Friday, August 09, 2013

o nome da graça


Gostaria de propor um pai-nosso e uma ave-maria de gratidão pelo papa João XXIII (1881-1963). Santo no coração dos homens de bem de todos os credos, e, em breve, oficialmente santo da Igreja - será beatificado na mesma data de João Paulo II.
Um dos papas mais importantes da história da Igreja, João XXIII espantou o mundo e a própria Igreja ao convocar o Concílio Vaticano II, revolução progressista no seio de uma Igreja que abriu as portas para a modernidade,  reconhecendo enfim como "campo de missão" realidades de fato e de direito que antes eram apenas xingadas e recalcadas pela "hierarquia" eclesial, da ciência à liberdade de culto, da urbanização e suas violências à angústia do ateísmo.
Não é só a voz do povo que é a voz de Deus. A voz do tempo também o é: "vox temporis vox dei". Mas, explicava João XXIII, "isso não significa que tudo no mundo, assim como se encontra, representa a voz de Deus; significa que tudo carrega uma mensagem de Deus, se boa para ser seguida, se ruim  para ser mudada”.
É do querido Angelo Giuseppe Roncalli também a deliciosa afirmação de que: “A vida do cristão não é uma coleção de antigui­dades. Não se trata de visitar um museu ou uma academia do passado. Isto, sem dúvida, pode ser útil — como o é a visita aos monumentos antigos — mas não é suficiente. Vive-se para progredir, embora tirando seu proveito das práticas, e mesmo das experiências do passado, para ir sempre mais longe na trilha que Nosso Senhor nos mostra”.
Vive-se para progredir: um imperativo forte, mas que se desgasta quando transformado em clichê "progressista", em frouxidão moral (dentro e fora da Igreja) e samba do crioulo doido doutrinário, em aceitação passiva dos modismos e misérias da multidão de zumbis despertos que querem fazer de nós num sistema sonambúlico de alienação, massificação e egoísmo. 
Melhor que em ideologias como o marxismo ou outros recém-nascidos da História imemorial do homem, nosso estímulo e sentido de ser e de agir vem da Tradição. Viver é ser intérprete no teatro do mundo; assim também toda Tradição requer interpretação: a nossa deve favorecer o diálogo mas não capitulação, deve denunciar as práticas da cultura da morte sem perder porém o sorriso sereno da misericórdia divina para com todos. E deve pregar pelo exemplo, cultivando vocações com o discernimento da austeridade moral necessária a um soldado de Cristo, seja ele ordenado pela instituição ou pela vox dei: "O problema não é se você veste a batina ou não, mas se você arregaça as mangas para trabalhar pelos outros", como disse o então cardeal Bergoglio a um sacerdote que acabara de ordenar. 
Papa Francisco faz da memória de João XXIII não uma efeméridade formal, mas estimulo vivo e atualíssimo para nosso jeito de ser Igreja. Francisco traz de volta ao pomposo "trono de São Pedro" a simplicidade dos pescadores que Jesus chamou para si. E reata com o espírito progressista no sentido autêntico do termo: dinamismo jovial e solar de Jesus Cristo mensageiro e mensagem, aquele que envia e se anuncia a cada gesto concreto de amor de seus missionários no mundo.
Segundo o rabino Abrahan Skorka, grande amigo de Francisco, o papa tem como eixos de atitude pastoral o encontro e a unidade. Mas não se trata de entendimento abstrato, e sim de "um estado de harmonia entre os homens no qual cada um, com a própria peculiaridade, colabora para o crescimento material e espiritual do outro, inspirado por um sentimento de amor".
"Não se trata de diminuir ou suprimir prescrições ou tornar mais fácil esta ou aquela coisa, mas sobretudo sair a caminho para procurar as pessoas, conhecer as pessoas pelo nome. E não somente porque esta é a sua missão, sair para anunciar o Evangelho, mas também porque não fazê-lo produz nela [na Igreja] um dano. A uma Igreja que se limita a administrar o trabalho paroquial, que vive fechada na sua comunidade, acontece a mesma coisa que acontece com uma pessoa segregada: ela se atrofia física e mentalmente. Ou se deteriora como um apartamento amuralhado, onde se espalham mofo e umidade.
"Portas fechadas", disse Bergoglio numa carta aos fiéis a 1/10/2012 -festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeira das missões-, são "símbolo do nosso tempo, uma realidade existencial que caracteriza um estilo de vida, um modo de definir-se frente à realidade, frente aos outros, diante do futuro". Já as portas abertas sempre foram "símbolo da luz, da amizade e da alegria". E "se atravessa a porta da fé, se ultrapassa o umbral quando o verbo de Deus é anunciado e o coração se deixa plasmar pela Graça que o transforma numa graça que traz um nome concreto: Jesus. Jesus é a porta (Jo 10,9)".
-Unzuhause-