Saturday, August 10, 2013

o zen de Steve Jobs




Chegou o dia. Com a emoção que tive ao ver filmes sobre Jung, estou ansioso pra assistir "Jobs", filme sobre a vida do co-fundador da Apple. Com direção de Joshua Michael Stern e estrelado por Ashton Kutcher, galã que antes eu só conhecia do notíciário de celebridades, por ter dado uma banana pra Demi Moore e ter brincado de surfar numa enchente numa tarde de dilúvio de verão em São Paulo. Se eram dois precedentes - o fora em Demi, sobretudo- que me punham em dúvida sobre sua sanidade, agora ele ganhou meu respeito. Quer dizer, preciso ainda conferir, mas pelo trailer está muito bom no papel principal. 
Já Steve, eu conhecia mais remotamente ainda, alheio que sempre fui ao mundo da informática. Minha mãe me deu noções rudimentares de PC, inclusive como ligar esse estranho aparelho, numa tarde de domingo de 2000, enquanto ela trabalhava na USP e eu me preparava para a entrevista do caderno Mais!, da Folha. Dá para imaginar meu nervosismo para encarar o teste no maior veículo de uma das profissões que hoje mais requerem velocidade, agilidade e traquejo de geração internet. Como fazer teste de F1 pra Ferrari na terça aprendendo a ligar motor de Fusca na antevéspera. Lutei, fui, venci. Mas, afora o aspecto de coerção, o nasceu também o desejo pelo mundo virtual, eu começaria a adquiri-lo com o tempo, com o trabalho e com os vínculos de amizade e amor nas redes virtuais, escapatória para meu desconforto crônico de jovem confuso com os limites de imaginação impostos pelo mundo cotidiano.

Soube da morte de Jobs em 2011 e no noticiário da época vi trechos da bonita palestra em Stanford em 2005 (veja acima). Mas "o cara", pros meus parcos conhecimentos a respeito, continuava sendo Bill Gates. Tudo começou a mudar na minha guinada "capitalista", em fins do ano passado. Depois de adolescente que se correspondia com João Mellão, do Partido Liberal, e que idolatrava Fernando Collor, meu espírito capitalista havia sido algo recalcado por outras paixões ou tentativas e erros, sobretudo erros, como acreditar em PT ou PSDB. Águas (de Tietê) passadas. Apesar de não ser exatamente um "privilegiado" em nossa sociedade tão desigual, não acredito em messias charlatães da redenção coletiva, a solução está no indivíduo, no gênio humano encarnado nas grandes personagens, sou do culto dos heróis à la Carlyle. E Steve está neste panteão, desde que constatei a importância dele não só como pioneiro em computadores pessoais (Macintosh), IPhone, Ipad etc., mas para onze entre dez "cases" sobre a personalidade carismática, genial, inventiva e de sucesso como gladiador das selvagens arenas da civilização capitalista, a melhor que temos, mas certamente não um mundo ideal. 
Um aspecto da trajetória de Steve me causa especial fascinação: a atração pelo Oriente. Foi para a Índia, estudava os grandes sábios, fazia dietas naturebas malucas e, sobretudo, teve na vida, e para sua carreira, um encontro decisivo: o monge japonês Kobun Chino Ortogawa. 
O relacionamento foi interrompido tragicamente em 2002 com a morte por afogamento do monge, ao tentar salvar a filha Maya (nome que quer dizer "ilusão") num lago da Suíça. A filha também não sobreviveu. Mas a amizade já dava sinais de desgaste da parte de Jobs, cada vez menos interessado nos valores e práticas do zen e obcecado com o sucesso exterior, o dinheiro, o poder como líder da Apple, na volta para a empresa que, com Steve Wozniek, ele criara em 1977; o criador fora devorado pela criatura em 1985, quando John Sculley, ex-diretor da Pepsi, manobrou para expulsá-lo num momento de dificuldades financeiras da empresa. Steve é quem buscara Sculley na Pepsi dois anos antes, com o ímpeto juvenil que era sua marca: "Você quer passar o resto da vida vendendo água com açúcar ou quer ter a chance de mudar o mundo?".
A vida de Jobs, Sculley certamente a mudou, assim como da Apple: para pior. E Jobs voltou, em 1997,  triunfante, salvando a Apple da falência, criando e lucrando muito e assim desfazendo a sensação de que passaria para a história como o garoto prodígio de uma obra só -ou duas, o Mac e a própria Apple, uma das mais poderosas empresas do mundo e nascida na singela manjedoura da garagem do papai. Manjedoura, metáfora que vem a calhar: se temos o Judas na história, iria faltar o berço rudimentar não só da empresa, mas também do filho adotivo que foi Jobs?
Como que numa jornada do herói a la Guerra nas Estrelas, o momento da derrota, a "nekya" (descida aos infernos) trouxe o benefício colateral do encontro redentor com a figura de um sábio: o monge japonês, porém nada estereotipado:  Kobun era no seu meio um rebelde inconoclasta, não por acaso a afinidade intensa com Jobs. Na graphic novel "O Zen de Steve Jobs", vemos os dois fumando um baseado enquanto refletem a vida, aliás num diálogo delicioso, em que Kobu pergunta:
-Então, nada de móveis?
-Nunca encontrei nada que gritasse ´perfeito´.
-Será que um sofá precisa ser perfeito?
-Não deveria ser?
-Se você encontrar um sofá perfeito, me apresenta".
Sob a aparência prosaica, é uma conversa que sinaliza, além do inusitado das circunstâncias, uma diferença de personalidade: o perfeccionismo de Jobs, sem o qual não teria logrado o sucesso, mas que o prendia a uma concepção de sucesso muito exterior. No crescente afastamento em relação ao mestre japonês, o discípulo americano levava esse traço ao extremo, além de já estar meditando "quando desse tempo". 
Contradição entre o coração e o intelecto, entre a profundeza do instante e os torvelinhos temporais da ansiedade, patologia típica do homem do Ocidente, mesmo quando se abre para o Oriente em busca de algo mais que divertimento exótico. Com Kobu, Jobs se refez do golpe de Judas, inclusive deixando de lado o maniqueísmo de se ver como "o mocinho" traído por "o vilão". Bem ou mal, que significam esses rótulos? "Não existem pessoas iluminadas. Existe apenas atividade iluminada". 
O ego é uma ilusão. Não-egoica é a mente de principiante,  "conceito" zen para o homem ou mulher que se libertam das bitolas da especialização e da expertise. "Na mente de perito, existem poucas possibilidades. Na mente do principiante, existem muitas". 
A HQ mostra como o próprio design de computadores de Jobs foi inspirado pela geometria da simplicidade apregoada pelos mestres zen.
Na última fala reimaginada pelo livrinho, um decepcionado Kobu, já na porta e de saída do escritório da Apple na Califórnia, diz:
 "-Steve, o significado das nossas vidas não está em se criar alguma coisa perfeita. A Apple, o Imac, essas coisas não podem definir você.
-Diga isso aos jornais.
-Não deixe que a Apple se transforme na sua droga".
E foi-se embora. 
Isso para nos mostrar que heróis da vida real, como Jobs, não devem ser reverenciados por uma suposta perfeição que nunca terão. O que me encanta em homens como Jobs é a contradição que não obscurece, antes ilumina ainda mais, o seu significado e legado para a humanidade. O testamento que foi o discurso de Stanford é a síntese disso no caso do cara que, como dizia o slogan de sua empresa, sempre "pensou diferente", pensou antes, mais e melhor, adivinhando o que nem sequer sabíamos ainda que queríamos. Fazendo da tecnologia não só mecanismo exterior, mas cultura e promessa de "espírito" de uma época desalmada.
PS: Nada no mundo é perfeito, sobretudo as exterioridades, inclusive a meditação, quando hábito que vai na frente da atenção ao instante, quando a filha do monge -a graphic novel nos mostra- vem chamar pra brincar com ela no lago, o pai pede que ela "vá indo", e ela se acidenta, levando consigo um pai desesperado para o triste fim.
-Unzuhause-