Monday, August 12, 2013

o sonho nazista de Heidegger


O filme Hannah Arendt, que comentei em post anterior, me deflagrou uma vontade de texto que incidia sobre a relação da filósofa judia e social-democrata com Martin Heidegger- cujos detratores, como Victor Farias, tentam distorcer e amesquinhar o mais que puderem para, em vez do maior pensador do século XX, reduzi-lo a ideólogo dos crimes de Hitler, assim como a direita francesa faz de Sartre "nada mais que" filósofo dos massacres stalinistas.
Me decidi enfim a encarar esse paradoxo. Como  Zizek, que o professor anarquista Edison Passeti, da PUC-SP, não hesita em designar de "um stalinista sincero", não creio que totalitarismo seja uma palavra-espantalho a ser evitada como o cristão que foge do demo e o demo que foge da cruz. Creio que é sim uma realidade histórica que precisa ser investigada em suas raízes, e, eventualmente, na diferença entre intenções filosóficas e executores práticos, caso a caso.
O caso de Heidegger e o nazismo é exemplar. A adesão de Heidegger, basicamente circunscrita ao ano 1933-34, remete a um período em que muitos se enganavam a respeito de Hitler. Assim como pensadores-sonhadores do comunismo não merecem automaticamente a pecha de cúmplices do Gulag, houve também da parte de Heidegger um "sonho" de socialismo nacional (em luta com o socialismo internacional da esquerda) que nada teve a ver com o Estado assassino e tirânico que pouco a pouco mostrou a verdadeira face. 
Me impressiona saber, por exemplo, de opiniões favoráveis ao nazismo por parte não só de aristocratas empobrecidos, fanáticos e do lúmpen, mas de setores judeus-alemães que viam no Hitler de 1933 um estadista potencial que veio para "salvar" o país do desastre que todos consideravam iminente: o comunismo. Muitos judeus ortodoxos se alinhavam à posição sumarizada pelo rabi de Ansbach, Élie Munk:"É a partir do judaísmo que rejeito a doutrina marxista; reconheço-me no socialismo nacional [Nationalsozialismus], uma vez removida a sua componente antissemita. Sem o antissemitismo, o socialismo nacional encontraria os seus apoiantes mais calorosos entre os judeus fiéis à sua tradição". 
Assim também Heidegger. Quanto ao antissemitismo, sua posição, bem mais matizada do que a da esposa fanática, era conflituosa a ponto de permitir, por exemplo, a própria a paixão por Hannah (Ana) e a amizade, seguida de desonrosa traição, com relação ao mestre Husserl.  E com relação ao nazismo, seus discursos da época mostram-no um filósofo em tensão com os primeiros sinais do verdadeiro nível daquela gente (se recusou a promover em Freiburg o auto-de-fé proposto para queimar os "livros maus"). Heidegger tomava os discursos iniciais do chanceler Hitler como parâmetro, e neles via a síntese em gestação de uma vontade nacional, geral, popular, de reerguimento após as humilhações impostas pela cobiça e pelo medo das potências rivais. A filosofia política que se depreende de seus escritos de então -estou lendo-os, na excelente edição da editora portuguesa Piaget (Escritos Políticos, 1933-1966, organização por François Fédier- fala não de tirania, mas de tensão complementar entre a vontade dirigente e a liberdade (portanto abertura crítica) dos dirigidos. E, traduzindo categorias existencialistas cunhadas em Ser e Tempo (1927), como Dasein, reivindica que cada povo, assim como cada pessoa, joga o drama da existência no chamamento a se tornar o que se é, não recuar, não se ajoelhar à opressão do outro ou da inautenticidade consigo mesmo. 
Isso não autorizava um chauvinismo alemão, por exemplo, mas sim um exercício que todo país deveria e teria o direito (então negado aos alemães) de fazer por sua vez: o da busca da identidade própria, singular, que no caso alemão, segundo Heidegger, era um destino atado ao Saber solidário ao Trabalhar, porque enraizado no sentido da terra. A Universidade como protagonista do novo regime, não serva dele (pobre Heidegger, imaginando um Hitler quase platônico, mecenas do Espírito..). Um ser universitário não confundido com quimeras escolásticas fechadas em si mesmas e confortavelmente agarradas a ativismo da maconha e salões da conversa fiada  (Heidegger defende o envio dos universitários não só para os altos escalões do poder, mas para pegar no arado e no martelo junto à gente simples).
O nojo que nos dá de rever retrospectivamente todo este período imundo da história não proíbe, ao contrário, convida a investigar melhor como foi possível uma nação daquele nível de civilização, e homens do gênio de Heidegger, se deixarem manipular  e degradar por aquela cambada de oportunistas, tarados e covardes que assumiu o poder no contexto da barbárie da Primeira Guerra Mundial e do Tratado de Versalhes dos "países do bem". 
O historiador Hans Joachim Schoeps é veemente ao dizer: "É preciso ir diretamente ao essencial: 'Não era possível a ninguém, entre 1933 e 1935, antecipar, ainda que de longe, o que um dia viriam a ser os crimes dos nacionais-socialistas. Quem disser o contrário é mentiroso". Podemos sim resgatar os sonhos atraiçoados -como a própria Hannah Arendt não deixou de fazer, quando em artigo bem posterior considerou seu ex-mestre como  "o último romântico, ainda bem"). Vide a beleza de formulações como esta, do então reitor de Freiburg, em discurso de apologia à decisão do Führer de abandonar a Sociedade das Nações, em 34:
"Questionar significa para nós: expor-se ao que há de sublime nas coisas e nas suas leis; significa para nós: não se ficar fechado ao arrepio de medo perante o indomável nem à confusão face ao obscuro. É de resto para poder questionar assim que fazemos nossas questões; e não estamos ao serviço daqueles que acabaram por se desleixar, e da sua necessidade apaziguadora de respostas confortáveis; Sabemo-lo: a coragem de, com as nossas questões, percorrer os abismos da existência [Dasein] sem nunca ceder às sua  vertigem, esta coragem é já em si uma resposta mais elevada do que qualquer informação conseguida por baixo preço pelos sistemas conceptuais artificialmente construídos".
-Unzuhause-