terça-feira, agosto 06, 2013

Eros, penúria e ardil


Vejam que bela passagem de Jean Baudrillard, na contracorrente de nossa cratolatria, fetiche idolátrico da "força". Assim como o filósofo é o amigo em busca da amiga (Sofia), o mundo é vontade de poder porque se sabe vazio disto que lhe faz falta, e que por isso ele deseja e, nos casos sadios, busca com alegria e vigor. Mãe e pai de Eros, na mitologia grega, se chamam Penúria e Ardil. O que todo calouro em publicidade aprende, hoje em dia, ao entender que o que desejamos não são coisas (equívoco profundo dos moralistas do marxismo), mas marcas.  Riscos que se desenham no quadro-negro da nossa identidade por construir dando-lhe forma e distinção num jogo de preenchimentos e vazios da escuridão já não mais amorfa. 
Sedutor é o artífice do desejo, portanto o mestre do quadro-negro da falta, aquele que se pode haver com a penúria que lhe funda, sem recalcá-la, sem degradar-se numa pseudoforça dos arrogantes que aparecem na telinha, ostentando terno e escondendo debaixo da mesa o samba-canção. Assim como imaginávamos o Chapelin e o Cid Moreira em meus tempos de criança, quando o JN era a voz do Brasil.  Contra o estereótipo falocêntrico da psicanálise, Baudrillard a vê como um discurso da fraqueza, não por isso equivocado, todavia distante do arquétipo do Sedutor porque é fraqueza resignada, furor interpretante,  faltas de que se fala, não enfim o tão sonhado buraco com  que se brinca.
-Unzuhause

"Seduzimos com nossas fraquezas, jamais com sinais de força ou poder. Na sedução colocamos em funcionamento esta fraqueza, e é isso que dá força à sedução. Seduzimos com a nossa morte, a nossa vulnerabilidade e com o vazio que nos assombra. O segredo é saber jogar com a morte na ausência de um olhar ou gesto, na ausência de conhecimento ou significado. A psicanálise nos diz para assumir a nossa fragilidade e passividade, mas, em termos quase religiosos, as transforma numa espécie de resignação e aceitação para promover um bem temperado equilíbrio psíquico. Sedução, ao contrário, joga triunfantemente com a fraqueza, fazendo disso um jogo, com suas próprias regras".

Baudrillard,
Da Sedução