de que não passamos, nós pós-modernos, de uns tacanhos materialistas, narcisistas etc- a gente não quer só comida, mas diversão e arte. O "espírito" em suas diferentes manifestações. Vontade de plenitude. Reencontro do que Sartre chama de nosso "ser-para-o-outro", um reabrir-se do ego para o convívio, o caminhar junto, o "vem para a rua".
O momento mais legal do evento, ao meu ver, foi quando Cortella aludiu à célebre cena de "O Náufrago", em que o personagem de Tom Hanks chora desesperado a perda da bola de vôlei para a qual, nos dias do cativeiro da solidão na ilha, dera nome e lugar no seu coração. O quanto somos incompletos, ou melhor, inviáveis, sem o outro, nem que uma mera bola de vôlei! Pena que um outro que sempre se vai, nas existências náufragas que levamos todos.
-Unzuhause-