Tuesday, August 06, 2013

o Sol da Vila Madalena


Das experiências mais agradáveis que tive em muito tempo, a meditação no centro budista da Vila Madalena neste domingo. Vila Madalena e budismo nos remetem a um paradoxo estranho, se pensarmos que a via espiritual exige pobreza, sofrimentos mil e privação de tudo. Não penso assim. Buda, como Cristo, é Mestre não do horror e do Mal, mas da felicidade,  ainda que sacrificial. Da luz que saberemos apreciar de-vida-mente, mas não desprezar, ao tomarmos consciência também do inegável das trevas. Caminhando do metrô ao centro me vi banhado de uma luz humana de tal intensidade por todo o bairro, tão "búdica", em seu bem-estar e entrega plena ao presente.. beatitude luminosa à qual se juntava como coroa de glória a colaboração daquele céu azul de  Sol de inverno (outro paradoxo que amo, tão mais gostoso do que a lógica óbvia dos dias quentes de verão). 
Imbuído do espírito jesuítico de missionário no Oriente, que não leva um catecismo fechado e abstrato a ser imposto. Que antes "encontra" a Verdade ali onde foi pregá-la, vendo o quanto Jesus Cristo está presente, invocado ou não invocado, em todos espaços de alma límpida. 
A parte "teórica" do encontro não teve nada demais, apenas reiterou o que provavelmente todos já sabiam sobre a lenda de Buda, do nascimento miraculoso à iluminação debaixo da grande figueira e o primeiro Giro da Roda do Dharma", no anúncio das Quatro Nobres Verdades. Lenda, aqui, não como o oposto de realidade histórica, mas "história" na sua polissemia, que abarca a inventividade ficcional que, por excesso de grandeza que neles há ou projetamos, retira os heróis de um nível de narrativa onde só caibam "fatos como eles foram".  
O que me atraiu mais foi sem dúvida a parte prática, aliás indissociável de qualquer senda espiritual digna deste nome. A meditação me propiciou instantes incríveis de repouso em mim mesmo e expansão da imaginação, isto é, da possibilidade de, como a lenda ver o que não necessariamente está ali: e vi muito. A começar da imagem proposta pela "coach" -Buda no ápice de uma escalada que vai dos oito leões que sustentam o trono que sustenta o lótus que sustenta a Lua que sustenta o Sol sobre o qual enfim repousa o Iluminado, pernas cruzadas, mão esquerda segurando a tigela e a mão direita tocando o solo, sinal que remete ao pleno controle de si com o qual Buda venceu, no embate da iluminação sob a figueira, as ilusórias tentações de Mara.
E vi também meu corpo transfigurado, deixando de ser carne opaca, era um conjunto de paredes vítreas de cor púrpura brilhante como nas lojas e árvores enfeitadas do tempo de Natal. 
Como está à mão, mão que toque o chão, a descoberta de que somos os heróis que cultuamos. Que basta agir como eles, praticar a mente de Cristo, a mente de Buda, aqui e agora, para a vida ser incrivelmente prazerosa e significativa, como um domingo de Sol de inverno na Vila Madalena.
-Unzuhause-