Sunday, August 11, 2013

o cinema sacramental de Terrence Malinck


Com perseverança conquistaremos a vida, diz o Senhor. E com perseverança, que outras traduções chamam de "paciência", a beleza de "To the Wonder" desponta para nós como o diamante contra o  Sol: irradiando luz para múltiplas direções. Li algumas resenhas mal-humoradas, e eu mesmo, na primeira vez que vi, saí com alguma irritação do filme. O que se salvava era sobretudo esta cena que vos ofereço agora (veja acima). De arrepiar ainda mais por vir na voz de Javier Bardem, em personagem de padre à procura de Deus, é um salmo, súplica, coroamento sinfônico de uma missa, magia de transubstanciação das agonias do homem na experiência da Graça. Mensagem na sua etimologia remete a missão, e ambas a "envio". Terrence Malinck não foge a uma indagação -qual a "mensagem" da obra?- que para os entendidos seria uma pergunta-clichê ideal para um nível de entendimento de modelo/atriz/miss paraguai cujo livro da vida fosse "O Pequeno Príncipe". Qual a mensagem então do diretor que já nos maravilhara com "A Árvore da Vida", obra aparentada a que estamos comentando, no sentimento visceral do sagrado traduzido em cinema, ou vice-versa? A mensagem é Jesus Cristo, o nome da graça, o mediador de homens e Deus, a encarnação do Amor que nos ama e que por amor nos dá vida e a Sua própria vida.

"To the Wonder", ao Maravilhoso, dá uma ideia de dinamismo, de caminhar, de ir em direção a - ressonâncias perdidas pela tradução brasileira do título, "Amor Pleno", opção não de todo ruim, por sua vez, na medida da sua ironia potencial: o filme fala do quanto o amor NÃO é pleno, é faltoso, é sabor mas também dissabor. Dissabores do relacionamento amoroso profano, seu desgaste, tédio, traição, seu tirar-nos da alegria do solo natal, que é como leio a metáfora latente à viagem da francesa  para morar com o namorado nos EUA- ela leva consigo sua filha de outro homem (amor em tempos de combinatórias complicadas das alianças de parentesco). O pavor do homem ante o desejo de engravidar da Mulher, que lambe a árvore assim como se ajoelha para a comunhão com o padre, Mulher que extravasa os amedrontados limites impostos pela ordem patriarcal que a domestica, que a tira da alegria saltitante sob a luz e o verde e os bichos, a prendendo num quarto austero ou às delícias de um supermercado americano. Não que se proponha aqui o anti-americanismo ingênuo e maniqueísta, pois a namorada volta esposa à América fugindo dessa vez do mal-estar da vida em Paris, sem emprego, sem a filha, em solidão.
Dissabores do sacerdócio que é o casamento monogâmico,  dissabores também do "casamento" que a Igreja exige entre o padre celibatário e seu Deus prisioneiro do amor ágape mas aqui exilado do amor erótico. Tampouco isso nos embarca numa campanha simplista pelo fim do celibato obrigatório; arranjos institucionais não garantirão por si sós algum final feliz para nosso drama existencial mais profundo, vida contra morte, morte instalada já na vida como a impermanência crônica de todos os afetos, o que em nosso tempo de modernidade líquida (Bauman) redunda na fragilidade anêmica de todo tipo de compromisso conosco, com o outro e com o Absoluto. Medo estéril. O Absoluto como ponto de fuga, quase teimosia de nossos rancores de prisioneiros do relativo. O Absoluto criado à imagem e semelhança das impotências dos seres relativos que somos. Ilusão? Projeção? Alienação? Deem-se os nomes que se quiser, o mal-estar permanecerá, e com ele o anseio se refecunda por um algo mais, um além, o olhar cósmico, olhar vertical, para cima e longínquo, para os abismos do céu -como a câmera de Malinck. 
O marido que não quer fecundar a mulher e que olha pra mulher do lado é  drama de esterilidade paralelo ao do padre que perdeu a fé, que pena no seu voto de castidade quando olha pra uma graciosa freira, quando casa os outros (voyeur no altar da felicidade alheia), quando dá comunhão pra uma fiel sedutoramente ajoelhada aos seus pés. Que se sente uma matraca da Igreja, repetindo liturgias e conceitos vazios sem se dar conta se são SUAS palavras e gestos, se o próprio indivíduo que as transmite as vive.
É nessa encruzilhada dos impasses que a assombrosa oração final se apresenta retumbante como redenção: o nome de Cristo e imagens contemplativas, compassivas, dos sofrimentos, ações e pessoas da vida comum, como que a réplica pelo olhar de Deus do "São João da Cruz" de Salvador Dalí, graça radical da criatura que é um orar através do próprio Criador: o Criador em oração através de nós, não nos fazendo de marionete de scripts desgastados, e sim nos revitalizando e nos dando de volta o nome de nosso destino de auto-divinização na auto-humanização de Deus: Jesus Cristo.
-Unzuhause-